25 janeiro 2010

casamento de espanhol




Nunca se viu tanta chuva por aqui como se viu dia desses. Até a casa de uma dona caiu. Dizem que tamanha fora a força do trovão que a casa tombou. Belo patrimônio histórico. E a outra dona passou a noite tirando água de dentro de casa que a água ia que batia nos joelhos e molhou até o teto. É Fantástico. E raios caíram, todos aqui pelas redondezas. No estádio de futebol, torcedores gritavam de alegria e euforia, enquanto na casa de Dona Maria a água engolia tudo que via. E até o computador comprado recente em centenas de parcelas sem juros, juro, a água levou. No outro dia pela manhã a companhia elétrica anunciou que tudo iria se resolver, que todas as geladeiras queimadas, tevês, todos os tipos de eletrodomésticos que foram danificados em recorrência da falta de energia (Esqueci de mencionar que um trovão afetou toda a rede elétrica aqui da região onde moro). Ou fora um raio? Já não sei. Continuando. Pois a companhia de eletricidade vai devolver tudo que fora perdido. Isso eu duvido. Estou pagando pra ver. Mas é isso. Ontem li Fernando Pessoa que tanto fala em espirais e mundo imaginário e me afundei em questões simples. Uma delas me fará perder a fé ou, talvez, andar por aí lendo a Bíblia. Não me admira tanta gente profetizando hoje em dia. A coisa não é fácil. E não finge não que eu sei que você tem medo também. No Haiti, preciso dizer? E o terremoto afetou nossa cidade também. E no mesmo dia, poucas horas antes, a terra também tremeu aqui em casa. Não senti nada, mas foi notícia. Logo, eu acredito. E voltando ao Fernando Pessoa que é literatura pura e clássica que me faz ficar de cabelo em pé a cada verso, penso eu que, se alguma calamidade nos atinge, se algo maior nos aflige ou se entra em curto a vida, de quê vale metáfora, arte de toda sorte e o paiol de lirismo de cada livro, se o homem tiver fim, se não mais existir gente, de quê valerá escrever então? Bobagem pensar nisso. Talvez sim, talvez não. Tudo está cercado de mistério e água de chuva e bueiro entupido. E, enquanto isso, que tal protegermos o tubarão martelo? Ele está em extinção. E não comentemos a ajuda dos artistas de Hollywood. São generosos arrecadando tanto dinheiro e aquela cantora negra tem um vozeirão. E haja dinheiro pra erguer a vida de todo mundo. Mas de quê vale ajuda se a sede é tanta e a fome é latente que o homem não se comporta mais como gente e vira bicho sem modos de estimação? De quê vale nossa língua se tudo que acreditamos existir decidir não mais fazer sentido? E onde eu estava mesmo? E onde estou? Sei que pareço imbecil, afinal de contas não sou Lya Luft em artigo da Veja, mas sou o que tanto se fala por aí. Um ponto a mais na audiência. Ouço Debussy, vou ao supermercado, penso em sexo mais do que deveria e escrevo invencionices porque em mim ainda há doses de ficcionismo e lirismo que me fazem recriar o mundo ou fugir de tudo por um minuto. E ainda acredito no amor igual. E por falar em amor, preciso pagar as contas e telefonar para minha mãe. E espero que não chova por tanto tempo amanhã senão a casa cai e leva embora a vida inteira que um dia eu tanto quis viver.




Image by cidaq

5 comentários:

Carlos Pegurski disse...

Ao contrário: o fim está sempre atrasado, porque é bonachão e sempre para pra conversar com o tempo. Enquanto isso, escrevemos escatologias. Que acabe: quero ver quem põe fim em palavras.

Zélia disse...

Nossa! Essas questões sobre chuva, sol, casamento, deixa a gente meio tonta mesmo. Depois disso tudo aí vem o fim, a morte. Fim? Mais tonteira. Eu acho que cheguei a um ponto. Não a uma conclusão - sou mosaico interminável.

É indiscutível que devemos nos preocupar, e mais que isso, agir, com a destruição que o homem causa ao planeta. Enchentes, terremotos avassaladores, animais em extinção, falta de água - por ironia do destino da Dona que tira a água de casa com o balde - falta de comida para uns e esbanjamento de comida para outros, entre tantos outros fatores, nada mais é que a ação do homem no planeta em que vive e que deve esperar viver por muitos e muitos anos ainda, já que a vida em Marte, se for possível, só acontecerá em não menos que 100 anos, nos disse o Discovery Channel em um programa sobre o planeta vermelho. Se a vida em Marte for possível ela terá de ser reinventada pois os estudos sobre o planeta já determinaram que a vida existiu lá. Isso mesmo! "Existiu". Alguém ou alguma coisa acabou com ela. Quem sabe se já não fomos nós mesmos?

Bom, o tal ponto ao qual cheguei me faz ver que eu devo me preocupar com questões ambientais e tal. Sério! Mas acho que medo e desespero não devem fazer parte na nossa caminhada. O fim do mundo chega para cada um quando nós morremos. Será o nosso fim nesse mundo. Independente de irmos todos juntos ou não. E é verdade que já vencemos muitas batalhas de armagedon. Não sabemos quantas mais poderemos suportar. Cada um que faça a sua parte para somar. Há inocentes de todas as espécies morrendo por conta do egoísmo humano...

Sonhadora disse...

"De quê vale nossa língua se tudo que acreditamos existir decidir não mais fazer sentido?"


É coisa que eu nem gosto de pensar. Meto logo a cara num livro e finjo que o fim nem é comigo.
E a gente só sabe mesmo é fugir.


Maravilha de reflexão, Letícia!


=]

Mariah disse...

e essa chuva que faz a gente ficar em casa...pensando, pensando, pensando...

Germano Xavier disse...

Só está faltando vir um crítico aqui que tenha a palavra influente e dizer que descobriu a nova voz da boa literatura pop tupiniquim. É o que resta, pois o outro resto está muito claro.