13 janeiro 2010

do delírio dos sentidos




"Amo-te mínima como quem quer mais
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha."

(Hilda Hilst)



À tarde amena transitória vi teu corpo. E não tardei a querer o que nunca por vida havia visto. Tendo eu enxergado a ti, de minha branda voracidade de gente tímida, de um beijo de língua, de um beijo francês no qual te assumo minha parte, meu prazer, meu sudário pálido que desejo a cobrir-me em claras noites, tanto quis. E, ao volume do rádio, uma canção tardia dizendo estradas, eu queria um drink e uma fisgada de tua língua. E ainda quis mais e, por subverter o sentido das coisas, minha vontade por ti coagida, insana e verdadeira, flagelada como os imprudentes poetas marginais, deixei-me amargar em teus desejos e não movi opostas declarações espontâneas. Menti como aprendi a fingir depois de um drink e o corpo, trapézio a ti devoto, úmido se rendendo aos teus punhos, quando então abri a boca e libertei a palavra que seria de mim o maior pecado e de ti faria ser consagrado. Uma cereja entre nossas línguas e à noite não tardaria. Mas o medo em suplicar o que meus olhos tanto queriam ter fez-me partir. Abandonei o desejo por medo ou terá meu corpo realmente sentido a existência de teu corpo pleno em pungentes e imensos movimentos? Ainda a duvidar penso em ti e trago o gosto em minha boca. De delírio em dolorosa dormência de todos os sentidos.





Image by pedraxas

9 comentários:

Biba disse...

Tua escritura está cada dia mais refinada e pura e louca. Me estendo ao redor de tuas palavras e de como fazes o que queres com elas. Te admiro muito!

Beijos
Carpe Diem!!

Sonhadora disse...

...e morri.

Hoje li 15 vezes a página 39 do seu livro.

=D

ai, ai

Beijos, Letícia.

Mariah disse...

de tão bom, a gente duvida que foi real...mas também, quem disse que precisa ser real para ser bom!

Mai disse...

Eita! E arde e queima...
Let, não é inssosso o tal beijo francês ou é um au revoir?
Uma doidice suicida e adrenérgica... bonita de se ler "trapézio úmido rendendo aos teus punhos" (Letícia Palmeira)
Um espetáculo, uma cena de pura confiança onde uma vida se pende.

Beto Canales disse...

pois é...

Elcio Tuiribepi disse...

Vou com a Mai...no trapézio...hoje te lendo me deu vontade de mudar minha forma de escrever, virar o disco e dar um triplo mortal carpado na minha escrita...aff...sei lá...mas vamos que vamos...porque você já foi pra muito além com sua escrita...
Um abraço na alma...bjo

Anônimo disse...

Resolvi de novo sondar tua casa e falar e hoje é um daqueles dias em que leio e fico de boca aberta sem saber o que dizer. Te li, leio sempre. é um prazer ler seus textos que despertam em mim situações de extrema admiração por sua obra.

Zélia disse...

Bom, eu me declaro mesmo! Só deixo para dizer "certas coisas" ao pé do teu ouvido. Não apenas porque "certas coisas" não são apropriadas para este espaço. Mas, também, porque a força de tuas palavras me chegam com uma energia tão forte que me fazem calar pela primeira vez. Vc sabe q isso é quase impossível em se tratando de minha pessoa. 8) Faz-me lembrar de uma frase de Mário de Andrade que cai em "do delírio dos sentidos" como mão na luva...

"Quando a alma fala, já não fala nada." (Mário de Andrade)

Just do your job! ;)

Germano Xavier disse...

Um dos maiores méritos de um(a) grande escritor(a) é conseguir de modo claro e pleno escrever sobre o que o leitor queria dizer. Este é o texto-recíproco, leitor(eu) e autor(você) em comunicação emissor-receptor, num molde antigo de se pronunciar algo que não pode ser dito senão com palavras escritas.