03 janeiro 2010

equinócio



Minha casa não se ergue em rica balaustrada. Segue à risca o vapor dos rios, mantendo distante a cidade de caros homens e negociantes e nada há de sutil em minha moradia. Pobre de reentrâncias, raquítica de elegância, permite que seja vista minha casa o tempo, embora poucos façam dela a olhar atento bela vista. Ela se estreita entre o céu e o astro hemisfério, de simplórias paredes cogita distraída, e seus tijolos ferem minha pele e suas quinas paralisam minhas ventanias com suas farpas e dentes que de mim fazem ornamentação. Não exibo milagres de onde moro. Habito como se fosse animal quase sem vida arriscando ainda ver a luz do dia. E aposto com Deus que deste dia não tardarei. Porque a morte respeita a reviravolta do talhar do tempo e, reconhecido meu equinócio de momento, volto a me equilibrar. Visitas minhas não reparam na mobília, meus andares, os delírios de meu lar. Mas me percebem. Vadia a dar de ombros entre a solidão e a manhã que rompe meu sono e, se ainda recebo amor dentro de minhas vias feminis, não será porque assim o quis. É a necessidade que se adianta e assume seu canto feito relógio de parede exibido como herança. Em minha morada não há amor de sobra a dar seus olhos. Há um espírito de mulher altiva, de voz suave e seios que em leitos se desnudarão. Minha morada é a bendita reconciliação entre o esquecimento e o mover de eventos que traz de volta pessoas que destas horas se distanciam e pernoitam em mim por bruta e desumana teimosia.




Image by felix eddy

9 comentários:

Tânia Marques disse...

Amei o teu blog! Parabéns pela escrita genial. Colocarei o teu link na barra lateral do meu blog, a fim de divulgá-lo e acompanhá-lo em tuas postagens. Beijos. Tânia

Meu blog: Palavras e Imagens
www.marquesiano.blogspot.com

Elcio Tuiribepi disse...

Caramba Letìcia, você decreveu de uma forma diferente de tudo ue já vi a vida real e dura de uma mulher que faz da vida seu trabalho...
Gostei muito deste final...
Minha morada é a bendita reconciliação entre o esquecimento e o mover de eventos que traz de volta pessoas que destas horas se distanciam e pernoitam em mim por bruta e desumana teimosia.
Parabéns Letícia...um abraço na alma...bjo

Zélia disse...

Todo momento de equinócio é especial para mim. Eu acompanho o mudar das estações com o mundo quando o equinócio é cósmico. Quando não, eu que faço é o mundo acompanhar a mudança das minhas estações. Eu estou em "equinócio" agora. Não vivo apenas uma mudança de estação mas a mudança de uma era. Acredito que "a morte respeita a reviravolta do talhar do tempo". E, como já conversamos aqui mesmo há tempos não tão distantes, é depois da morte que vem a vida e o equilíbrio que ela exige. ;)

Thomaz Ribeiro disse...

Seus textos são sempre muito bonitos. Com já disse antes, tem um estilo próprio, só deles. Essas histórias nos levam longe, num mundo onde o tempo está sempre suspenso.

Leo Mandoki, Jr. disse...

lendo esse em conjunto com anterior é possível (bastante possível!) compreender o teu momento - agora sim estou mais próximo de ti.
um beijo forte

Biba disse...

Essa mulher que você é nessa moradia às avessas me traz uma vontade de poesia incrível. Porque teu texto é poético e altivo, e isso nos dá alívio, formosura, acabamento.
Meu beijo e carinho
Carpe Diem!!

Beto Canales disse...

Legal!

Mai disse...

Dias e noites iguais e o equilíbrio de tudo.
beijos, Letícia.

Germano Xavier disse...

Não tem nada aqui de equilíbrio. Palavras da desgraças desembestadas e sem rédeas. Sou o cavaleiro solto no lombo do animal, sem sela, avulso.