26 janeiro 2010

vigílias




O bom seria aprender a dizer todas as coisas. Como se faz nos filmes. Ter um script cheio de palavras todas claras. Eu queria saber dizer todas as coisas. Que não gosto de sair durante o dia e passo alguns minutos olhando garrafas se equilibrando dentro da geladeira e ainda observo a fila de formigas que sai de um pequeno buraco entre o vão da escada e caminha em direção a porta de nosso quarto. Hoje eu falaria tudo. Sem medo. Sabe quando se fala antes de morrer? Falar de arrependimento, pedir perdão por tantos erros e contar segredo de cofre? Eu falaria. E passaria o dia sem pensar em nada de tanto pensar em você. Passar como se passam estações, modas ou imagens pela janela do avião. E me apegar as nossas imagens no espelho, pelas ruas, de mãos dadas ou caprichando pra fazer o outro sofrer. É que amor é planta carnívora ou poema do Neruda? Não rima amor às espumas flutuantes, não desatina a se fechar como a flor temporã. Por muito tempo, tanto que se perde conta, fui sozinha imperando meus estados. Aquela coisa caótica de pós-modernista cobiçada em palestras e odiada em banheiro feminino. Até você chegar e que violência nos causa querer. Parece que falta ar, parece que o mundo tem fim, parece mesmo que me perdi e só me encontro quando você entra em casa e, alheio, toma banho e investiga fechaduras e dorme. Amor é mesmo uma bobagem. E veja como fico. Anestesiada esperando ficar calada pra dar tempo de você alcançar meu ritmo e, quando percebemos, somos dois sendo nada e sendo tanto e que inveja sentem os vizinhos quando o mundo dorme e nos cobiçamos. E a madrugada extasiada não sacia e mata mais que a fome de nossas vigílias.





Image by Leonid Afremov

12 comentários:

Mai disse...

É uma guerra isso. E Amor é isto - é tudo e nada que se diz. E chega de mansinho num terreno onde a lei de despejo nunca alcança. Você quando fala desse amor se explode com uma beleza descabida ao que se estraçalha. Um beijo, Let.

.Leonardo B. disse...

[É! só na televisão o sol brilha sempre, como cantavam aqueles rapazinhos no tempo em que eu ainda tinha acne]

um imenso abraço, Letícia

Leonardo B.

Sonhadora disse...

A rotina que se muda junto com o amor em nossas vidas sabe ser bonita e insuportável.


"Amor é mesmo uma bobagem"...

e todo o resto também...creio eu.

=]

Mariah disse...

inspirado e muito inspirador!

Edilson disse...

Querida Leticia:

O amor é uma grande bobagem (tão necessária)...rs Ficaria sem ar, não poderia viver sem amar, seria impossível e asfixiante.
Tõ esperando tua visita no meu blog hein.
www.lua2gatos.blogspot.com
Beijooo.

Zélia disse...

Ah... Eu agora fico tão mais "bestificada" ao falar ou ouvir sobre o Amor. Vc sabe que eu sou filósofa 8) e conhece a minha filosofia - elas são MESMO minhas. Nesse instante, eu vou dizer que nos confundimos muito com esse sentimento tão profundo. "Amor é amor a nada" e é preciso que se entenda essa linha de Drummond em um dos meus poemas preferidos de todos os tempos: "As sem-razões do amor". Ser "amor a nada" é a máxima de sua existência. Pronto! Agora, quando se pensa em amor carnal, ainda assim, ele deve ser "a nada" mas ele, o Amor, só existe quando duas pessoas estão em sintonia profunda e completa. Eu SINTO exatamente o que vc sente. Eu QUERO exatamente o que vc quer. Eu VIVO exatamente o que vc vive...

Biba disse...

Oi Letícia, grande contentamento ao ler seu texto. Porque me pego pensando muito sobre o amor e você tocou no ponto. É um querer que arde e ao mesmo tempo cessa de querer.
Beijo
Carpe Diem!!

Narradora disse...

De urgência e de calma, bom seria mesmo aprender a dizer todas as coisas.
Seu crescente arrebata. Belo texto.
Beijo

Monday disse...

Oi, Le.

Sempre bom vir aqui, te ler, gostar e falar que sempre é bom vir que te ler.

Adorei voltar hoje, mesmo sendo o texto do dia 26.

Hoje é 30, é aquário e sou eu em mais um ano completo. Gosto de ver amigos e amigas no dia do meu aniversário, me faz sentir mais a parte boa do mundo.

Logo, não poderia deixar de vir aqui.

E, ao sair, passar na Maizita, que já está com link aí acima me convidando para uma visita ... rss

Bjks, menina.

Germano Xavier disse...

Dizer o que sente o coração-corpo-bola-de-viver e morrer, para descortinar esferas pálidas de auroras. Já tive horas de querer proferir o verbo mais bem maldito, tenho essas horas de não ser truque, de ser diabo bom. Eu vivo aqui.

Thomaz Ribeiro disse...

É difícil viver nesse corre-corre, nessa busca incessante de uma resposta que nunca se obtem.

Samuel Pimenta disse...

"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas."
Eis os ensinamentos do GRANDE Álvaro de Campos.

Porque amar é isso mesmo, uma "bobagem", um encontro do "eu" e do "tu" em que se forma um "nós" eterno, uno, perfeito!
Adorei o texto!

Um abraço,

Samuel Pimenta.