12 outubro 2010

segundo império



"Tem mais presença em mim o que me falta"

(Manoel de Barros)



Voltarei a tocar violão. Acalmar nervos e harmonizar meus tons e cantarei alto, incomodando vizinhos, arranhando noites deixando o sono sumir. Voltarei à velha rua onde a paz residia. Tranquila e imediata. E à infância ao pé de jabuticaba onde eu namorava meus sonhos e pensava distante olhando o céu em todo azul. Voltarei a rezar, clamando a Deus e pedindo ajuda pelos que não podem falar e vivem no descontentamento. Voltarei a criar normas para o equilíbrio de minhas ideias. Tão emotivas, tão sensitivas, andam procurando sorte em cartas de tarô. Voltarei a dizer amor, indestrutível metáfora de vidro, escondido dos inimigos e minguando à luz do abajur. Voltarei a ler romances que falem sobre terras distantes para que eu possa sempre e mais sonhar. E comerei frutas todas maduras e desejo devorar vozes que ando carente de felicidade. Acordarei meus antigos hábitos, redigindo cartas em minha máquina de escrever, telefonando aos amigos, visitando parentes e trabalhando contente tentarei me resgatar. Voltarei a concluir ciclos, refazer receitas e, finalmente, dar por completa minha arrumação. Voltarei a fazer tudo que deixei de fazer por preguiça ou maldição. Farei todas as coisas que nunca ousei fazer por medo de ser vítima de minha intensa e desvairada fome de viver.




Image by pesare

9 comentários:

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Leticia...nãoéque também volatrei a tocar violão, acalmar meus nervos e harmonizar meus tons...rsrs...
Compreiumviolãonovo,os meus sqqui estavam terríveis,também pudera, mais de vinte anos de uso..rs
Essa desvairada fome de viver...
Essa dói no estomago da gente e também nos confins da alma...
Olha...quando puder passa lá no verseiro, acho que irá reconhecer o texto...rsrs...

Um abraço na alma...bjo

Fatine Oliveira disse...

Gostei muito do seu texto. A vontade de viver deve sempre falar mais alto em nós, porém o que ocorre é que insistimos em contê-la e acabamos por meio-viver.
Refazer ações e encorajar-se para outras sem dúvida é o melhor passo...
Parabéns... Ótimas palavras!

Xanele disse...

Fome de viver...
adorei o texto
bjsss Amore

Sonhadora disse...

Que bom te ler de novo!
rs

Esse fim me fez lembrar Ana e seu "violento ímpeto de vida".

E também é o que sinto quando leio Letícia Palmeira.

=}

Biba disse...

Preguiça ou maldição... Queria também voltar a fazer tanta coisa ou ensejar coisas novas... coisas coisas coisas... como você sabe.

Beijo e afeto sempre
Carpe Diem!!

Elcio Tuiribepi disse...

Hein!! Tímido sou eu...rs
To perando...perando...perando...
Eu é que agradeço...
Um abraço na alma...bjo

Zélia disse...

Triste essa frase do Manoel de Barros. Infelizmente, é assim que a maioria das pessoas têm se sentido. Já me senti assim por algumas vezes e por algum tempo. Há muito não me sentia assim. Mas depois de algumas perdas voltei a me sentir assim. Saudade mata. Sendo um ser passional, a saudade é a minha maior inimiga. Não tem presença em mim os bens materiais que me faltam. Só pessoas que faltam. Eu preciso encontrar meu equilíbrio com relação a isso. Eu lembro do Bono que diz:

"What you don't have
You don't need it now"

Essa frase que sempre me martelou. No entanto, eu acho que entendo o que ele quer dizer. Ou melhor, aceito. Já vi que a vida passa de qualquer jeito e, um dia, ela vai passar por mim...


Querida, eu acho que poderíamos classificar seus textos como sendo de "auto-ajuda" - olha que dá mais dinheiro! kkkkkkkk. Toda vez que eu venho aqui, eles funcionam como um espelho para mim e eu me vejo falando comigo. Isso quer dizer que seus textos são "clássicos". Afinal, só me vejo em espelhos grandiosos. 8)

Flor do Equador disse...

Imagem, epígrafe, texto. Pequenos e grandes.

Ophicina de Arte & Prosa disse...

Letícia,

Muito bom o seu texto com tantas voltas e idas... O blog tem um título perfeito. Parabéns. Desejamos sorte na vida e nas letras a você.

Rachel e Fernando Poetta
Ophicina de Arte & Prosa