04 abril 2010

indecorosa




Solitárias caminham dilatadas em minha língua diversas palavras que nada dizem quando encerradas no silêncio entre a timidez e um copo beirando a água. Hermética à fonte do desassossego, confusa de pai e mãe, segue muda entre imagens e sons que povoam minha imaginação porque mal existo quando finjo ou quando despem opiniões acerca de mim, que será um dia algo, que será memória de alguém. Ela diz, ornamenta, ostenta e, entre os muitos que somos, existe ela que é a mais louca de todas as outras palavras que já ouvi. Diz que ora sim, ora não, faz sentido, sequer existe. Corajosa, ruminando o que digo, ela vai de ouvido em ouvido espalhando o dito e, me fazendo presa, esqueço que liberdade é parte e todo o resto é prisão. Se falar, despeja sobre mim seu ato que sou palco e me alucino ao ouvir palavras. Não demora, não afoga a rima em covardia nem me deixe ao desesperado vazio de uma lembrança tardia. Pois que me aborto das obrigações desse mundo e, tonta, viciada no ópio das horas, espero a palavra dizer de mim. Canta sua palavra e não se refugia em decente oratória. Palavra não cora e, mítica, nasce da vertigem entre o início e o fim de toda e qualquer história.




Image by JahazielMinor

5 comentários:

Sylvia Araujo disse...

Esse seu ritmo é um escândalo. Lindas palavras sobre as palavras. Elas são mesmo incríveis, dentro ou fora, sim ou não, corajosas, não coram - fazem história!

Beijoca, Letícia

Elcio Tuiribepi disse...

É isso que impressiona Leticia, o ritmo que você dá oas seus escritos, é como se fosse uma avalanche, mas que vai descendo morro abaixo de maneira ordeira, mesmo que sendo a mil por hora...rsrs
Mas me diz uma coisa...o livro nada ainda...vou passar no correio hoje de novo ok...
Parabéns...o outro é poema sim...e dos bons...rsrs...tem mais desse tipo ai? rs

Um abraço na alma...bjo...deixo um pedaço de um texto do Armando Nogueira que nunca foi publicado...

A vida me ensinaria, também, que não basta entender o olhar do outro. É fundamental ajudar o outro a decifrar, corretamente, o seu próprio olhar, com todos os enigmas, com toda sorte de exclamações, de interjeições, de interrogações e reticências que perpassam a vida de um ser humano.


Armando Nogueira

Biba disse...

Querida, essa batida ritmada das palavras são o próprio teor do texto a se desvendar. Gostei tanto que reli.

Beijo e afeto
Carpe Diem!!

Zélia disse...

Minha palavra: Trabalho que confirma, como se preciso fosse, ofício de escritor.

"...porque mal existo quando finjo ou quando despem opiniões acerca de mim..."

Adorei a colocação! Realmente, só existimos quando a palavra que fala do Eu vem da alma de cada um.

Germano Xavier disse...

Tu conceituas o escrever como quem conceituas o parimento de um outro ser de nós mesmos. É muito lindo tudo isto.