28 abril 2010

obediência






Hoje ele se afundou em mim deixando sair de sua boca seu mantra masoquista, sexista, egoísta e sufocado em compaixão. Quando pensei que seria o fim, recomeça o homem a escavar meu corpo e eu não encontro formas de mover minhas mãos. Enfim, enjaulada a presa atraída por um beijo. Penso em tantas trivialidades durante o sexo. Unhas e esmaltes, livros empilhados, terremotos, serpentes, olhar bem nos olhos e fico quieta porque sei o que ele deseja. Meu silêncio, minha angústia, minha risada de quem entende e ainda me pede ordenando que eu o faça. Meu orgasmo é ato público de exibição mambembe. Contorce o corpo a mulher e chora e ama e o homem é único quando me desmancho. Eu me desfaço quando ele me eleva ao ritmo de prender respiração e beijar morrendo e o espetáculo nos ostenta e são noites e dias mudando meus hábitos e respeito ordens do meu senhor. Trêmula rastejo, lambo seus dedos e me torturo sozinha de pernas ao ar porque é assim que ele me quer. Ele que tanto me envenena ao se alojar em mim e deixar seu sangue, restos da rotina, palavras recortadas de jornais e os tons agudos de uma vida de amor e cólera. Tudo ele despeja em mim. Atiço o animal que de mim exige atenção. Uivos e manifestações de feminilidade. Salto alto, lingerie e chora meu amor que decoro seu pranto. Saio rindo ferida e aberta feito cortina rasgada que não esconde o sol. Católica e pecaminosa, beijo a boca do homem tantas vezes e penso em tocar com as mãos e tocar com os lábios e divergir e fazer com que sinta raiva porque não me abismo em tão gentil firmeza. Sofro quando me ama e sofro mais na solidão. A isca presa ao anzol. Deixa dormente e exausto meu corpo, mas é alívio servir de alimento. E todo meu querer há de ser violento. E nada em meu amor há de ter razão.






Image by weathered182

11 comentários:

Juan Moravagine Carneiro disse...

Senti o cheiro de (o) personagem de Pauline Réage...

...Mas também o corpo ainda úmido se perdendo dentro dele mesmo, adentrando no silêncio do caos organizado...A maquina pode até ter perdido seus sentes, mas ainda sim, o gosto permanece...!

Pensamento e Fumaça disse...

Delicioso!!
Há muito tempo não encontro uma prosa assim, tão intensa e indecorosa!
Sua mais nova fã...a teus pés!
Um enorme beijo!
Mell

Renata Luciana disse...

Desordem leviana e indecente. É tudo tão profundo e raso quando escreves... que já não sei se te leio ou escuto minha alma de travessia. Estou aqui sempre, é um dos meus eleitos todos os dias

Zélia disse...

E não é mesmo que as palavras não se multiplicam, ás vezes?!

"Atiço o animal que de mim exige atenção."

Acho que isso acontece com toda a mulher que sabe ser Mulher. Obediente, católica, pecaminosa e pensadora de trivialidades durante o sexo. Por que não? Somos multifacetadas e artistas "do circo Romano" de nossas vidas.

Adorei o texto e é verdade!!! E, no final, ele parece um poema clássico ou uma oração, quem sabe? Seja como for, eu digo amém.

"E todo meu querer há de ser violento. E nada em meu amor há de ter razão."

Elcio Tuiribepi disse...

Oi leticia...to aqui rlendo devagar para comnpanhar seu ritmo...rsrs
puxa vida..quando penso que uma prosa não vai suplantar a beleza da anterior, vm voc~e com essas palavras todas como uma locomotiva pegando passageiros, na verdade leitores que embarcam na sua escrita, católica e pecaminosa...
Muito bonito...muito...muito bom Leticia...
Uma prosa Leticiana...rsrs
Apareça no Verseiro...tem poema Tuiribepiano lá...rsrs
Ah...acho que vou ter que processar o correio...pediram de novo um prazo, pois ainda estão entregando coisas postadas no inicio de março...
Nem sei o que dizer...chato isso...a gente fica mal na fita...
Um abraço na alma...bjo

Germano Xavier disse...

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Ribeiro Pedreira disse...

Não há razão no amor, sentir, no querer, no desejar. Os motivos são para se entregar.
Um texto altamente orgânico. Passarei por aqui mais vezes.

Nara disse...

Gostei bastante do texto.
Bom mesmo é poder ser tudo isso, sabendo-se assim feminina, sem se ater a nenhuma amarra.

Elis disse...

Olá Letícia, este é o tipo de texto que eu particularmente gosto, desses assim, com movimento, intensidade!Palpáveis, hehehehe! Mesmo que as palavras escolhidas para tal descrição, até pareçam sutis da forma como foram escritas. Gostei demais!
Não canso de elogiar tua escrita!
Abraço
Elis.

Espaço Aberto disse...

Você pediu para não deixá-la esquecer... Então amanhã voltaremos para apreciar a sua participação na Coletiva sobre o outono!

Receba o nosso abraço carinhoso

Biba disse...

Estou aqui. Li e gostei. Texto aberto, sedutor.

Beijo grande
Carpe Diem!!