21 abril 2010

post scriptum




Que é um conto? Um trem esperando passageiros ou um homem fechando o zíper de sua calça jeans ao meio dia em pleno estacionamento de um shopping ou uma tartaruga se protegendo da chuva ou as lágrimas de uma solteirona se aglomerando dentro de um barril? Ou será o intervalo do recreio e a menina que inveja sua amiga que tem cabelos compridos e faz sucesso entre os meninos? Vejo a literatura tomar vida. Navio chegando ao cais e o asfalto cresce feito mato que não há praga no mundo que o destrua. Ele, o asfalto. Mas falando em conto. Começo, meio e fim e um monte de acontecimentos pelo meio da estrada e um clímax que pode ou não ser bom para você, mas, com certeza, será bom para mim. Acendo um cigarro e fumo. Orgasmo deveria ser mais democrático, não acha? E diz o conto que um homem, aparentando 30 anos, voz grossa e cabelo grisalho, entra na casa da Senhora M. e faz, de uma simples noite de outono, uma calamidade pública. O tal homem entra, diz que é conhecido da família, toma chá na sala de estar e logo diz a que veio. Mas, antes disso, há uma minuciosa descrição física da Senhora M. de seu marido Senhor J. e da filha do casal, a menina G. Depois das devidas descrições, a história segue letradamente, quando, enfim, a verdade apoteótica surge e abra os olhos, leitor, o conto está para contar. O homem, por motivos aqui não relatados, tira de seu casaco uma carta que muda o destino da família que morava tranquilamente no subúrbio de Paris. Fim. Conto é o que conta fatos, picota o tempo pra dar tempo e segue definitivo gerando conflito e arremata em um acontecimento crucial. Ou não. Há contos que terminam pela metade. Ou seria o fim a metade? Será que todo conto tem clímax? Será que toda narrativa segue regras ou se rebela por anomalia intelectual do escritor? São indagações dignas de um conto. Talvez gótico aterrorizante ou urbano ou metafórico ou um bote perdido no meio do oceano. E, no meio do tempo, o homem que fecha o zíper e limpa as mãos nos quadris, entra no shopping rindo de feliz. Nem suspeita o homem que sua história fora observada, descrita, lavrada e logo será contada, detalhadamente, por algum ser vivente que escreve ou mente ou talvez aumente, palavra por palavra, a vida que nos retrata diariamente.



12 comentários:

Germano Xavier disse...

Texto napolitano, tipo texto escrito por você mesma. Seccionado, dividido em partes, texto-sorvete de conto. Meio prosa, meio ensaio, meio poesia. Napolitano. Soa como questionário, soa como desafio, soa como metaconto. Eu, como ser escrevente, pensei até em escrever sobre os personagens das iniciais maiúsculas. Mas não sei. Só quem lê e escreve consegue entender de tais proposições referidas no texto. Eu penso que o conto passa antes pelos olhos. Só depois as mãos. E você soube bem dizer. Além do mais, está lendo Cortázar. Você tem o que dizer.

Sonia Schmorantz disse...

Conto, que enquanto analisa, conta...
beijos

Sonhadora disse...

"quando, enfim, a verdade apoteótica surge e abra os olhos, leitor, o conto está para contar."

Que brilhante você é!


Qualquer observação minha não faria diferença alguma.

=]

você conta e eu leio. Fim.

beijos

Beto Canales disse...

Interessante, no mínimo...

Biba disse...

Lindo Letícia, pura metalinguagem. Amei.

Beijo e afeto
Carpe Diem!!

Devir disse...

Encontrei-me nele, sou daqueles que faz garimpo de fatos merecedores de serem contados, normais ou inusitados. Foi ótimo!

oquemeinferniza disse...

Gostei muito do texto metalinguagem, parabéns pelo blog, tudo aqui é lindo.

Líria

Mariah disse...

não consigo me apegar aos contos.
os personagens dos contos são como pessoas que conheço no trem...nossa relação dura o tempo da viagem de uma estação a outra.

adoro longos romances.

Espaço Aberto disse...

Como sempre...arrebentando...rsrs

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Zélia disse...

No mundo da literatura tem relógio? Pensei em dizer que estava chegando atrasada por aqui mas isso não condiz com os fatos. Eu vi a lua antes dela nascer e se pergunto, curiosa, porque vc me fez vê-la não é que eu não goste. Eu gosto. Foi assim antes do mundo ser mundo e, ainda, sendo assim me faz sentir orgulho e até um pouco parteira. Não deve haver profissão mais poética que trazer bebês ao mundo.

"Post Scriptum". Eis o nome. Fazer literatura é também brincar. É também fazer descontrução. É puxar a toalha da mesa. É colocar laços de fita na cabeça de quem ou do que quisermos. Eis seu texto que conta o que conta. Adorei a idéia do trem esperando pessoas e concordar que "o conto está para contar". Eu, continuo contando: 1,2,3,4,5,6...

:)

Elis disse...

Eita! Como costumamos dizer aqui pras bandas do sul! Visualizei tudinho! Cada paalvrinha e na boa ... é desses que eu gosto!
Adorei o texto! Mais um que degustei no meu café da manhã! hehehehehe!
Abraço
Elis

Juan Moravagine Carneiro disse...

Confesso que tenho uma enorme dificuldade em adentrar em contos...

...Todavia a intencidade de alguns são de vital importância para mim!