04 maio 2010

in memoriam




Telefone tocando às 8 da manhã. Fingi não estar ouvindo. Muitas vezes eu finjo não ouvir, não dizer, não estar. Mas ele estava com pressa. O telefone. Quanto mais eu fugia, mais ele me alcançava estourando meus ouvidos com seu Atende! Atende! Atende! Mãos ao alto. Eu disse alô, a outra voz na linha disse alô, você está bem, já acordou? Claro que acordei. Desde cedo que ligo pra você e ninguém atende. É que dormi tarde ontem. É que dormir me faz evitar o mundo. É que tenho preguiça. É que já nem sei. Olha, estamos aqui no velório. Velório e o mundo se torna ainda mais comum e traiçoeiro. Seu tio, ontem, meia-noite, falência múltipla dos órgãos. Senti o que sente aquele que não gosta do fim da novela das oito. Que horas vai ser o enterro? Às 3 da tarde. A família toda está aqui. Já liguei pra todo mundo. Tem gente vindo de longe pra dizer adeus. Dizer adeus? Mas ele morreu ontem, meia-noite, falência múltipla dos órgãos. A hora certa de dizer adeus não teria sido às 23h e 59min? Ou até antes? Que era pra dar tempo de pedir perdão, chorar bastante, aquela coisa toda de unção dos enfermos e ainda daria tempo pra fumar um cigarro fora do hospital, contar histórias de outros tempos e falar mal da prima, do primo, dos tios barrigudos e da tia que surtou porque envelheceu e ficou feia? Ele morreu no hospital? Sim. Morreu no hospital. Por que tudo fica pra depois? Pensei nisso tudo. Não falei. Só concordei dizendo que estaria lá, no velório, velando o tio mais novo.

Desliguei o telefone, me espreguicei e mãos à obra.

Coloquei os pés no chão, abri a janela do quarto, odeio a luz do sol. E segui meu ritual. Banho, cabelo, cara, pó de arroz e tirei aquela cor berrante do esmalte das minhas unhas. Sei que irão reparar que minhas unhas estão alegres demais para um funeral. Vesti a roupa certa para hora errada porque, na minha cabeça cheia de quinquilharia lúdica, ninguém deveria morrer. Não assim. De forma alguma, aliás. Fui criada sob OS ALICERCES DA SANTA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA E DIZEM QUE HÁ UM REINO NOS CÉUS. Então é assim. A gente morre, nossa alma vai pro céu e nosso corpo, esta matéria que de nada serve no fim das contas, se transforma em adubo. Estou pronta. Já aceitei.

Duas horas depois cheguei ao velório. Familiares que não via há tempos. Todos estavam lá. Por isso essa gente gosta de morte. É uma forma de reunir a família. Entendi. A fila era longa, mas consegui dar os pêsames a minha tia e meus primos. Afinal de contas, era o meu tio dentro do caixão e alguém estava sofrendo. Eu vi nos olhos da mulher dele. Ela estava sofrendo. Talvez lembrando do dia que se conheceram, dos beijos, das risadas, do namoro agarrado demais que era pecado naquele tempo, da beleza de meu tio que já o havia abandonado e das noites que foram felizes. Eles devem ter sido felizes. Ninguém vive essa vida sem felicidade. Nem que seja de súbito, veloz, quase sem ver. É isso. Ela sofre. Os filhos também. Não muito, talvez. Meu tio havia se tornado um fardo. Sempre às voltas com a vida errada que ameaça todo mundo e são poucos os que se salvam. A filha dele, minha prima, ficou me olhando com um sorriso esquisito porque nunca nos víamos. Eu mal a conhecia. Nunca tivemos muito contato. Apenas um dia, ainda durante a infância, ela foi a nossa casa com os pais e eu não dei atenção. E não seria agora que eu faria o papelão de puxar assunto pra saber da vida dela. Não se pode agir assim. Cumprimentei outras pessoas, abracei meu pai porque era o irmão dele ali morto, entrando para a lista de desaparecidos. Meu pai chora por dentro e sei que esse choro é o mais violento.

Saí daquele ambiente com cheiro de flor por tudo quanto era canto. As funerárias agora parecem hoteis. Servem café, chá, torradas, frutas, tudo. E tem até quarto para aqueles que precisam descansar. Pensei em usar o quarto. Terminar de dormir o sono que meu tio havia interrompido. Mas não. Não depois da falência múltipla dos órgãos. Não depois de ter passado a vida rindo da cara dele porque ele havia se tornado assombrosamente engraçado, com seus olhos esbugalhados, suas roupas mal cuidadas, suas drogas, seus horrores. Eu não poderia sequer me aproximar do caixão e ver o rosto do qual ri tantas vezes fazendo ironia daquela vida ida que não me fazia sentir nada. Remorso talvez. Tristeza por meu pai e por meus primos. Uma tristeza superficial que logo seria esquecida. Bastava que eu deixasse o lugar. Eu só precisava ir embora dali. Me distanciar. E eu esqueceria dos dias que ri de meu tio que nos visitava e roubava cotonetes e me esqueceria também do dia em que ele me reconheceu certa vez. Na escola onde eu estudava. Ele se aproximou e perguntou se eu era a filha de. Não. Não sou. Tem certeza? Você é a cara da menina mais nova de. Não sou eu. Desculpe. O senhor deve ter me confundido com outra pessoa. Percebi o desapontamento em seu olhar, rosto, na cara toda. Até no corpo. Teria sido aquela a minha chance de dizer adeus ao meu tio? Já faz tanto tempo que isso aconteceu. Mas me ocorre agora que poderia ter sido a chance de dizer adeus. Percebo agora que laços sanguíneos não dizem nada. Me ocorre agora que um homem morreu deixando esposa e três filhos já crescidos para trás.

E, às 3 da tarde, fora enterrado no cemitério no fim da rua onde moro, o homem do qual tanto esnobei. Enterrado, pálido e desconhecido. No meio de tantos outros, mais um adormecido.




Image by Alexandre Matos

7 comentários:

Deia disse...

O que dizer de uma narrativa forte, contundente, afiada, que não disfarça o irônico da situação bizarra? Mentiria se dissesse apenas que me emocionei. Tenhos os olhos rasos de tristeza. Minha morte foi diferente. Morreu um tio, mas que fazia as vezes de um pai. Mas sempre perguntamos se a despedida foi o que esperávamos. Se as palavras, não sabendo ser aquela nossa última chance, foram as acertadas. Um beijo, Deia

Mariah disse...

estou na expectativa de um velório/enterro...é isso mesmo. pode parecer estranho (a mim parece) mas estamos esperando uma morte na minha família.
uma tia, com maus de alzheimer há vários anos está internada e, segundo os médicos, a poucos dias da morte.
a sensação de esperar por uma morte é ainda mais estranho.

Juan Moravagine Carneiro disse...

Não tem como ser indiferente em seus textos...sempre que adentramos no mesmo...é um mergulho ao desconhecido...porém desconhecido este que vai se tornando conhecido e presente em nossas respectivas vidas no decorrer das linhas...

...Como sempre com belos textos!

Abraço

Zélia disse...

Eles adormecem e nós acordamos. É sempre assim. Eu teria mais a dizer. Coisas como nunca é hora de alguém morrer - só que parece que eles adoram morrer de madrugada ou de manhã cedo e nós saímos carregando esse pesar pelo dia mais longo daquela eternidade. Eu poderia dizer também que eu gostei da construção do texto. Da forma como as coisas foram organizadas. Talvez eu pudesse dizer uma coisinha a mais sobre a construção do texto (ao pé do ouvido, quem sabe?) mas acontece que eu estou com pressa. Por isso a gente não diz a quem partiu tudo que tinha para dizer...

Júnior disse...

Essa coisa de morte pega de surpresa. Parece que não foi morte se o telefone não tocar no meio do seu sono. Parece que não foi morte se o telefone não tocar em hora estranha. Morte é coisa estranha e misteriosa. Dói pensar que um dia nós acordaremos alguém.

•.¸¸.•*♥*•.¸¸.• Sanzinha •.¸¸.•*♥*•.¸¸.• disse...

Já me senti assim muitas vezes a respeito de parentes que se foram.
Sei lá, parece que a gente fica meio anestesiado. É estranho.

Bem, de qualquer forma, sinto muito. :(

Germano Xavier disse...

Fica a pergunta sobre mesmo quem morreu. Se a menina dorminhoca ou o homem estendido. É impressão minha ou você resolveu escrever ficção com sua história de vida não declarada? Agora com a lei da anistia fica tudo mais fácil, não? Eu gosto quando a frase interpela nossas caras feias e sorri um sorriso casual de dizer o quê mesmo. Você agora aprendeu a fazer parágrafos e pausas pontuais. Talvez seja a infância chegando, como diria o Barros. Eu morro em seus textos. Morro bem.