26 maio 2010

mambembe solitário



O pessoal adora coroar misérias. Eu também. Não sou diferente de ninguém. Nem quero ser. Sou igual. Vaso trincado. Mambembe solitário.

Cazuza cantou em 85. E eu não pude ir. Eu só tinha 9 anos. Eu brincava de casinha, esconde-esconde, Stop. Hoje eu brinco de Pula Cerca. Sou atleta correndo distâncias, com aquela vara nas mãos e salto alto. Mas nunca é alto. Nunca é suficiente. Há forma de saber que o suficiente é aqui?

Eu sofro das paixões humanas. Disse isso a uma amiga. Ela riu e me chamou de Louca. Talvez eu seja louca mesmo. Traz a camisa de força e me ata bem os nós. Não quero ficar livre entre tantas guerras tranquilas e montinhos de mortos e suas famílias chorosas. Crianças também morrem em guerras. Morrem de tráfico também. Tráfico já virou doença. Crônica e sem cura.

E de novo ela me chama de Louca. Falo sério quando digo que tudo é doença. Mas eu sinto que estou sendo pessimista. Energia positiva e um cristal ao sol.

Já coloquei tanto cristal pra quarar no sol que minha vida e a de todo mundo deveria estar no ritmo do Cartoon Network. Só alegria. Faz de Conta. Vida de desenho animado e ninguém se machuca. Mas os meus cristais são fajutos. Cristais fajutos e eu ainda seria esotérica. Lendo tarô e tentando buscar sentido no vazio explícito da sala de estar.

E bebi vodka. O banheiro da casa de minha amiga sofreu. Mas antes. Antes de sufocar o banheiro, falei demais. Eu sempre me excedo. Seja na vodka, na mentira, na piada desgraçada que não faz ninguém rir. Fico rindo de minhas próprias piadas. Hipócrita janela afora.

Gole após gole, um monte de histórias. Contei minha vida inteira. Até a vida que não tenho. A gente mente sim. Que graça teria se não houvesse mentira? É interpretação. Luz. Câmera. Ação. E solidão pra cavalgar os dias, sem cavalo ou honrarias.

E falar de dor pega mal, dizia Cazuza. O pessoal gosta de ficar bem. Sempre bem. Fazer dieta, caminhar, fazer plástica e envelhecer bem. Quero saber como pode alguém envelhecer bem? Como se faz isso? Prozac? Eu falando e minha amiga dizendo Maluca, Louca e ria de mim. Mas viver mata. Dia após dia, viver nos mata. Como o sol queimando poça d’água.

Discursei fora de moda. Falei muito, bebi, pensei em amor. Eu queria uma dose maior de amor. Na veia ou na cara. E olha que foi uma única garrafa de vodka. Um litro? Não. Não teria aguentado. Teria morrido. Ou teria falado mais. A noite inteira debulhando segredo.

E acabou a noite. O banheiro me suportou. Privada, banho, escova de dente e nunca mais eu encho a cara. Ressaca moral, imoral; quase apaguei. Luz fosca no fim do túnel e, no dia seguinte, não consegui lembrar quem eu teria sido na noite anterior. Quando vem a lucidez, eu me esqueço. Fico pra trás. Um náufrago esquecido em seu próprio mar.

E hoje não quero vodka. O silêncio se acomoda perto de mim, descansa a máquina de escrever e café. Um cigarro, talvez. Mas eu não posso morrer. Fazer dieta, comer proteína, caminhar, salvar meus dias. Dar de mãos com a palmatória.

E que arrebente a luz do dia minha crença ilusória.




8 comentários:

Ribeiro Pedreira disse...

LOUCA!!! POR QUE NÃO BEBESTE A NOITE?

Deia disse...

Não podemos morrer, pois ainda assim a vida é a viagem mais instrutiva que teremos - e depois, quem sabe o que tem além da cova, digo, da luz? Beijos sempre admirados, Deia

Sonhadora disse...

'Viver mata' e eu pensava nisso muito até que fiquei 'igual' a todo mundo, com cara de eu-não-vou-morrer-nunca.

E são mais de seis, mais um dia agoniza e eu tenho um dia a menos de vida. Mas, como eu sou 'normal' vou dizer que vivi-mais-um-dia-olha-só-que-maravilha!

rsrs


Beijo, Letícia.

Elcio Tuiribepi disse...

Mais um dia noso cotidiano a vezes nos sufoca,nos agride com a mesmice...envelhecer bem é um segredo que só se descobre quando começamos a envelhecer...rsrs
Leticia...quanto a familia lá, qualquer ajuda será super vinda ok...qualquer coisa entre em contato que te dou mais informações ok...
Valeu amiga...um abraço na alma...bjo

Juan Moravagine Carneiro disse...

Como dizia Maiakóvski "é melhor morrer de vodka que de tédio"

Abraço

Gabriela disse...

Oh, posso dizer? Encontrei por acaso esse negócio, e digo que achei bem lindo e estou a seguir.
E que arrebente a luz.

Zélia disse...

Bueno...

Eu sou mais de engolir segredos que debulhá-los. Por isso, calo muito. Mas posso dizer que todo banheiro se recupera. Assim como nós. A diferença é que os banheiros se recuperam em muito menos tempo e com muito menos cicatrizes que nós.

O Cazuza foi irônico ao dizer que "falar de dor pega mal". Mas eu não sei, não. O povo gosta é da desgraça alheia. Agora, eu, cada vez mais me convenso que nos não nascemos para a dor. Nascemos da dor para a alegria.

Os remédios me mostraram isso. Acontece que a alegria deles é passageira, assim como nós em um ônibus. As alegrias verdadeiras permanescem. Já dizia Pe. Léo em um de seus discursos. É preciso que tenhamos a alegria de Deus. Porém isso é para quem acredita e aposta.

Eu estou fazendo yoga e saio das aulas pensando que a vida é mesmo feita de alegria, de bem-estar. É bom estar bem! E isso é um trabalho exclusivo de cada um.

Namastê! ;)

Germano Xavier disse...

Eu quero morrer ontem.