19 maio 2010

retratista



Sou eu. Batendo a porta. Gritando com os vizinhos. Mas poderia ser outra pessoa. Eu poderia ter sido Hitler.

Abocanhou o jornal. Com a mão direita pegou um pacote de sequilhos. Com a outra mão trancou o carro e entrou. Estava fumegando. De raiva. Não. Não era raiva. Era impaciência. Dia impaciente. Horas atropelam horas. Degraus atropelam os pés. Cotidiano e afazeres e um quadro na parede. Quadro este que trazia os seguintes dizeres:

"O ontem já se foi, o amanhã ainda virá.
Eu só posso evitar o primeiro gole hoje, agora!"

Leu o que dizia o quadro e seguiu o corredor.
O local era como todo local. Janela, persiana, escrivaninha com aspecto envelhecido e um bebedouro no canto da sala. Um lixeiro repleto de copo descartável era o único elemento que ornamentava a sala, em paredes brancas e detalhes azulados entre o piso e o rodapé.
Um sofá. Sentou-se. Olhou ao redor, ninguém para atendê-lo, uma música ao longe. Gilberto Gil de manhã é bom. Cantarolou um trecho, depois outro, depois outro, e respirou fundo. O jornal. Abriu. Começou a ler pela página de esportes. Meu time venceu. Ao menos isso. Deu uma risadinha interna como se alguém se importasse com time de futebol. Ninguém liga. Ninguém ligará.
E continuou lendo.
Caderno 2. Gente da sociedade, teatro, cinema. Resolveu fazer palavras cruzadas. Sinônimo de ancião. Cinco letras. Outra risadinha. Estava vencendo. Foi preenchendo espaços com as palavras que lhe vinham tão facilmente à boca. Ou à mente. Terminou as palavras cruzadas, leu um pouco do governo (Acordo Nuclear). Mais futebol, mais risadinha, um palavrão e olhou a sala. Ao redor, nada. Ninguém. Como poderia estar ali tanto tempo sem ser percebido? Um absurdo. Poderia roubar algo. Poderia ser um ladrão. Será que não pensam nisso?
Ao lado do quadro, um relógio batendo tempo, batendo o olho, engolindo segundos. Olhou o relógio. Checou pra saber se o seu estava de acordo com o relógio na parede. Estava. Os relógios estavam quase iguais. Alguns segundos de diferença apenas. Segundos são nada. Cheguei na hora exata. Será que me atrasei?
No edifício ao lado uma obra separava o dia em sílabas. Homens trabalhando. Ho-mens tra-ba-lhan-do. Pi-ca-re-ta. Be-to-nei-ra. Parecia um som de grilo com problema respiratório. Tudo quebrado. E era um barulho desgraçado e ele não havia percebido antes. Um trator tratava o tempo. Sentiu, de repente, sua boca trincar. Os dentes. Tudo trincava. Nervosismo surge disso. De cidade quente, pegando fogo, barulho, explosão, buzina, mulher pedindo perdão. E ainda me culpam. Por isso aquele ator matou tanta gente naquele filme. Não passa mais na televisão. Acho que eles têm medo que alguém veja e faça o mesmo. Tem gente que é mesmo muito influenciável.
O tempo passou mais adiante e ele ficou lá. Era uma sala de espera de um consultório. E não havia muitos pacientes. Só ele. Ele e o jornal. E o pacote de sequilhos. Decidiu comer. Meia hora sentado ali e ficando impaciente precisava mastigar algo. Da última vez mastigou um pedaço da manga de sua camisa. Minha não. Da camisa dele. Mastigou um pedaço da camisa porque não tinha paciência.
Comendo sequilhos, ainda sozinho, prédio sendo construído e mais nada.
Alguém vem. Alguém surge finalmente e quebra o tempo dentro da sala de espera do consultório médico. Uma mulher. Roupa com aspecto de roupa engomada. Cabelo preso. Salto nem alto nem baixo. Bonita àquela hora da manhã.
Trocam algumas palavras. A mulher o interrompe. Preciso atender ao telefone. Só um minuto. Ele espera. Com a boca com gosto de sequilhos. Decide beber água e vai. Atravessa a sala e pega um copo, enche o copo e bebe tudo. Dia quente, não? Não houve resposta. A mulher ainda estava ao telefone.
E desliga.
Agora a mulher examina alguns papéis. Ele sorri. Mas a mulher não vê. Ele faz um comentário sobre o tempo. Estou me repetindo. Já falei do tempo. Vou falar do prédio em construção. Vou falar do jogo de ontem. Apitos no Maracanã. Vou falar dela. "Moça bonita olha pra mim que prometo não te ferir". Pensou cantando. Era sua mãe quem cantava esta canção. Sempre antes de dormir ela vinha. Com cheiro de alfazema e olhos grandes. Cantava até eu dormir. Queria perguntar coisas à mulher. Coisas miúdas. É nova aqui? Mora onde? Tem quantos anos? Acredita em vida em outro planeta? E a mulher não o olhava. Estava ocupada preenchendo fichas.
E o prédio funcionando ao lado. Maquinando. Fumegando.
E já se passara tanto tempo. Olhou o relógio, checou seu relógio de pulso, leu jornal (Uma nota de falecimento), bebeu mais água. Já estava cansado. Ele se conhecia melhor do que ninguém. Tem gente que acha que conhece o outro. Mas nada. Só a gente se conhece. Essa coisa de pensamento, de saber o que se quer. Tenho nada em meu inconsciente que eu não saiba. Sei de tudo de mim. Outra risadinha. Esta veio da boca pra fora. Foi como pensar alto. A mulher não entendeu. Olhou de forma interrogativa. A mulher achou estranho o homem que ria sozinho. Estaria ele rindo dela? Mais esta parte fica em silêncio. Nunca a mulher vai saber do que ria o homem. Nunca direi.
Ele sentiu vergonha. Embaraço. Mas já tinha acontecido. O trato era tratar daquilo como se fosse passado. Vou perguntar algo. Falar do tempo. Já falei do tempo. Vou falar do prédio em construção. Vou falar do jogo de ontem. Apitos no Maracanã. Vou falar dela. "Moça bonita olha pra mim que prometo não te ferir". Pensou cantando. Estava se repetindo de novo. Ele e o tempo que não passava mais. O tempo estava emperrado. Um burro empacado. Engarrafamento na hora do almoço.
E a mulher nada dizia e ele pensava demais e já estava no ritmo da maquinaria do prédio ao lado. Separando em sílabas o dia. O sequilho acabou. Sentia fome. Por que não me mandam entrar? Estou aqui há tempos. Estou aqui sem ser visto?
E percebeu. Estava sujo. Roupa suja. Roupa de dias atrás. Camisa amarela e calças desbotadas. Por que estou vestindo roupas velhas? E sem sapatos. Não havia espelho. Tocou o rosto, barba por fazer e cheirava mal. Cheirava muito mal. O mundo estava ao contrário. Seria um parto ao contrário? O que estou fazendo assim, aqui, de manhã? Lembrou de seu trabalho.
Antes de qualquer palavra, levantou-se, tocando o corpo, aturdido, desesperado, confuso.
A mulher pega o telefone. Vem alguém. Vem vindo e chega. Diz algo. Diz algo para acalmar. Já está a caminho. Por que fez isso? Você precisa parar com isso. Você precisa. E ele não entendia, mas entendeu. Havia se deixado. De novo. Não era loucura. Era ele se deixando outra vez.
É que dói. É que sinto falta. É que não há graça. É que preciso me sentir vivo. Sentir-se vivo morrendo? É isso? Dizia o médico e olhava a mulher enquanto entram dois homens e outra mulher chega acompanhada de um rapaz que diz a palavra pai, que parece ter vergonha.
A mulher condena, os homens o cercam, a outra mulher de salto nem alto nem baixo, bonita àquela hora da manhã, permanece imóvel e alguém diz Obrigada por nos ligar. E a mulher assentiu com a cabeça. O médico dá ordens e o homem é levado. Não se sabe pra onde. Não pude seguir. Permaneci na sala de espera do consultório, enquanto a mulher chorava e era o filho que a consolava e o médico ligou para clínica (Eles estavam à procura dele desde ontem). Ele foge, sai feito louco. Sempre faz isso. Ele se repete. E sempre leva nosso carro. Desta vez a polícia não conseguiu encontrá-lo. Pensamos em tantas bobagens. Chorava a mulher. O médico prescreveu medicação que acalmasse a mulher e o rapaz saiu de lá com sua mãe e pensava em seu pai doente entregue ao vício. E não se preocupe, disse o médico. Ele não irá mais fugir. Mandei que administrassem medicação forte.
O homem seguiu em ambulância. Apitos no maracanã.
E de novo o cotidiano e afazeres e um quadro na parede. Quadro este que trazia os seguintes dizeres:

"O ontem já se foi, o amanhã ainda virá.
Eu só posso evitar o primeiro gole hoje, agora!"

E, quanto a mim, não darei margens as minhas observações. Não é este meu objetivo. Meu olhar é simplesmente retratista. Nada tenho a ver com a vida do homem que em narrativa existiu. Sou apenas o narrador observador. Aquele que de nada tem culpa, que vive à surdina, escondido, embora nítido, entre uma página e outra.





Image by The Cassinator

10 comentários:

Deia disse...

Bom dia! Letícia, tornou-se um hábito: ao terminar de ler seus textos, falta-me o fôlego. Que bela narradora que você é. Narra a crueza, narra o que viramos a cara para não ver. Como sua formiga do outro post. Ou os gatos do post antes desse. Bravo! Um abraço, Deia

Sonhadora disse...

Que sensações tive ao ler!!!

Essa coisa da ignorancia de si mesmo, de achar que se conhece, de não observar um observador te observando...

foi tudo incrível nesse texto seu. Incrível, incrível como sempre.

Beijo, Letícia.

Zélia disse...

Bom, quando eu leio um texto, mil coisas me vêm à cabeça. Primeiro pensei em Jorge Tadeu (um fato!). Depois tantas coisas e o que ficou foi a do "trator tratando o tempo". Será o próprio Tempo um trator que vai nos atropelando ou seremos nós tratores que atropelam o tempo? Pensando bem, somos nós quem atropelamos o tempo. O Tempo é único e imutável. A tudo ele dá tempo. Nós é que não respeitamos o devido tempo de cada coisa.

Eu, filósofa de você. :D

Juan Moravagine Carneiro disse...

Ler suas narrativas sempre se transformam em mergulhos inconscientes...

como sempre teceu belas palavras

agradecido pelas visitas ao Rembrandt

abraço

Anônimo disse...

Um dia ainda vou ter um blog assim. Parabéns pelos textos, Letícia!


bjkas
n.

Éverton Vidal Azevedo disse...

Letícia, saudades dos teus textos.
Bom te ver amiga.
Bj.

Elcio Tuiribepi disse...

Leticia...arrepiei porque seu texto me fez voltar no tempo com algumas vivencias minhas...parece mesmo real..e é pelo que li no fim...ou não...para mim foi...posso lhe enviar um conto, não ´uma obra prima, mas retrata uma verdade parecida...vivida ao pé da letra...rs
Caramba..bom...obrigado pelos coents lá no Versiro...plo carinho pela amizade...
Ah...Leticia...o livro nada né...eles stao enrolando e esa semana foi o ultimo prazo que dei para as pesquisa deles lá...desculpa...
Um abraço na alma...bjo...esses seus cotidianos são demais...

Carmem L Vilanova disse...

Gostei muito dste texto. Muito bom!
Beijos, flores e muitos sorrisos!

Germano Xavier disse...

Você mata o homem e come, como diria minha avó. Sabedoria popular é de Deus. Você está salva.

Espaço Aberto disse...

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