12 outubro 2010

épico




Devagar porque disseram que o santo era de barro. E vem de novo a mulher fazendo perguntas e me deixando sem respostas porque não tenho respostas. Sei de mim e a linha do equador atravessa nossa sala. E que me rompa à anestesia essa palavra distante que ornamento pra mim é mais que o dito. Que há nas fábulas que prende minha atenção é o mesmo que há em minha elipse. Minha oclusão de eternos modos de pentear cabelos, comprar pares de óculos, elucidar questões dos outros. Porque não resolvo minhas questões. Café solúvel e não resolvo nada. Mal sei da cor dos móveis. E a mulher foi embora. Mandei que fosse. Ordenei. Ir embora. Não consigo me concentrar com aquela imagem que furta de mim minha identidade. Eu bem que poderia (Conjugando futuro e fazendo de minha vida um pretérito sem fim) dizer logo das boas e novas tensas verdades. Sou de formato degradado. Puro e triste. Sou do tipo que fala sem órbitas e, no minuto seguinte, sumi. Se é que deixo o minuto vir porque é tudo tão forma e sou tão eu mesmo que capaz de mim só o meu reino inteiro. Minha indigesta forma de vida. E sou perfeito. Não questiono livro antigo porque também falo de mim. Todo o tempo — Falo de mim. Se há de ruim ou de bom ou, adjetivando aspectos, sou eterno. Rei de todos os tempos. Uma criatura em vértices e cheio de medo. Mas de medo eu não falo. Silencio porque não sei dizer mera palavra que seja estranha e inodora. Prefiro ilustração. Uma mulher nua e crua me atando de nós os pensamentos e este é o segredo de meu signo épico. Tranquilo porque sofro e não há lugar no mundo que me caiba. Sou maior que tudo. E maior que o turvo absurdo de quem me contradiz. Elite da nova obra e outdoor em cidade grande. Sou outdoor de cidade grande e sexo em ninfa e também usuário de uma estupidez maciça. Porque não sou qualquer um. Qualquer número. Dígito reciclado por outras mãos. Não sou qualquer estrofe de ritmo e acontecimentos simultâneos ou canais de TV. Modo eterno de honrar nome em frutos de pernas bambas e cortesias de mentira. Mas eu não minto. Sou tudo o que posso ser e, mesmo aniquilado, sou fonte de todos os advérbios que explodem em sua boca. Descendente de mim mesmo. E retorna a mulher e acorda meus sentidos. Sou como você. A espécie que de tudo a respeito será escrito.




Texto escondido no livro Artesã de Ilusórios.



Image by carts

5 comentários:

Marcello disse...

"sou fonte de todos os advérbios que explodem em sua boca".

Muito bom texto como sempre Letícia.

Beijos.

A Escafandrista disse...

Um texto que me faz viajar por cada palavra, me faz parar pra pensar em cada expressão, um texto que traz lembranças como flashes enquanto leio. gosto muito.

Deia disse...

Circular - afastando-se e voltando ao mesmo ponto, talvez um pouco mais adiante. Bravo! Você é uma artesã das palavras. Um beijo, Deia.

Zélia disse...

A linha do equador também corta a minha sala e eu também sou tudo o que posso ser. O esforço é grande para ser o melhor que posso ser. Às vezes, eu acerto. Outras não. E, como diz uma canção, "a gente vai levando"...

Pedro Avillar disse...

Devo dizer que eu estou me calando. Tive momentos aqui de escrever letras miúdas e infinitas e até instante de elaborar sugestões. Mas o texto está vindo cada vez mais intenso e decidido. Vir ao teu blogue é como ler um romance que está sendo escrito no tempo certo. Não há dúvida que tua voz tenha encontrado o acorde certo dentro da literatura.
No mais, é só lapidar mais e mais tuas pedras de produção literária.

Um enorme beijo, moça.