06 junho 2010

hermafroditas




Tem hora, quase todas as horas, queria mesmo estar com você em qualquer lugar do mundo. E este lugar seria único. Queria estar em um quarto do tamanho de um banheiro. Queria mesmo. E neste quarto do tamanho de um banheiro (Um banheiro bem pequeno. Modelo dependência de empregada), a gente poderia viver de amor, de verdade e de mentira. Feito gente louca olhando pra lua e rindo da vida. Talvez seja exagero. Mas eu seria feliz dentro deste quarto do tamanho de um banheiro. Que não coubesse nem cama, nem cômoda, nem nada. Só dois livros. Livros que ficassem em pé. Eu já escolhi o meu. Vou ficar com O Jogo da Amarelinha. Este livro, você, e o quarto do tamanho de um banheiro. Escolhe o livro que você quer levar que é pra gente ler um pro outro. Em voz alta, minha boca roçando na tua boca, beijo de língua e o corpo feito um só. Eu não preciso de muito espaço. E não quero guarda-roupa. Fico com a roupa do corpo. Ou nua mesmo que é pra não perder tempo. E da gente já conheço o enredo. Sempre vem aquele momento de um não querer olhar a cara do outro. Ficar feito mudo com raiva de tudo. A gente é assim. E no quarto miúdo talvez não dê pra ficar sem olhar a cara do outro. A não ser que a gente fique de costas e não se olhe. Talvez por uns 15 minutos ou mais. Seria o intervalo necessário pra sentir saudade. E depois a gente se olha de novo, fala muita bobagem e você vai me contar o fim da história da mulher de vestido vermelho. Da penúltima vez que ficamos juntos, lá no apartamento onde tudo começou, você veio me contar a história da mulher. Falava feito velho. Usava tanta palavra rebuscada. Mas eu gostei. E agora que a gente já tem um quarto, mesmo sendo pequeno do tamanho de dois passos, você chega e me conta o fim da história. Vou rir. Sei que vou. E a gente aproveita pra ficar naquela coisa de abraço e beijo e eu fico de costas quantas vezes quiser porque adoro provar que pertenço. E o quarto terá janela com vista pra tudo. A gente olha chuva cair, brinca de contar passarinho em fio de alta tensão, observa avião passando e a gente pode até imaginar a ilusão na cabeça de cada passageiro daquele avião que nem imagina que a gente tem o mundo inteiro dentro do nosso quarto do tamanho de um banheiro. Nem um passo mais e eu te beijo. E não tem fuga. O quarto já existe. E a gente leva a vida na cabeça e na boca. E nos sonhos e dentro de uma taça de vinho. Ou no respaldo de mágico e teatro da fumaça do cigarro. A gente cola no outro feito irmão que nasce junto. Feito mãe e filho. Feito nós dois que sempre fomos um só desde o início. E nós já temos o quarto. Agora só nos falta enfrentar o curto e caótico percurso de acordar e dormir beijando o inimigo.



Aos que passarem
Atrás da imagem
Uma boa surpresa
Quem sabe


Image by R. laro

9 comentários:

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia...conforme fui lendo fui imaginando a cena, dá um curta metragem...rs
Cairia bem também no Concurso literário do Espaço Aberto...
Que irá ocorrer no dia 12...dia dos namoarados.
Tema: "Meu jeito de dizer que te amo"
Não sei, mas seu texto me pareeu apropriado até demais...rsrs...querer viver num pequeno quarto...viver de amor...olhando pela janela...ou juntos, mesmo quando de costas um para o outro..rs
Participa com a gente...rs
Só você mesmo amiga...show de bola...
PUTAQUILAMERDA... é a palavra..rs
Um abraço na alma...bjo

Ricardo Fabião disse...

Uma história para gostar de ler e repetir muitas vezes por semana; e não largar se aparecerem mofos e ácaros; estendê-la no varal para pegar sol, dividir com os amigos, como quem paga-lhes o lanche, como quem lhes aponta o resto do tempo.

Tudo muito bom de ser
e de continuar.

Beijos.
Ricardo

Dixie Pixie disse...

Aimee Mann behind the pic. Thanx though i couldn't get the post.

Remetentes disse...

Que delícia de 'prosa', vou colocar o link no www.cartasrecortesesussurros.blogspot.com, com a tua permissão.

Beijos,

Geraldo de Barros disse...

Estou feliz por ter encontrado esse seu espaço, uma escrita tão gostosa, tão boa de se ler e sentir e refletir...

Parabéns, pelo Blog está lindo, estarei por aqui ;)

Um abraço,
Geraldo.

Devir disse...

Que perfeito! :D

Zélia disse...

Romancenoar! Muito bom! Bom de quando as palavras tornam-se desnecessárias. Eu tive uma casa do tamanho de um banheiro. Hoje, na minha casa cabem alguns banheiros mas eu ainda sigo "o curto e caótico percurso de acordar e dormir beijando o inimigo"...

;)

suecosta disse...

Letícia estou triste, tiraste o post Calendário imperfeito? Why?????

Eu amava aquele texto e tinha uma relação pessoal forte com ele, sabe aquele livro dep oesia que vive por perto e de vez enquando tu vais lá e rerererererelê? pois é, assim eu sou com o teu blog, tirar aquele post foi como se tivessem arrancado o uma página do meu livro.

Estou triste de verdade...

Espaço Aberto disse...

É com muita alegria que nós, do Espaço Aberto, viemos te convidar a participar do nosso primeiro Concurso Literário, a ser realizado no dia 12 de Junho, próximo sábado. Os interessados deverão fazer, nesse dia, um post em seus blogs, escrevendo sobre o tema: “Meu jeito de dizer que te amo” e o título do post deve ser esse mesmo. Mas ATENÇÃO: desta vez não haverá prazos, o concurso é válido SOMENTE para o dia 12 de JUNHO.
Assim que postar o seu texto, visite-nos no Espaço Aberto e deixe lá o seu link para que possa participar do concurso.

Contamos com a sua participação!
Até sábado!

Todas as informações sobre o concurso poderão ser encontradas e as dúvidas tiradas nos seguintes blogs:

http://bomruim.blogspot.com/
http://jardimdasan.blogspot.com/
http://lienemarcia.blogspot.com/
http://lienemarcia.blogspot.com/
http://frutosdoverseiro.blogspot.com/