03 junho 2010

pré-madura



"I know what it's like to be dead.
I know what it is to be sad."

(The Beatles)


Uma semana após a explosão que não houve da bomba atômica que não fabricaram, descobri como se faz uma canoa. Madeira, pregos grandes e muita força de vontade. E também descobri que não tenho fotos de quando era criança. Aliás, recém-nascida. E isso me perturba porque é como se eu não me conhecesse. Eu não sei a cara que eu tinha quando eu nasci. Bobagem aflitiva que me causa insônia, agonia e ainda bem que a janela não me cabe. Eu me mataria para saber que cara eu tinha quando se fez dia em minha noite uterina. E não tenho mais sossego. Eles ligam todos os dias. Cartão de crédito, instituição de amparo a deficientes, meu fornecedor de ervas daninhas e eu ligo para minha própria casa para saber se alguém vai atender. Faço isso quando não estou em casa. Ligo para me certificar de que a casa ainda é minha. Que a casa não fora tomada por seres interplanetários, ladrões, familiares. Minha condição de viver é sólida.

Sozinha solitária solidária autodidata.

E aprendo coisas todos os dias.
Tais como:

Efeito dos raios ultravioleta em meus cabelos molhados: Descobri que, após 10 minutos ao sol, meus cabelos secam.

Tempo de exposição à TV: Descobri como me torno idiota assistindo noivas em busca de vestidos ou cirurgiões esticando caras e bocas. E fico idiota em pouco tempo. Dois minutos apenas.

Amor descrito por Cortázar: Leia O Jogo da Amarelinha e saberá que, se disser que sente amor, ele passa a não ser amor. Então é melhor não dizer ser amor o que é amor porque perderá efeito o sentimento se o fizer razão. Ainda estou praticando esta teoria.

Fugir das responsabilidades: Descobri a facilidade na equação. Logo, após ter me tornado idiota, percebi que todas as coisas as quais damos nomes carregam o peso que colocamos em seus ombros. Então peguei minhas responsabilidades e as considero agora coisas fúteis. Desta forma, não tenho urgência em nada. Trabalho com os pés nas costas e acordo disposta. É mais ou menos como pensar em amor.

Efeitos do sexo: Não tendo acesso a sexo, venero dias de mau humor e procuro substituir tal prática corporal com muitas doses de televisão e cigarros apagados em lugares inesperados. Logo, fumante excessiva sem orgasmo e cada dia mais idiota.

Ser idiota é bom: Não há como não ser. Dizer-se idiota é como poder soltar a respiração. Ninguém culpará você se acaso você se deixar ser idiota. Os idiotas governam o mundo. Nada melhor que viver sem receber aleluias. Teoria baseada em toneladas de carboidrato e doses de vodca.

E, por fim,
Novela das oito
Exercitar crenças
Galã ou galáctica
Modelo ou larva
E cadê a Glória Pires que ninguém mais vê?





E ouça o Revolver.




Image by aiden

3 comentários:

Zélia disse...

Tipologia textual em conjunto. Os textos e as canções têm muito em comum. Sempre. A um texto reflexivo, deixo uma canção de que gosto muito, também reflexiva e tocando no mesmo ponto:

"What if God was one of us
Just a slob like one of us
Just a stranger on the bus
Trying to make his way home"

Ouçam "What if God was one of us" - Joan Osborne.

Sonhadora disse...

Não há mesmo como não ser idiota.

Talvez a coisa menos idiota a se fazer é aceitar a idiotice.

=|


Pessoas idiotas dormem aos feriados?
Se sim, levanto minhas mãos.

=D


Boa noite, Letícia.

Ricardo Fabião disse...

Letícia...
primeiro, falar sobre a surpresa da carinha entre os seguidores;
segundo, encontrar alguém que terminou Letras na UFPB, não que isso signifique coisa do outro mundo, não. É deste mundo mesmo. Daqui, do meu, isso é bom? Melhor dizer então estranho, será? Pulo essa;
e terceiro, falar sobre a qualidade do teu texto: inacreditável. Bom demais. A sensação que eu tenho é de uma porção de recortes de revista à minha frente, muito bem descritos, e postos de modo a percebermos a linha que os costura, mas de não a estranharmos; ser por isso, por essa estranheza, o estilo, o desenho mais significativo: literatura mesmo.

Vou te seguir, e porei teu blog entre o meus de leitura e predileção.

Beijos.
Ricardo