12 outubro 2010

alarme falso





"Há ausências que representam um verdadeiro triunfo."

(Cortázar)


Mulher romântica é um traste desgraçado jogado na estrada de tanto marasmo de amar. Verso. Desconverso. Deito de bruços e dou as costas ao inimigo perverso. E exagero nas medidas. Falo, desminto, minto, anuncio parto e me revelo. Esta pequena descoberta me fez elaborar outra de mim. Uma mulher seca e rígida. Frida sem quadro descolorida. E tombei depois das onze. Trem das onze, rádio de pilha e sabe que eu nem estaria aqui se acaso eu tivesse seguido outro rumo? Tateando em desculpas entupidas de culpa e compaixão, iremos nos banir. Sucumbir. Morrer em duas metades que se partem. Desordenadas pela bagunça da casa. Idiota eu que tirei retrato pra colorir sala. Idiota você que não me viu sair. Poderia ter me detido. Me tido. Metido. Pela garganta abaixo. Mas parece que covardia é feita em contágio. E ficamos dois medrosos prepotentes cheios de ódio. Cobiçamos tanto o que o outro era, que já era, que já não sou mais, que já se foi. Romance baseado em raros dias de contato. E hoje é feriado. Ou dia de quebra de contrato. Falho, mísero, invejoso; o amor, demônio descuidado, cai da escada, sofre em pranto e cala. Faz mala, escreve dedicatória em livro, joga fora maço de cigarro e, convalescente, morre de um gozo solitário. A estrada é de asfalto e do amor fica o rastro, o descaso, o silencioso temor do alarme falso.





Image by Heather Horton

8 comentários:

Mai disse...

Este seria um daqueles textos
mais-que-perfeito, se não fossem tão amargamente tristes as despedidas de amor.
Ou talvez como mera fumaça presa na cabeça, fosse ele - o tal amor - baseado apenas no desejo, na ilusão...

O texto é belo. Dorido como um parto, todavia.
lov u, Let.

Sonhadora disse...

Fico me perguntando se chamar o alarme de "falso" ajuda ou atrapalha o que a gente sente quando ele vai embora - o amor.


E ele não é menos que isso. Nem mais.

E dá medo.

Devir disse...

"Cobiçamos tanto o que o outro era, que já era, que já não sou mais, que já se foi."

sabe como é ver em si algo que reprime o que outro tenta expor? às vezes isso surge e mata as variedades de amor.

grazzi disse...

talvez conviver com essa ausência, ao invés da presença, que seja o grande triunfo.

Zélia disse...

O amor sempre alardeia quando chega ou quando sai. Causa espanto, medo, alegria, suor, tristeza. Quando chega ou quando sai. O amor encontra e deixa loucos quando chega ou quando sai. Deixa renascidos, feridos e mortos quando chega ou quando sai. O segredo é saber entrar e sair dos laços que joga o amor...

;)

Juan Moravagine Carneiro disse...

Você sempre fascinante através das palavras...

abraço

Casa de Mariah disse...

adoro seus textos formatados em sentimentos compactos.
simplesmente geniais!

Nara disse...

:)





n.