08 julho 2010

casa de moldura




Minha tia tem uma bela casa no interior de São Paulo. Grande casa de muitas janelas enormes e a casa é toda mobiliada em estilo colonial. Minha tia tem muitos quadros e se gaba de cada quadro que tem. Mesmo que seja tudo cópia. Aliás, são réplicas. Ela corrige. Cópia é linguagem de quem não entende arte. Eu tenho réplicas perfeitas que ninguém pode botar defeito. Os vizinhos visitam minha tia em sua imensa casa no interior de São Paulo e as visitas rendem horas passadas no antigo relógio de parede que faz bléin, bléin, bléin e é bonito de ouvir o relógio cantar. De volta aos quadros, são quatro pares de pequenos painéis dispostos de acordo com o nome do artista. Matisse, Monet, Van Gogh e outro do qual não me lembro o nome. Nada entendo de arte. Por isso não me atrevo a criticar os quadros de minha tia. São bonitos e coloridos. Na sala de estar as paredes são tomadas de quadros gigantescos. A sala é grande e possui paredes imensas. Por isso minha tia decora de quadro a sala onde recebe suas visitas. Uma bela matrona é a minha tia. Parente que mora distante e é rica porque casou com homem rico. Meu tio, que já morreu, era fazendeiro. E depois de sua morte, minha tia que não tem filhos que reclamem por herança, vendeu fazenda com boi e vaca e galinha e tudo. Ela nunca gostou da fazenda. Nunca desejou a vida no campo. Casou com meu tio ainda moça. E não teve filhos. Não tendo ocupação com crianças, se tornou a mulher rica de viagem e passaporte na mão. Todo ano, país diferente. Grécia, Itália, França e repetidas viagens ao Japão. Ela sempre dizia que gostava demais da cultura oriental. E, a cada viagem, voltava cheia de novidades e presentes e mais artigos para sua enorme casa. Decorava e nunca se cansava de decorar. Ela possui vasos enormes; todos trazidos do oriente. Tapetes, pequenas imagens trazidas da Itália, perfumes franceses e muitas toalhas dos hotéis onde se hospedava. Ela tem coleção de toalhas e sabonetes dos melhores hotéis da Europa. E muitas fotos. Muitos lugares históricos e minha tia lá, posando de turista. Sempre viajava em grupo. Ela e algumas amigas. Enquanto ela viajava e passeava a ver o mundo, meu tio gerenciava a fazenda. Era um homem trabalhador. Trabalhador e chato. Falava por cima como se fosse superior. E ostentava a vida da minha tia que mora no interior de São Paulo. Dizia que a mulher tinha cultura, e fazia questão que ela fosse e voltasse em suas viagens ao redor do mundo. Aí um dia ele morreu. Calou sua boca chata e minha tia tratou de vender a fazenda. Ele nunca soube que a mulher odiava aquele lugar. Ela tinha asco de tanto boi e vaca e galinha e aqueles trabalhadores da fazenda viviam de pedir dinheiro. Ela não frequentava a fazenda. Sequer convidava amigos a conhecer o lugar. Para ela a fazenda era apenas fonte de renda. Preferia viver na cidade e viajar e comprar quadro pra decorar sua casa inteira. O quarto dela é um espetáculo. Da varanda às janelas, o lugar é belíssimo. No centro do cômodo, uma enorme cama colonial onde dorme minha tia. Quarto de finas cortinas, luminárias trazidas de suas viagens e muitos outros quadros e jóias e tapeçarias. Há corredores, quartos de hóspedes, banheiros, lavabos, cozinha, área de recreação, jardim, piscina e minha tia. Tudo há em sua casa no interior de São Paulo. Inclusive boa categoria de gente fina. E, por este motivo, ela nunca me receberia em sua enorme casa de muitos quadros e coisas finíssimas. Porque sou pobre, moro longe, sou balconista de farmácia e, apenas sei de minha tia porque, minha mãe, sua irmã Ermínia, faz questão de contar a história na hora da visita. Minha mãe está morrendo no leito de um hospital. Já tentei ligar pra minha tia e avisar que sua única irmã está de partida. Mas ela não se importa. Sempre inventa desculpa pra não tomar parte na história. Minha mãe fala de minha tia como se ela fosse a única beleza que possui na vida. E, enquanto minha mãe morre de doença forte, penso em minha tia que vive de quadro e viagem e me parece estar sempre feliz. Ouço minha mãe se encantar ao falar de sua irmã. Acompanho a voz trêmula da mulher e só não durmo com ela porque na enfermaria não há leito disponível para acompanhante e não me permitem dormir no chão. E, ao voltar pra casa no fim da noite, percebo como a vida é discrepante. Nem todos compram quadros, roupas elegantes, jóias caras e tapetes deslumbrantes ou sequer passam dias ornamentando a casa para encher de inveja os olhos de seus visitantes.





Image by Adrian Ball

3 comentários:

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Leticia, pois então...e ainda tem pessoas que não tem a chance de saber o que é passar dias como acompanhante numa enfermaria de um hospital, nembisso as pessoas estão tendo mais direito...
Ontem por coincidência fiquei sabendo que num hospital daqui sequer tinha cobertor, cobriram uma menina, vizinha da minha mãe com dois lençois dobrados por causa do frio.
Seu texto como sempre relata o cotidiano, a realidade...
Algun vivem de quadro, de viagens...de sonhos reais, enquanto alguns ficam meio que de lado, meio que esquecidos no meio do nada...aguardando a sorte
Um abraço na alma...
Beijo

Devir disse...

A suprema corte (STF)decidiu ainda fim do ano passado, como procedente a utilização da chamada "diferença de classe" no atendimento do SUS, pra uma cidade aqui do Rio Grande do Sul. A saúde pública chega à margem de uma mercantilização ridícula onde adentrar em uma fila para atendimento de qualquer patologia sem estar munido de um aparato econômico, representa a aceitação de um atendimento secundário.
Teu texto me trouxe a lembrança desse fato, ambos me despertaram um sentimento de agonia e revolta.

Zélia disse...

Comentarista a paisana: "Nem todos compram quadros, roupas elegantes, jóias caras e tapetes deslumbrantes..." porque algumas compram netbooks. ;)