21 julho 2010

descafeinados






— Tá a fim de um café?

Estendeu a mão, entregando à menina uma xícara de onde fumegava o líquido escuro.

— Sim. Respondeu ainda em dúvida. Olhos procurando ver no avermelhado da parede algum formato, um floco de neve, uma bolha de sabão. Como se fosse criança procurando formato definido nas nuvens.
— Você me parece estar em outro lugar.
— Não estou. É impressão. Estou bem aqui tomando café.
— Mas você não tomou nenhum gole ainda. Respondeu o rapaz limpando a garganta a pigarrear. E engrossava a voz o cara, 22 anos, vadiando pela vida após o divórcio dos pais.
— Você tem planos? Perguntou a menina aparentemente aérea que ainda não exibira coragem de encher a cara de café e cortar assim o efeito da ervinha que fumaram juntos no fim da tarde.
— Planos? Que são planos? E desandou com seu discurso ultrapassado de hippie fora d'água dizendo que viver sem planos é viver melhor. "Planos se desfazem".
— Planos são metas, sei lá. Coisa que a gente faz pra não se perder na vida.
— Se perder na vida ou de vista?
— Você gosta de perguntas, não é?
— Prefiro perguntas. Respostas são incertas.
— E você fala igual a meu tio de 57 anos. Você parece um velho falando.
— Talvez eu seja velho. Um gole de café açucarado por três colheres cheias e acendeu cigarrinho à Phillip Morris.
— Me arranja um?
— Você quer mesmo fumar?
— Por quê? Não pode? Vai dizer que mulher fica feia quando fuma?
— Não. Fuma aí. Largou o maço de cigarros sobre a mesa e alguns cigarros rolaram e era cigarro pra todo lado.
— Não precisava exagerar.
— Desculpa. Sou meio sem jeito.

Ela riu.

— Sem jeito? Não seria efeito da maconha que teu amigo trouxe?
— Não. Maconha não me entorpece mais.
— O que te entorpece então?

O rapaz, 22 anos, boca avermelhada, olhos castanhos e cabelos invejosamente encaracolados e lindo de tudo (a ponto de fazer qualquer menina querer fumar, se embriagar, tentar suicídio), bocejou como se sentisse tédio, olhou pros lados, viu que sua casa sem seus pais era a mesma casa com seus pais. Olhou bem nos olhos da menina e disse:

— O que você faria por mim?
— Como assim?
— Como assim. Nunca te perguntaram isso?
— Não. A menina tomava café aos lotes of Love e queria mesmo era tirar a roupa e fazer o que queria fazer desde o dia que conhecera o cara no play do prédio em que moravam.
— Estranho. Com que tipo de gente você costuma andar?
— Todo tipo. Mas prefiro minhas amigas. Elas são como eu.
— Estúpidas?
— Você tá me chamando de estúpida?
— Talvez.
— Que eu te fiz, cara?
— Não me fez nada. É apenas minha opinião. Te acho estúpida.
— Então me diz o que faço pra deixar de ser estúpida.
— Me responde o que você faria por mim. E seja autêntica.

Ela pairou pelo ar da dúvida, calça jeans e muita frescura, unhas pintadinhas de lilás e camisa de banda de rock. Então saiu a resposta.

— Eu te mataria. E, como ninguém sabe que a gente tá junto, eu me mandava daqui. Ninguém iria descobrir.

Ele riu. Risada mesmo. Meio sombrio.

— Me mataria? E como seria este grande lance?
— Primeiro a gente faria sexo.

E a menina ficou corada ao dizer isso, mas, já que estava ali, meio louca e quase tensa de tesão, largou o verbo.

— Seria coisa simples. Depois do sexo, eu te beijaria muito pra poder sentir o que as meninas todas querem e não conseguem, tiraria algumas fotos da gente pra guardar de lembrança, depois iria à cozinha, pegaria uma faca e te enfiava facadas em teu corpo todo. Sei que sujaria tudo de sangue, mas eu limparia.
— E eu estaria morto e nu. Não acha óbvio?
— Um pouco. Mas seria algo feito com requinte.
— Que requinte?

Ele estava adorando sentir a vertigem que a pergunta havia causado nos dois. Era um tipo de transe. Uma forma de curtir mais a viagem. E havia o lado macabro de tudo. Aterrorizante. E ela ria de sentir prazer.

— Meu requinte seria limpar tudo. Limpar mesmo. Depois colocaria teu corpo na piscina e te deixaria lá boiando por dias. Como sei que ninguém vem aqui te visitar, até bronze você pegaria de tanto tempo que ficaria de molho na piscina.

E ria mais a menina, acabando com o café que ainda havia no fundo da xícara e fumava feliz da vida.

— E você acha que não deixaria rastro de você aqui?
— Não. Porque eu tentaria não tocar no teu corpo. E, se tocasse, usaria luvas como se faz nos filmes e a gente teria que usar camisinha. E eu sairia do apartamento friamente que não deixaria nada meu para trás.
— É. Talvez você não seja tão estúpida. Mas anda assistindo filmes ruins.
— Por que diz isso?
— Esse tipo de crime é repetido mil vezes por aí. Já imaginou a manchete? Homem encontrado morto na piscina. Há indícios de crime passional e envolvimento com tráfico.
— Não tinha pensado nisso. Porra, mas por que você ta fazendo isso comigo?
— Só estou treinando tua mente de menininha ainda crua e virgem.
— Não sou virgem. Esbravejou, como se a ofensa fosse das piores.
— É ruim ser virgem?
— Não sou virgem, seu merdinha idiota.
— Não é?

Ele partia pra cima dela deixando tonta a menina de tanto que fazia pergunta. E ele rindo era mais bonito ainda.

— Não sou. Perdi a porra da virgindade aos 14 anos e foi bom. Comigo não tem essa de ter sido ruim. Sempre é bom.

Encheu os pulmões, soltou o ar de uma só vez e ficou passando a mão na cabeça. Coisinha de quem paquera. O cabelo caía escondendo seus olhos. Ela se sentia sexy.

— E tem mais. Faço sexo como ninguém. Todo mundo diz.
— Então a torcida é grande.

O cara disse isso e a cara dele era de ironia pura. Maior cara de pau.

— É sim. Maior do que imagina.
— Quantos?
— Muitos. E começou a citar nomes de alguns caras que moravam no mesmo prédio, que estudavam com ela, e citou nome de cara mais velho, casado, algumas amigas também. A lista era longa.
— Vou te dizer... Fiquei surpreso. Sempre te vi tão quietinha, jeito de menininha, toda certinha. Já te vi com namorado e uns ficas, mas assim você me pegou.
— Surpreso é? Ou tá com ciúme?

O cara riu e acendeu outro cigarro.

A menina, com gosto de café na boca e cheiro de maconha no cabelo, sentiu raiva do cara, do jeito dele, todo irônico e aí ela começou a tirar a roupa feito louca, deitou no chão, abriu as pernas e disse:

— Vem logo. Sei que é isso que quer. Fazer parte da lista.
— Como sabe o que eu quero?
— Todos querem. A não ser que seja uma bichinha.
— Não me aceitaria se eu fosse uma bichinha?

Ele fumava e enfatizava toda palavra.

— Claro que sim. Não tenho preconceito.
— Não?
— Pára de falar e vem logo antes que eu desista.
— E você desiste?
— Cara, tô aqui desde duas da tarde, a gente fumou, riu muito, matamos larica e você vem com essa merda de café e um monte de pergunta. Faz logo o que a gente tá a fim de fazer.
— Eu estou?

A menina partiu pra cima do cara com toda raiva e impaciência e começou a beijar o cara, fazer gesto, passar o corpo no corpo dele, e assanhava o cabelo do cara e dizia palavra imprópria (muita putaria) e queria o cara mais que tudo. Ele quase não se movia. Ele assistia fazendo parte.

— Me beija logo. E com vontade.

Ela dizia. Sussurrava. Implorava. Ele só esboçava meio riso e mais nada.

— Qual é a tua, cara?
— A minha é nenhuma. Você é óbvia demais.
— Óbvia? E você é uma bichinha. Tem muito cara querendo ficar comigo. Tem gente grande me querendo, sabia?

E ela, já perdida em impaciência, disse nome de mais gente e surgiu então outro nome que causou pausa na fala da menina.

— Ele também? Perguntou o rapaz.

Ela, mesmo sabendo que não poderia ter dito aquilo, que tinha feito merda em dizer, afirmou com toda ira.

— Ele também. E ele me quer sempre. E me paga pra fazer tudo. E eu cobro caro.
— Em dinheiro?
— Em tudo. O que eu quiser.

Ele riu. Riso cheio de satisfação. Riso forte de quem havia conseguido.

— Você deve ser boa mesmo.
— Sou.

O rapaz apagou o cigarro na xícara de café, caminhou até ao balcão da cozinha, apanhou a filmadora e a menina se escandalizou ao ver que ele tinha filmado tudo. Chamou o cara de sacana, de covarde, e esmurrava as costas dele.

— Foi por isso que me chamou aqui, seu filho da puta?
— Não. Eu queria apenas fumar um baseado com você.
— Você tá mentindo. Armou tudo. Me dá essa fita, seu merda.

Ela gritava. O rapaz, mais forte que ela, se defendia e ficava rindo da menina de unha lilás. Ela já esboçava choro (coisa de fazer chantagem emocional) pra ver se ele entregava a fita pra ela e ele conseguiu se afastar e, parado perto da porta, olhou bem a menina e disse:

— Veste tua roupa e se manda daqui.

E a menina não chorava mais. Ela estava com raiva. E sentia medo. O cara era, afinal de contas, um maluco. Ela se vestiu. E limpou o rosto com as mãos.

— Agora pode ir.

Ele apontou pra porta. Gentilmente. E sorriu. O rapaz era educado. A menina se dirigiu a porta. Obedecia feito cachorro treinado. Aí ela perguntou:

— Que vai fazer com esse filme?

Ele sorriu de novo. Agora sombrio. Os olhos castanhos se agigantaram de humor negro. Ela empalideceu. E ele simplesmente respondeu:

— Não sei, não sei. Mas lembra bem que aqui quem dita as regras sou eu.

E a vida continuava perfeita ao frenético cair da tarde de mais um dia.







8 comentários:

Letícia disse...

Peguei pesado. Travessão demais e texto do tamanho de um bonde. Mas é assim: ou escrevo ou escrevo. A quem ler, valeu!!!

Sonhadora disse...

Nossa! Dá um sentimento de pânico no final. Você fez isso de forma genial.

E é sempre!

E quanto mais longo o escrito, mais eu me delicio!

=D

A Escafandrista disse...

gente, essa deu medo...

Espaço Aberto disse...

Venho convidar você, para estar em nosso blog e conhecer a nossa convidada a escritora Bruna Longobucco, que nos traz um assunto muito importante.
Aproveitamos para desejar que você tenha um ótimo fim de semana!
Um abraço carinhoso

Felipe disse...

Minha nossa Lê!!!!! Visceral, do jeito que gosto!!!

Fantastico!

Beijos...Fê

Beto Canales disse...

Travessão demais?

Não, não...

Gostei

Devir disse...

UAU!

Zélia disse...

Valeu?! Sei não...

Acho que o problema estava mais no café que em qualquer outra coisa. kkkkk Mas sabe o que eu pensei? Que seria bom que essas menininhas de hoje, tão cheias de saber e donas do mundo, lesses teu texto para ver se elas percebem que a estrada ainda é longa.

E que Deus abençoe a rainha!