04 julho 2010

eletrostática





Eletrostática e minha pátria se dissolveu. Entre a fome burocrática de quem busca emprego e o término da partida de futebol, furioso penso em você. Pois meu sentimento não está guardado em cartas devolvidas. Não exerço papel de amante em simplicidade. Devastei tua ingenuidade desde o dia em que me conheceu. Tonificado de vaidade, costumava olhar os avessos da cidade e as vulgares mulheres retalhavam-se a me querer. E eu despenquei a ser todo bruto, bebendo em toda fonte, esquecido que estava do tempo futuro que nos prega peças e nos faz arrependidos ou até mesmo patéticos da forma como agora me vejo. E eu, quando silenciavam as festas, sozinho nas madrugadas rasgadas de estrelas, sirenes repovoando o vazio dos cômodos, não suportava imaginar que um dia estaria preso a uma única criatura. Eu era o louco. Libertino e adorador da vadiagem. Mortificado da necessidade de qualquer laço que me pudesse atar à castidade de querer uma só figura entre tantas outras que trafegavam em minhas ruas imaginárias. Todas as lutas eram vencidas por mim. Eu me idolatrava. Ébrio e solto. Belo zepelim de papel carbono. Uma cópia nada generosa do mau comportamento e do perverso abandono. Satisfeito e completo, eu me esculpia em todo corpo que me atravessasse as vistas e era livre e ninguém jamais me prenderia. Mas o futuro estava ali, forjando gafes, preparando revoltas, planejando azares e, em um único golpe, me vi preso, atônito, bobo da corte sem riso, ridículo e esquisito. Pavio de fogo indeciso. Porque eu te amava. Amo. E passei a ser outro. Confessando amor a cada gesto. Pecando contra mim mesmo, o ermo. Bicho que se transforma, Kafka arrancado de sua história, preso a um forte sentimento que agora me faz declarado a escrever em verso a palavra que de mim nunca surgiria que não fosse por mentira ou por me fazer senhor das glórias. Agora estou a abrir os braços, reservar tempos, olhar relógios e, sempre a me desconhecer, afogo violências neste abuso romântico e vergonhoso de querer você. Estou sedento como se nunca tivesse habitado outros mares. Minhas mãos parecem nunca ter tocado outras faces. Estou irreconhecível e sofro do mistério que faz um animal desejar o  idílio do caminhar em bandos. Embora possa, ao ressonar das horas, tornar-me feroz e atingir tua força com o envenenar que trago dos lábios de ontem, fico a espera. Tímido em mudez camuflado, dentro de um aquário, o enorme predador ameaçado. Espero que me consuma a vontade ou que se rompa a haste do que sinto. Que caia a lona do circo. Porque não suportarei esconder fraquezas diante de você. Tornei-me viciado em teus precipícios. Uma mulher, por fim, corrompe meu livre arbítrio. O que mais posso esperar de mim? Tornei-me este humilde caracol deslizando em teu povoado jardim.






Image by ilkekutlay

6 comentários:

Eveline disse...

"Agora estou a abrir os braços, reservar tempos, olhar relógios e, sempre a me desconhecer, afogo violências neste abuso romântico e vergonhoso de querer você. "

isso sim é uma verdade dentre a rotina que massacra. =/

Devir disse...

Todo meu mundanismo exacerbado se converte em amor uno. A unica coisa que me reclama surpresa é perceber que há um gosto novo naquilo tudo que já pude experimentar.

"Pavio de fogo indeciso. Porque eu te amava. Amo. E passei a ser outro."

E dessa forma tão estranha de quem só ama uma vez no tudo que viveu, vem um "abuso romântico e vergonhoso de querer você." (sempre).

Ricardo Fabião disse...

Letícia,
é sempre um deleite para os pés a palavra que leio aqui, um vão enorme; as estradas que se abrem disso, a ressignificação de viver-sentir-escrever; pego esse desvio.

Em que outra palavra um chão é tão
estrada de ir? Vou.

Lindo, como sempre.
Beijos.
Ricardo

(andei sumido, montando projetos e tudo mais para um mestrado agora em Julho)

Zélia disse...

Mui bueno mas terei que ser breve. Lembrei-me da tal conversa sobre "amar o que o outro nao pode me dar" ou coisa assim. Fuçarei mais sobre isso... PS: Teclado español.

Ribeiro Pedreira disse...

quando o futuro virou a mesa e trouxe o indomável querer, as forças da arrogância se renderam às flores do jardim.
o amor faz de imponentes castelos pequenos abrigos.

Sonhadora disse...

Achei deliciosamente humilhante! (um bom sentido, claro.)
rs

"Espero que me consuma a vontade ou que se rompa a haste do que sinto. Que caia a lona do circo" - Lindo isso! :o