30 agosto 2010

cobaia judiosa






Leio o jornal:

HOMEM MORRE POR OVERDOSE DE CAFÉ

Por que não usaram exclamações? Não é uma morte comum. Penso inadequado: Não há morte comum. Talvez e, somente se, por sorte dos azares, a gente morrer dormindo. Deve ser como sonhar. Mergulhar em um sonho que não se acaba mais. Então penso nas pessoas pecadoras judiosas. Estas não morrem de um sonho bom. Quem sabe não morram de um pesadelo arquitetonicamente desgraçado? Desvio pensamentos.

Morte não é assunto de pensar. 
Apenas quando ela acontece. 
Mas não hoje.

Na mesinha ao lado, a Microfísica do Poder parece gritar. Extra. Extra. Extra: Há relações que não podem se dar ao luxo de se dissociarem. Bingo. Então é por isso que não posso me dar ao luxo de tapar meus ouvidos quando o filho do vizinho, que pratica fervorosamente seus primeiros acordes na guitarra, me acorda às 7 da manhã praguejando agudamente Sweet Child O'Mine. Aí eu falo da morte novamente. Ouvir o menino tocar é como morrer de desgosto. Cada vez que ele ensaia um solo de guitarra, penso em tomar um comprimido e brincar do jogo do contente. Vamos todos ser felizes! Vamos todos ajoelhar e pedir a Deus que nos proteja! Meu lado profeta é mais afetado que cobaias de laboratório. Ratinhos brancos, cãezinhos e será que usam humanos? Não quero pensar no humano.

Hoje descarto esta categoria.
Vou pensar em mim.

Decidi que hoje não iria trabalhar. Não vou porque não quero e que se ferrem de inveja meus amigos compatriotas. Todas aquelas pessoas abarrotadas de obrigações desnecessárias e que dizem de si o tempo todo para que elas mesmas acreditem que são felizes. Tenho uma vontade desgramada de dizer: Tu não és feliz. Tu mentes, Clemente. Mas ai de mim se eu disser. Então, como hoje estou meio falante, não vou ao trabalho e não falo a verdade.

Mas que verdade?
A real ou a fictícia?

Prefiro mesclar as duas, adicionar duas colheres de café solúvel e conversar com gente estranha ao telefone.

Hoje me ligaram.
E era cedo.

Alô. Sou eu. Represento A Associação Que Cuida de Pessoas Portadoras de Câncer e há um senhor morrendo (aos poucos) e você poderia colaborar?

Santa mulher esta que me ligou.

Eu precisava ouvir histórias de outras vidas. Era urgente. Meu dia estava se tornando debilmente egocêntrico.

E eis que a mulher liga e eu digo que posso ajudar. Dez reais poderiam me tirar a culpa de estar em casa, de estar sentado lendo rompantes filosóficos que atentam contra o pudor das mentes simplórias. Eu poderia me sentir livre da culpa de desejar mal ao filho de meu vizinho. Eu poderia sentir alívio por ter denunciado minha outra vizinha que criava um papagaio. Um crime. Eu a denunciei. Alô. É do IBAMA? Em uma semana vieram buscar o pássaro falante.

E eu estava fervendo desculpado de tudo.
Não tenho mais culpa.
E Bendito seja o dinheiro vivo.

Contribuo com dez reais e o velho pode até morrer de câncer, mas eu terei ajudado e, um dia, isso me servirá de alguma forma. Senão um dia, serve agora.

Chega o rapaz que busca o dinheiro das contribuições. Motociclista aparentemente cansado que provavelmente faz este trabalho para pagar suas contas e aliviar suas culpas.

Pago, recebo o comprovante de contribuinte, entro e sento novamente.

Microfísica do Poder.

Mais dois goles de café na culatra da garganta e que se ferrem os doentes. Sou maquiavélico de forma humana e não consigo banir de mim toda a repulsa que sinto por saber que sou igual. Apenas um ser vivo, cheio de medo igual aos outros seres pequeninos. O que me difere dos demais é que não costumo mentir. Minha vida não passa de um espetáculo fajuto em que tento provar que poder e revolta possam me trazer lucros.

E volto a ler o jornal.

Altivo eu ergo meus óculos e ainda morre de overdose o homem em letras garrafais.






Image by koony

8 comentários:

Eder Asa disse...

F-A-N-T-Á-S-T-I-C-O!

Nunca vi prosa igual, que diga tanto sobre o que penso, ou que me faça pensar completamente diferente. Olha, se não fosse tão bom, diria que fui eu quem escrevi rsrsrs
É profundo, é poético, é comum e é estranho.
Eu adorei.

Parabéns!
Sou fã, já!

Sonhadora disse...

"Alô. É do IBAMA?"


Achei seu texto tão irônco, pode ser meu ponto de vista (porque estou irônica hoje). Sempre depois de uma tristeza vem a ironia.
Eu queria escrever hoje, como você...Mas, não tenho conseguido.
Acho que vou descarregar minha frustração ligando pro IBAMA vir buscar o culpado pela morte do meu gato: o papagaio que o vizinho assassino cria solto no pé de goiaba.
E já dizia deus: olho por olho, papagaio por gato.

[ópera
...
fúria]

=D

Beijo.

Felipe disse...

Sublime!

Beijo.

Zélia disse...

E leio o texto e vejo passos de quem faz café. Não sei explicar... Se eu-lírico pode tudo, leitor-lírico também. Enquanto isso, morre e nasce gente.

Daniel disse...

hoje o dia amanheceu cinza aqui. E lendo você, ele ficou escuro cor de café.Me lembrou o silencio do quarto pela manhã ainda na penumbra. E cheiro de café. agora, Cheiro de gente morta.


Adorei!

Júlio César disse...

O humano e suas formas, seus contornos e constantes representações.
Contracenar a vida é fantástico e você o faz de maneira especial aos meus olhos.
Doce beijo, bela escritora.

Rodrigo Passos disse...

não posso n deixar de te seguir, lindo texto!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



Veja vc, mais uma vez, a importância da telefonia...



Verve, ritmo, agudeza.





Um beijo, querida.