03 agosto 2010

entropia




A velha, o menino e o tempo que enguiça. Três espécies lidando com a vida e a linha torturada entre os dedos da senhora que borda enquanto observa o menino fazer ruir de sua boca o apito do trem com o qual brinca na grande mesa da sala de jantar. Faz calor lá fora. Lagartixas passeiam na calçada. O rastejar de suas patas fazem o menino acordar do silêncio amornado da tarde. O menino olha o que a senhora não vê. Um dos pequenos répteis cabula o caminho do outro, sobe pelo muro, olha ao redor, e, não vendo perigo, percorre toda murada da entrada da casa e se vai. O menino ri de fininho porque acha engraçado o bichinho que some sem deixar vestígio. Assim vai o tempo. A mulher não se contém e pergunta ao menino qual motivo do riso. Ele não diz. Meneia a cabeça, encolhe seus pequeninos ombros e volta a fazer seu ruído. Agora é um pequeno carro que atravessa a mesa e cruza o caminho do trem. A velha mulher cospe na linha. Deveria apenas ter melado de saliva a linha a ponto de fazê-la entrar no buraco da agulha, mas, como a idade avança e o tempo urge, a velha quer logo terminar o bordado que era pra ontem, costuma dizer. A linha parece enroscar-se em si mesma. Luta aturdida e, em violência, golpeia a mão da idosa mulher. Que canta. Embora impaciente, a mulher canta e cospe na linha que briga devota por sua liberdade. A agulha brilha lustrosa perfurando o tecido. Ainda sem linha, a agulha sofre a solidão de quem não cumpre seu destino. A mulher avança com seus dedos enrugados, porém adestrados no labor de fazer costura, e ainda olha o menino que brinca atiçado pela magia que a mulher há muito não sente o sabor. E a luta segue. Mulher e linha serpenteiam por vida em pleno calor. O dia está mudo lá fora. Não fosse o homem que vende sorvete a romper o silêncio, o mundo estaria perdido. A velha sente secura na garganta. Uma crescente vontade de gelar sua sede; mas não pode. Não tem saúde para sorvetes. O menino se alegra ao ouvir o sino do carrinho do homem e seus gelados coloridos comestíveis. A criança sorri e salta em direção à mulher que agora bruta estica a linha com amargura e cólera e abre bem os olhos ao ver que o menino se alegra. Alegria fere o sorriso que não existe na mulher. E, então, perfura o dedo em sua luta injusta com a linha que nada quer e entristece o menino ao berrar seu eco de moléstia causada pela inveja do viço, da novidade que não mais enxerga. E vai longe o homem que vende sorvete. E vai longe a lagartixa contente. E permanecem, alinhavados pela vaidosa entropia, a velha, o menino e a linha.




Image by Perrine Boyer




 

4 comentários:

Deia disse...

Letícia, gostei muito. Bonito o sentimento de sofrer a solidão do destino não cumprido. Um beijo, Deia.

Zélia disse...

Bonito, embora triste (ou não?), retrato de mundo. A imagem da velha cuspindo na linha não sai da minha cabeça... Não penso muito no tempo em que eu estiver neste "estado de entropia". Não acho que deva. Só quero cumprir meu destino. Quem, sabe assim eu não me sinta só ao final dos tempos?...

Sonhadora disse...

"A velha mulher cospe na linha"


Eu ri.
Depois eu fiquei triste.


rs
Acho que é mais ou menos isso...a gente ri e depois fica triste. Rusumo da vida.

Eu rio ou fico triste com isso?
rs
(hoje eu ainda dou risada e dou de ombros)


Encatador seu texto de hoje. Beijo, Letícia.

Mai disse...

Você me sacode!
Lembrei de Borges quando ele diz que o passado é a estação mais propícia à morte.
E se a gente deixar, o passado se arrasta, se atualiza e sorrateiro nos inquieta, impacienta, mortifica.

Projetar um futuro a partir do que se foi, é ficar à mercê da desordem. É como torcer a linha que foge da agulha que escapa do bordado que a velha cuspia.
Um texto em Caps Lock com tristeza em maiúsculo.

beijos, let,
lov u