12 outubro 2010

gênero explícito




Frágil
(qual destroço de um mito)
Busco me concretizar




Medo de dizer às amigas que gostava daquilo.

Que me faz bem.

Gosto de sonhar.

À noite, quando todo mundo dorme ou faz sacanagem ou mata ou morre, eu fico na cama pensando mil abobrinhas. Nem queira que eu te diga o que se passa em minha cabecinha purgante de menina sonhadora que finge ser maluquinha.

Minha atitude é para agradar.

Na Grécia, minta feito os romanos.

E nada é mais importante do que deitar e pensar. Passo o dia inteiro de gracinhas com minhas coleguinhas mestrandas e leitoras de Alfredo Bosi. Poesia é isto. E salta um verso da Adélia. Poesia é mais isto. E vem uma enxurrada débil mental de versos cortados e muita poesia marginal para suprir a necessidade de exibir quilate.

Eu faço parte do número.

Falo que falo que falo.

E, bem no fundo, não digo é nada. Volto pra casa e olho as ruas. Vejo casas, janelas abertas e adoro ver pequenas casas e pessoas abrindo geladeira. É reconfortante saber que escapo (gato escaldado) e volto ao meu pensar romântico.

(Mas romantismo não é bem isso. Veja no livro tal, capítulo tal, supracitado não sei onde. Romantismo nada tem a ver com teu ritual de pijamas, diário, cigarro apagado e uma fornalha querendo incendiar tudo que é coisa).

E eu ainda me espanto. Liguei a TV, minutos atrás, e vi o Carpinejar de unhas pretas, falando muito, rindo tonto e tenho vergonha ao dizer que cato ídolos fora do horário nobre.

(Cato estrelas no céu, no mato, no coração acidentado do rei despreocupado).

Estou praticando versos.

Cadernos e mais cadernos cheios de rabiscos.

Eu escrevo todo mundo.

Na cara de pau.

Agora estou na fase de tentar criar personagem que seja igual a mim. Estatura mediana, mente imunda de tão suja, perversa e quieta feito cobra antes do bote.

Descrever personagem, polegada à polegada, dá trabalho.

É árduo.

Preciso de um manual.

E comprei um livro que ensina a criar personagens. Uma cartilha para escritores iniciantes. Coisa mais vestibular. Comprei e escondi o livro. É o meu segredo. Há regras, macetes e tento evitar a questão física. Isso fica a cabo de quem lê. E eu escrevi um conto inteirinho depois de ler o tal livro. Sempre que tenho alguma dúvida, recorro a ele.

É o meu santo padroeiro.

Mas nunca faz milagre.

Agora redijo uma página de um romance malcriado. Um conflito, duas epifanias, um amor (talvez mais), mortos e feridos e durmo tarde. E, feito coruja espionando através das árvores, escolho meu plano de voo, meu destino e meu desastre.




Image by pickpocket

6 comentários:

VELOSO disse...

Antes de você ler o livro que o guru lhe deu você tem que escrever o seu... Diria Raul Seixas! Eu digo gosto do seu afeto com as palavras!

A Escafandrista disse...

agora o livro não é mais segredo lol



ando sempre por aqui. abraços, letícia.

Mai disse...

Tão explícito quanto humano.
beijos, Let

Sonhadora disse...

" um livro que ensina a criar personagens. Uma cartilha para escritores iniciantes..."


Mas que boa ideia você me deu!!!

kkkk

Está deliciosamente irônico. Adorei.

=D

Tadeu lhe manda um beijo. Eu também! :*

Devir disse...

1)Gênero explícito
2)Eu escrevo todo mundo
3)Destino e desastre

Zélia disse...

Eu não entendi o "Na Grécia, minta como os romanos"... Logo eu que entendo tanto de Grécia!!! Mas... liberdade de escritor...

"(Cato estrelas no céu, no mato, no coração acidentado do rei despreocupado)."

Eu gosto de versos assim. Isso é poesia pura. Poesia sem preocupações de "pares". Li Adélia, li Cecília. Tudo é impar e eu não sou rei e não ando despreocupado...