22 agosto 2010

ideário






Toma um chá que a história é longa. Inicio me deixando pré-datada. Peixes, ascendente sagitário, esquina com General Osório, número quatro. Ah, quantos acontecimentos até chegar aqui. Neste ponto. Será azul a cor do céu que observo? Agora vejo que tudo fora preciso. Emergia de mim uma pretensiosa vontade de mentir para mim mesma. Eu precisava me esconder para não me saber. Estranho esconder-se de si mesmo. É como escrever. Travestir amargura em alegria de forma tão calculada. Eu era trapezista de correr riscos. Vivia de absurdos. Ainda vivo meus excessos e abusos. Não me canso de ser. E meus crimes não são bárbaros. Quase não existem. Ninguém os vê. Eu apenas contava histórias. Eu as vivia. Tão nítida era minha vivência de tudo. Um dia eu sufocava cavalos marinhos. No dia seguinte acordava ansiosa por comprar flores para Mrs. Dalloway porque eu não suportava mais aquela velha borrifada de quinquilharias existenciais. Sofri bugalhos. Tortos, confusos e emancipados. Existencial eu me tornei. Não apenas por estar física e permanentemente agregada ao que sou. São meus sentidos aflorados que me dizem que existo. A despeito dos contrários e dos viadutos que a cidade não ostenta, eu insisto. Viver é isto. Sustentar ideários e palavras é o meu ofício. Eu preciso dizer que insisto. Em voz alta, como um político profetizando em meio à praça, eu insisto. Não despeje teus rabiscos em meus livros. Não deixe tua mão sobre minhas palavras. Não exerça falsa soberania em meu estado de calamidade pública. Não trafegue de contrário a minhas navegações. Não invente de corrigir meus erros. Porque é um imenso novelo que agora se desfaz. A gente vive tentando correr de pressa com a vida e ela age a seus propósitos. Não me esforço em dilatar meus pesares. Sofro meus lutos. Sofro em bruto estado de emergência. E, ao acordar dias depois, ainda sofro. Mas é de uma sábia dor que não me comove e não me faz arrastar correntes. Minha hora é de gramática baseada em exceções. Meus erros são simultâneos aos meus exageros. Não banalizo sentimentos. Fervorosa eu os recebo. E desarmo holocaustos em um sorriso compenetrada de amor.





7 comentários:

Pedro Avillar disse...

Seus textos me inspiram, me tocam, me elevam, me divirto com as frases [sofri bugalhos], com tua forma de brincar com as palavras. Em suma, já fazem parte do meu dia a dia...


Isso é literatura.

Só preciso aprender coisas pra poder te ler. Você não é pequena e eu vou tomando teu jeito.

Você dá soco na cara e fica rindo. Bela.

Olha só...Uma frase bonita, simples e forte, atrás de outra frase bonita, simples e forte [Sustentar ideários e palavras é o meu ofício]. Acho que foi vc quem disse que não fazia poesia. Mas, cara... vc só faz poesia. e subversiva só pra completar.

Beijão pra ti.

Mai disse...

Errar por excesso, amar no exagero do que seja, sorrir em profusão e encontrar toda poesia na exceção do sofrer.
E porque talvez este, seja o retrato de uma mulher bomba, pronta prá explodir, vou rezar prá que não haja holocausto.

beijos, Letícia

Sonhadora disse...

"Toma um chá que a história é longa..."


Tomei susto, Letícia. Sabe como eu gosto de histórias longas, rs.


Você define tudo muito bem em uma frase seca: "...uma sábia dor que não me comove e não me faz arrastar correntes..."

Pronto. Perfeito.

=)

Beijo grandão.

suecosta disse...

Obrigada por continuar inserido páginas no meu livro.

Luiza Maciel Nogueira disse...

muito bom!

bjs

Zélia disse...

Este texto está "muito ótimo"! Poderia enrolar um novelo das frases que poderia citar aqui. Mas eu vou ficar com a frase que questiona a cor do céu que se vê. O céu não é azul. Ele se torna azul pelo reflexo da luz solar na atmosfera. Então, eu penso: ele não é azul mas eu o vejo azul. Quantas vezes mais vejo o que não é como se fosse? [Velho da barba]

Marcelo Novaes disse...

Letícia,





Tomei o chá. Compreendi o ideário. As coordenadas iniciais me ajudaram muito. Sobretudo o fato de ter sido "esquina com a General Osório, número quatro". Mas, fiquei pensando..., sendo a rua general Osório a daqui de onde falo, da Cidade Canis Major Sertório [ah, essas patentes...; faltaram-me as coordenadas geográficas de quem esboçou ideias tão tamanhas -meça essa aranha meça essa aranha -: longitude, latitude...] serão outros os crimes?! Não creio.



Pronto. Então, está mesmo entendido.








Beijo, amiga.