12 agosto 2010

in natura





Amar e armar a esmo. Torcendo dedos e masoquismo é enredo e me machucas que ando nua nas ruas de minha infância. Praga de ingênua horta de tuas mãos cultivar. Há em mim o que de fato existe. Homens escravos e a história de meu país. Manchetes em meus ouvidos e eu com isso? E eu com o mundo? Torta fêmea feita de horas e aborto beijos calculados. Quero susto e que me corram deuses e demônios em minhas veias de mulher pedinte e sedenta. Transito de dia e, à noite, hemorragia é a vontade que me guia. Não colho absurdos coitos de homem que sente medo. Já ouvi de todos que medo nos encolhe. Então, ágil, espalmo o piso e ele se curva e faz de mim a fenda por onde se vê que trêmulos dizemos amor e há pornografia bela dita em nossas línguas. E assombra a hora de ir embora e não me deixa o homem que elabora. Homem vasto de tanto espaço e sou a sombra do que ejacula tua obra in natura. Em instantes. Minutos em caos de eternidade. Sirvo em ritmo alfabético, ereta e discreta, e declaro o que a poesia não diz. Estou vaga feito lâmpada acesa enquanto caminha mais um dia a humana essência e diga você o que deseja. E diga você o que espera sentado à porta de casa cruzando braços enquanto espalho meu corpo em sua cama doente de tanto sorrir. Meu feminismo é entregar-se. Coragem é deixar-se larga, sorrindo feito menina, enquanto te ergues farto e composto trajando tua face de covarde. Minhas mulheres trabalham mais e eu alimento animais. Estes cegos e amedrontados verbos passivos que de mim se esvaem. Prolíferos habitantes de meus ouvidos. E calculo a bruta soma de meus temporais.






8 comentários:

Keila Costa disse...

Coisa linda esse texto de sentir...essa coragem que o amor nos faz, esse medo de amar também...Abraço

lilly disse...

muito bom seu texto adorei
bjos

Marcello disse...

Adoro seu texto.
Suas palavras flutuam na minha cabeça enquanto eu construo aos poucos imagens que você imaginou aí do outro lado.

Bjs

Sonhadora disse...

uau!


um texto-orgasmo quase.

rs

Beijo =D

ADRIANO NUNES disse...

Letícia,

Gostei da entrevista com o Marcelo Novaes! Parabéns pelo seu trabalho!



Abraço,
Adriano Nunes.

Zélia disse...

Lembro de meu amigo Alfredo. O Bosi em "O Ser e o tempo da Poesia". O poema é, ao mesmo tempo, cronológico e atemporal. A poesia contada em "in natura" tem data mas atravessa os tempos. Eu que a leio e sinto procuro os pares de sapato que me servem.

Quanto as mulheres, as minhas também trabalham mais. "Quat the hell"!!!

Zélia disse...

Note:

"Quat the hell" é uma variação que ocorre quando a mulher encontra-se em fase "Desperate housewife". kkkkkk

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



A música subliminar complementa o que a poesia não diz. Aqui vc foi ainda um pouco mais melodiosa do que o habitual, talvez pelo prazer ["natural", claro...]de exercitar-se em profanações & impropérios.


Ó, essas faces tão tíbias, tão débeis! Quando se deixarão tão largas quanto as ancas que se deixaram à larga?!







Um beijo, querida.