06 agosto 2010

repente de retórica




Há violinos? Violinos, violas e violoncelos. Flautas doces? Diversas. De todos os acordes e cores. Deliro ao ouvir algo assim. Play it again, Sam. Você e sua devoção por filmes. Você não muda. Mudo. Acabo de mudar. Veja. Antes eu estava recostada na poltrona. Agora espreguiço meu corpo. Sim. Percebo a mudança. Mas ainda aparenta cansaço. Aparentar não é estar. Filosófica. Não. Antipática. Tem razão.

(Reinicia a música. Divino controle remoto. O homem, sentado no chão da sala, olha a mulher que tenta ouvir cada detalhe da sinfonia).

Acordeão? Espanto. Susto. É decepcionante. Você me enganou. Eu não enganei. Você enganou sim. Há violinos, violas e violoncelos. Flautas doces. Cordas e sopro. Mas não me falou do acordeão. Que há de errado com o acordeão? Nada. Nada de errado. É apenas o seu delito que me fere. É sua mania de mentir que sempre nos distancia. É o enganar que me golpeia quando eu poderia ter permanecido alegre ouvindo a sinfonia. Eu não menti. Apenas não considerei o fato de que você desejava, na verdade, que eu desmembrasse a sinfonia ditando todos os instrumentos que a compõem. Não considerar é mentir. Deixar a verdade escondida. Do que você está falando? O que está inventando com esta atitude de criança? Crianças não odeiam. Você me odeia? Não odiaria. Um minuto atrás, eu amava você ferozmente. Amava de engolir você. De achar belo seu rosto pela manhã quando a noite ainda assanha sua imagem. Você é complexa. Exagera. Inventa diversas desculpas para irromper nisto: Uma discussão matutina. Logo quando tudo estava bem. Logo quando eu... Retire de sua boca estas malditas reticências. E desde quando você usa o verbo "irromper"? Que há de errado com o verbo? É comum. E eu digo que meu vocabulário transcende o seu em quase todos os aspectos. Quase? Então você admite estar longe de me alcançar? Admite que ainda venço seus repentes de retórica? Que ainda sou superior ao seu espetáculo de se esbaldar em palavras que talvez você nunca tenha usado ou escrito ou lido? Leio tudo, minha querida. Conheço todas as palavras. Quando não as uso, eu as tenho em pensamento. Posso rir então? Ter palavras em pensamento é como ter dinheiro e não poder gastá-lo. É como ter pernas e não poder andar. É como provar de um vinho e não poder se embebedar. Você se assume muito eloquente, não? Assume tanta destreza e tanta maestria ao elaborar suas frases e tudo me parece sincronicamente ensaiado. Eu a vi conversando sozinha. É assim que decora seus discursos? Não decoro discursos. E não converso sozinho. Concorda comigo que, para se conversar, é preciso que se tenha alguém? Um objeto a quem se dirigir? Não fuja da rima. Não tente me levar com sua precariedade de respostas diretas. Seria sim ou não. Isto me bastaria. Você se basta. Eu sequer existo.

Sorri o homem. Lacrimeja a mulher. Dois sexos, tantas palavras e apenas um gesto poderia salvá-los de todo o desgaste de tão incompreensível discussão. Quando a manhã seria plena e poderiam fazer amor, fazer rimas com seus corpos, deixar a flor ardente incendiar-se de paixão. Mas não. Era preciso o alarde. A brutalidade de buscar vitórias. A discórdia que faz vencer o mais forte e calar a boca em difusa vergonha aquele que sofre. Mas ambos sofrem. E ambos se calam diante da viola que despenca a soletrar a sinfonia de um dia que, por descuido linguístico, tornara-se vulgar.






3 comentários:

Mai disse...

Texto forte! Numa sinfonia, importa a sinergia, a comunhão de todos os instrumentos.
Nos desafios de viola e nas cantorias, vence o repentista que encontra as melhores palavras e com elas expõe ou humilha o outro.
Teu texto retratou com fidelidade,
"...a discórdia que faz vencer o mais forte e calar a boca em difusa vergonha aquele que sofre."



beijos, Letícia.

Sonhadora disse...

Acordeão! É decepcionante?
Que seja! :D


-

Decepcionante seria não me ler em seus textos, rs


beijo grande.

Zélia disse...

Eu fico com ela, Éris, a deusa da discórdia. Talvez, ela não tenha o tanto da malícia que lhe impõem. Afinal, ela está apenas cumprindo o seu papel. Às vezes, somos nós que abrimos a porta para ela entrar. Foi assim no casamento de Peleu e Tétis. Ela foi preterida e qual foi o resuldado? A gerra de Tróia! Quantas guerras poderíamos evitar se fôssemos mais benevolentes?