14 agosto 2010

take five




Deus acordou tarde. Dor de cabeça latente do pileque da noite passada. Pensou duas vezes. Melhor seria ficar na cama. Aproveitar o tempo feito de ócio e hoje Deus não se sentia instigado a fazer nada. Culpa do tempo. Erro Meu. Então Deus estalou os dedos e criou o Prozac. Sentou-se na cama, colocando assim os pés no chão, olhou de lado e lá estava em sua mesa de cabeceira: Um comprimido, um copo d’água e, certamente, um pouco mais de estímulo para seguir o dia. E assim Deus criou a motivação. Olhou seu relógio de pulso, largado na pequena cômoda de seu quarto, e percebeu que ainda não era tarde. Teria tempo. Largou o desmantelo pecaminoso da preguiça, levantou-se, tomou banho de corpo e alma e, algo não fazia sentido. Todo aquele cenário entre Ele e a cama e a ressaca ainda pungente, tudo aquilo precisava de um fundo musical. Então Deus criou o som. Ao ritmo de Take Five, Deus ensaiou dois passos. Outros mais. Quase dançando, fez a barba. De cara limpa, vestiu seu jeans, uma camisa sem marca, calçou tênis surrado, abriu a porta do mundo e saiu. E Deus sentiu que havia feito coisa boa. O remédio começava a agir e era adrenalina e boa sensação de estar completo e radiante. Deus sentiu-se forte como um leão. E, alegre feito um marreco investigando os arredores do campo, caminhou pelas ruas em movimento. Gente que não acabava mais. E, subitamente, Deus achou que havia gente demais em tão pouco espaço. Aquelas pessoas não poderiam continuar ali na rua perdidas feito formigas atemporais à colheita. Então Deus criou a televisão. Em um passe de mágica, não havia mais gente na rua. Todo mundo sumiu como se fossem banidos por uma praga e estavam todos em suas casas teleguiados por imagens e surtos de alienação. Deus sorriu. Sentia-se um gênio. O da lâmpada. História que Ele mesmo havia criado para se distrair em um dia em que sentia tédio e, sem obstinação, criou a mentira e a conversa fiada. Deus é mesmo muito sábio. E caminhava mais entre as ruas que agora estavam desertas. Avistou uma pequena praça e havia um banco tostando ao sol. Deus fez um pequeno gesto com as mãos, e surgiu uma imensa árvore para Lhe dar sombra e proteção. Sentado no banco da praça, olhou ao redor e, novamente, à ameaça de estar entediado, sentiu falta de algo. Então, apocalipticamente, Deus criou o cigarro. Dois tragos e enchia Seus pulmões. E veio a poluição. Deus surpreende-se. Percebeu que caminhava solitária pelas ruas uma mulher. Sozinha, bonita e quase perfeita. Sua imagem e semelhança. A mulher se aproximou do Homem que fumava, compartilhou de Seu cigarro, passou a falar em parábolas e Deus indagava o motivo da mulher não ter sumido com a população. Erro de cálculo, pensou. Eu sempre esqueço algo. Deixei passar tanta coisa. Mas não me culpo. Nem todo mundo é perfeito. Eu também não sou. E conversaram durante tempos. Uma eternidade. Durante a conversa, Deus percebeu que havia uma brecha que precisava ser corrigida. O Homem resmungou consigo mesmo, não sabia o que fazer e, divinamente, Deus sentiu-se como sente aquele que cobiça prazer e diversão. E Deus criou o sexo e sentiu-se difusamente anestesiado em beijos de malícia que aprisionam os fracos. Logo se fundiam a imagem do Homem e da mulher em apenas um ser. Eram exatos. Totalitários. Iguais. Deus, não estando alegre com sua posição, criou a discussão. As diferenças. As semelhanças que divergem. E entupiram-se de vaidade, tanto Ele quanto a mulher. E já não eram mais iguais. A mulher questionava. Deus não concordava. E sorriu novamente, orgulhoso de seu labor. Ergueu-se. Seguiu em disparada de volta a sua casa e, no caminho, Deus observava o vazio. Sentindo-se solitário, Deus trouxe de volta a população. Agora havia gente. Deus riu-se de contente. Poderia descansar em paz sem que o atormentassem para trabalhar. De volta ao seu quarto, Deus sentiu sede que não era de água e criou diversos tipos de bebidas destiladas. Estava cansado de beber apenas vinho e repartir o mesmo pão. Tomou de um gole seguido de outro gole, dançou frenético, riu feito criança, soluçou bêbado e, alucinado, caiu na cama feito um trapo. E então Deus descansou. O mundo era mesmo um grande parto. Cansativo e desesperado. E, mudo, dormiu de bruços à espera da destruição.





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12 comentários:

Zélia disse...

Eu entendi! Sou literata nata! Entendo de literara e do trabalho do autor, criador e deus, também. O texto, traz a perfeição do seu traço. E assim se fez!

Do not fear while doing your job! ;)

Isabela Pimentel disse...

Tua arte me cativa!Parabens!

Sonhadora disse...

Meu Deus! ¬¬

rs

Letícia. Foi a coisa mais incrível sua que já li. E não me peça pra explicar o motivo. Sei lá.
Sabe aquela sensação permanente que nem em uma vida inteira de tentativas eu não conseguiria escrever uma dessas frases do texto.
E você escreveu todas, de uma vez só.
E essa sua visão de Deus é impecável pra mim.

rs

Bom domingo. Beijo.

Fausto d'muniZ disse...

uma do leminski pra tu, guria.
_______________________
a palmeira estremece
palmas pra ela
que ela merece
_______________________

-O-

Narradora disse...

Inteligente e divertido, divertido porque inteligente... Muito bom voltar na sua casa.
Beijo.

Mai disse...

Então eu li, sorri, aplaudi e imaginei Nietzsche, o inferno, a inquisição e o caos (não necessariamente nessa ordem).
Você está de alta.
bejos. Lov u

Lara Amaral disse...

Vi sua entrevista no Bloco de Notas do Marcelo e a achei muito interessante. Felizmente vim parar aqui, uma agradável surpresa. Gostei muito deste texto, acho que até agora do que li sobre a humanização de Deus, nada me pareceu mais real que neste seu conto. Moça, sua escrita já me cativou de primeira. Virei mais vezes.

Beijos.

Devir disse...

Eu muuuuuuuuito concordo que "take five" tem minha predileção TOTAL!

Parabéns com todas as letras, Letícia.

Juan Moravagine Carneiro disse...

Me desculpa pela minha ausência nos últimos tempos...

andei sem tempo para nada

abraço!

Vanessa Souza Moraes disse...

Um deus cansado.

É uma imagem bem coerente.

Felipe disse...

Sublime!!!!!!

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



Não sei se os takes foram cinco. Não me dispus a contá-los porque sei que essas contagens eliciam o "complexo de Deus". Entonces, please, liga aí o Take Six pra salvar a coisa toda, com um fundo Gospel em afinação black.







Um beijo.