05 setembro 2010

clavicórdio



Bisbilhoteiro de si mesmo chegou tarde e a casa estava ordenadamente vazia. Apenas a mobília existia e a força destes elementos superficiais é impactante. Decepciona-se. Olha vulgar ao redor e finge não ver seu rosto no espelho. O velho, o jovem, o arabesco. Chegara cansado de mais uma reunião entre amigos. Todos falam e ninguém motiva uma explicação para seu estado permanente de estar-se vivente, porém morto nas calças. Quase transparente planejando vitórias, o homem voltou para casa ainda a tempo de ler, para si mesmo, em bom português falante, uma página de seu diário. Ando ausente de mim mesmo. E a mobília parece me importunar em sua obsequiosa lucidez. Elementos superficiais me tangem de meu lugar. Porém, sempre retorno. Pensou em tocar alguns tons de Chopin. Tão clássico estou, eu diria. Tão piedosamente contido. Coexisto ou serei apenas coincidência de um humano defeituoso que ainda maquina outras tentações? Após ler seu diário, destinou-se a correspondência do dia. Frias contas e cobranças e um fiasco de vivência. Considerava-se tolo. Quem poderia me saber tanto a ponto de enviar-me uma correspondência? Não faço sentido algum. Tolo, pensou novamente. Sentou-se ao piano e praticou a solidão das horas, fugidias tartarugas sem destino, sem causa, sem manifesto que as faça caminhar. Para mim o mundo está dividido em horas, desperdícios e simbolismos. Atravesso tempos vagando de uma boca a outra boca e vejo o homem extinto. Que sou eu. Que ora sinto. Mergulho de meu andaime de ressentimentos. Considero espetacular minha inteligência, minha perspicácia, meu sóbrio andar tristonho que arma peças teatrais. Mas, no entanto, não há quem me ouça, quem me aborde nas ruas dizendo-se de mim. Não há quem me recorde. Desnecessário sentia-se o homem porque ela não o havia percebido. Por que mulheres vagam? Por que a mulher não quis de mim o espólio que trato? Por que se rebela a mulher a quem me devoto? Volto para casa imenso de amarguras infinitas. Vontades em tantos desejos que me corrompem e que ninguém me saiba nesse instante. Observo meu calibre rígido e enervado. Imagino cenas. Eu as crio de forma obscena e agora ela me quer. Rasteja sóbria a mulher de horas atrás. Aquela peste que olhava nos olhos e não envergava em mim o que sou. Fortaleza urgente de necessidades. Não sou óbvio, mulher. E, recolhido em meu quarto, desnudo do mundo, minhas mãos são todas as mulheres que desejo. Eu as enfraqueço. Eu as estraçalho e faço de todas elas um ejacular de fracassos e durmo como se estivesse em um altar de todas as santas. Mostro-me virtuoso, devorado de orgulho, equilibrado, manso. Quando, na verdade, atrapalho-me ambíguo. Sou de sexo. Doentio. De brutalidades me visto. Sou apenas um homem em viços de reprodutor.






Image by wezzelicum

5 comentários:

Zélia disse...

"Para mim o mundo está dividido em horas, desperdícios e simbolismos." (A Mulher de Muitos Livros)

Passei parte do dia filosofando hoje. Ao me deparar com a frase em destaque, amor a primeira vista e confirmação do latim usado na filosofia. O dia se divide em horas que, tantas vezes, gastamos desperdiçando energia em símbolos já sem funcionalidade. Pobre de nós!

Felipe disse...

Visceral, Lê!!!!
Amo tanto a forma como escreve, compulsivamente nos oferecendo pérolas!!!
Lindo, Lê!

Beijo.

Daniel Leite. disse...

Quando eu Crescer, quero escrever assim como você!!

Marcello disse...

Oi moça...

"minhas mãos são todas as mulheres que desejo."

Acho que fiquei olhando minhas mãos alguns minutos depois de ler essa frase.

Beijos

Marcelo Novaes disse...

Letícia,



Vejo-o tombando
sobre o teclado
do piano.







Um beijo.