24 setembro 2010

era dia




Observo ruas. Janela aberta ao mundo. Abro um maço de cigarros, olho a cidade de São Paulo e o mundaréu de gente é o mesmo do ano passado. A cidade não me comove mais. Posso compará-la a mulher que amei? Ainda amo. Não direi o nome. Não me atrevo a reproduzir aquilo nem sob efeito do mais forte conhaque. Cidades e mulheres não nos devem comover. Somos ou não amigos? Olha bem que tento esquecer aquela sacana covarde. Mas ando trêmulo. Fumo demais e ando bebendo e me entrevo nos botequins. Hoje, pela manhã, no grande esforço de tentar não pensar na coisa, troquei algumas palavras com uma senhora que dizia estar esperando o filho. E na porta de um bar. Acendi meu cigarro e ouvi a mulher falar. A velha de vestido azul e cara enrugada me parecia sofrida mesmo. Uma doente perdida. A cidade é cheia de demônios que escapam do inferno e vivem vagando. A velha me falou de seu finado, de seus filhos doentes e ainda disse que o marido era mulherengo. Senti dor pela mulher. Mas era uma dor prazerosa de vingança. Eu senti o poder de ser macho super dotado de todos os poderes. Porque, se Deus pode fazer chover, eu faço sofrer. A mulher me disse isso. Mulher tem que sofrer, pensei comigo mesmo. A velha foi embora com cara de quem havia chorado a vida inteira. Eu deixei o botequim a pouco e estou trancado em casa desde a hora que cheguei. Que horas eram mesmo? Meu sotaque paulistano babaca não me vale porra nenhuma. A cidade não vale. Ela não vale. Mas agora que o conhaque desce, eu a sinto. Coisa de espírito. Eu a vejo andando de um lado pra outro procurando cigarros, telefonando, me dando, me abraçando. Eu sofro. Quero encher a cara e sofrer. Que música devo ouvir? Djavan era coisa dela. Aquela louca atordoada. Ouço Chico Buarque e morro. Vou morrer mesmo. Se aquela vaca não sumir da minha cabeça eu morro de pensar. Eu posso sentir o perfume dela. Aquela coisa que o Chico canta de os seios ainda estarem nas mãos. É certo. Eu sinto. O formato dos seios em minhas mãos. Sinto as pernas me cercando, a voz daquela desgramada me persegue. Mal entro em casa e sinto. O perfume dela se agarrou a tudo que existe. A cidade tem o perfume dela. As praças, os detritos, o mormaço quando chove e a porra da poluição. Cretina que despencou na minha cara. Quantos anos? Me diga? Quantos anos? Eu comi dela. Vadiei dentro dela tudo o que eu queria. Não fiz cria, mas sujei a vadia de todas as formas que pude. Era meu terreno baldio de urinar e fazer merda. Mulher e merda. Ela me deturpou a alma. Lembro bem. Muitas noites ela chorava dizendo que sentia solidão e eu estava com ela, porra. O tempo todo. Como poderia se sentir sozinha? Eu catei aquela merda de mulher pra mim. Alimentei mesmo. Feito pássaro. Mas eu nunca engaiolei aquela puta. Lembro da última noite. Parece que sentia que era a última. Eu fiz de propósito. Abri as pernas dela e me afoguei de amar a mulher que me amava. Ela dizia que me amava. Suava as ancas e gemia dizendo meu nome. Sabe o que é sentir uma mulher falando teu nome no ouvido? Assim, de perto? De boca? Ela me embriagava, ela me enojava quando falava em amigos, ela me entupia de raiva quando vestia aquelas merdas de roupas e se pintava e dizia que a cidade era nossa e a gente tinha mais era que viver. E, na última noite, ficamos na cama por eras, e eu comi. Me fartei. Sei que pareço sujo ao falar dela. Mas que se suje o papel, a máquina, as paredes, a porra toda com o que digo. Eu sofro. E sofrer nesta merda de cidade que fede a gente triste é degradante. Ninguém é feliz aqui. Inferno é este, pastores faladores de Deus. Odeio toda gente. E eu amei a mulher na última noite. Entrava e permanecia dentro dela como se fosse minha morada. A mulher era minha casa. Ela era minha alma. E acham que homem é tudo ruim e eu nunca fui ruim pra ela. Eu era dela. Por quê? Me diga você. Por que ela? Tantas no mundo e por que logo aquela vaca? A desgraçada cantava pra mim. Com seu sotaque paulistano babaca, ela cantava Beatles. Cantava Elvis. Cantava suspirando no meu ouvido enquanto eu me enchia dela. Penetrava no mundo dela. Meu templo. Eu era aquela mulher. Chora. Chora. Chora alto o conhaque fazendo efeito, falando sozinho, olhando pro espelho da sala, a casa virada de bagunça e o terno amassado. Enterro você hoje, infeliz. Voou da janela depois que saí pro trabalho. Voou de desespero depois que não a ouvi. Voou feito peso morto depois que bati a porta. Dizia ser sozinha. Ela se jogou ao infinito desta cidade suja e agora eu enterro a mulher que amo. A cidade nada manifesta. É tudo a cena de ontem. Ninguém me vê sofrer. Ninguém sabe o que se passa dentro de mim. Eu não sabia dela. Ela voou da janela e se espalhou lá entre a gente. Era cedo. Nove da manhã. Era apenas o começo do expediente.





Image by hishy

9 comentários:

Camila Jornada "Análise do ser" disse...

estou seguindo,muito bom o blog...
abraços!!

Larissa Marques disse...

que bela descoberta...
seguindo!.
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me visite:
www.pactopagu.blogspot.com

Sonhadora disse...

Agora chove e eu sofro. Um sofrimento paulistano. Um sofrimento com as cores do bolor e nuances do concreto.


Excelente texto, gosto de imaginar homens sofrendo. Parece filme de ficção científica.

=)

Beijo Ão.

Felipe disse...

Minha nossa!!!!! Impecável, Lê!

Caramba!


Beijo.

Pedro Avillar disse...

Comigo, Djavan nem na maior deprê. Nem no banheiro. Mas Chico é necessário.
E lembrei de algo... ["até palavrão fica bonito na voz de quem ama"]
Eu te leio. Sem pressa e sintonizado. Às vezes nem sei o que comentar. Leio, sento e vou embora, egoísta, sem deixar um "alô" ou pelo menos um "algo". Noutras, poderia escrever dezenas de comentários. Mas comentar parece impreciso. Livro escrito, né moça? Você sabe que leio e não leio apenas uma vez. Espero ansioso por seus textos. E sabe mais? Você consegue fazer coisas. A mulher de sua narrativa é apaixonante. Vi o modelo ninfa que se faz de triste e tem poderes insondáveis.
Beijo você, Palmeira.

Tiago Hist disse...

T.

Devir disse...

agora eu pude perceber que essa porra maravilhosa de texto é tudo que esse leitor de merda precisava pra se sentir anestesiado nessa vida verde de limo grosso da calçada da minha casa. eu precisava de um personagem cuspindo pro alto e desviando a própria face do resultado certo, de algum porco maldito revoltado com a vida e cansado de sentir os olhos doendo de ler livros bons e ter noites perfeitas. o máximo de força na pancada que se dá contra o muro que cerca meu presente, arrancar a corrente de ouro de pescoço, lembrar de lamber corpo do passado que deita ao lado no futuro não imediato. precisava da Letícia acabando com meus trâmites de coisa romântica sempre igual. precisava da imundice.

Letícia Palmeira disse...

Devir,

Me deu até vontade de falar. Chega a ser engraçado esse treco de escrever em blog, deixar o espaço aberto para ser comentado e tal. Tem gente que não gosta disso não. Prefere o silêncio. Se eu quisesse silêncio moraria dentro de uma caixa de sapato e estaria resolvida. Mas não. Quero vozes. Todos que passam por aqui, que me escrevem por e-mail, que ficam calados (mas fazem parte também) tudo é alimento ao que é escrito. Prefiro isto que você fez. Que a palavra faça sentido. Que perturbe ou acalme.

Aos outros...Gláucia, Pedro, Fê... vcs são parte do afeto. Tadeu também é.

Tiago, vou ao teu blog. Recebi o convite e apareço por lá. Eu assumo riscos.

Beijo para todos.

Zélia disse...

Aqui eu posso dizer: "Ela MOR-RE-U" :(

Lembro de um dito popular que ouvi ontem...

"Tem dia que a noite é muito difícil"

Nem sempre a noite é Nix. Noite é, também, Hélio. Nascemos da escuridão para a luz. Na morte é assim também.

;)