30 setembro 2010

isolda deturpada





Quando o carteiro chegou...

Não. Esta porra de música aqui não.

Chuto em saltimbanco o aparelho de som. Quer ouvir esta porcaria vai ouvir na casa do raio que o pariu.

Ressaltada, Isolda fala atravessada. Será que a vida é só isso mesmo? Biscateiros, contas, responsabilidades e perdões?

Vamos a mim. Mulher. Caucasiana que é uma beleza. Já passei dos 40, casada, tenho amantes que me sugam, e dois filhos. Não moram mais comigo. Deus seja louvado. Dizem que mulher nasce para ser mãe. Quebro a lei. Nasci para ser. E, aos 40, eu já deveria saber qual o meu objetivo. Mas, inacreditavelmente, não sei o que vim fazer aqui. Planeta terra, esconderijo e inveja de minhas amigas mais jovens. Ficam falando nojentinhas de suas vidinhas e eu desejando que todas engulam suas línguas de víbora sem fome.

Nada acontece.

Abro a caixa de e-mail. Alguém me vende geladeira, outro diz que faz milagre em lipoaspiração, mais alguém fala de corrente de oração. Deleto tudo. Selecionar todos e fim. Desaparecem. No entanto, o mal já está plantado. Você que envia e-mail vendendo geladeira deveria saber que o mundo é mais que isso. Respiro fundo para não me espantar com minhas próprias palavras. Não desejo mal a ninguém.

Só agora percebo que não lavei direito a perna direita. Desde ontem há resíduos de geleia masculina em mim. O homem deixou sua marca registrada. Não cheira a nada. Mas está aqui a marca da polução. E daí? Deixo a marca. Parece cola. Parece indecente. Parece sujeira.

Vou fazer depilação.

Chego à clínica estética que nada tem de clínica. É uma casa com portas e janelas e muita mulher falando merda. Outro saltimbanco e já estou deitada na sala 2 com Dona Núbia Esteticista. Mulher de boca espremida e barriga grande. Ela pensa que me importo com seus problemas. Mas não me importo. Eu apenas finjo ouvir enquanto penso em outras coisas. Isolda pensa em tudo. Farei uma viagem dentro de alguns dias. A trabalho. Em vias de sacanagem. Em decreto de obrigatoriedade. Meu médico disse que preciso diminuir o ritmo, andar de bicicleta, comer frutas. Médicos são patéticos. Se diminuo o ritmo a casa cai. Se ando de bicicleta sou assaltada na esquina. E fruta nem se me jogarem em larva ardente. Não gosto. Mas médicos existem para criarem dentro de nós esses pequenos conflitos de pensar na saúde, longevidade, cuidados necessários para existir mais. Médico é obrigação.

Núbia arranca com força o segundo punhado de pêlos. Cera quente, Núbia? A mulher de boca espremida diz que sim. Sabe uma situação de desconforto? Esta. De pernas abertas para Núbia que arranca pêlos como se estivesse com raiva de alguém. Núbia, que você tem hoje? Por que perguntei? A mulher começa a falar e falar e falar. Mas é bom quando ela fala. Cada palavra embala meu pensamento pra fora desse círculo fechado que sou. Estou rindo por dentro. Ontem foi divino. Ele pensa que me controla. Aí vem falar de relação como se eu amasse. São trapaceados pela própria índole. Homens comem. Mulheres fazem acrobacias. Mas é bom. Deslizo aos pés do santo. Meu marido é santo até que provem o contrário. E, caso provem, a coisa ficará bem melhor. Imagina eu sofrendo de amor? Que novidade. Que calamidade pública. Que fora de série.

Núbia me arranca de meus pensamentos. Começa rir. Diz que andei aprontando. Digo que não. Mulher, esta marca não engana. É cola permanente. Não sai, Núbia. Olha que sai. Núbia esfrega óleo em minha perna. Que bonito. A marca sumiu. Era apenas sêmen ressecado. Um desperdício. E minhas costas ainda doem. Eu sofro sorrindo, Núbia. Aí a mulher diz que sabe como é. Mulheres se conhecem. Disso já não sei, Núbia. Mas deve haver algo mais que essa marcha na qual andamos. Carro, compras, merdas, putarias, compromissos, labaredas que não queimam e realidade. Deve haver algo.

Enquanto não encontro motivos para ser Isolda, Núbia arranca mais pêlos e eu não reclamo da dor. Nunca reclamo. Minha existência é minha própria queixa. Viver é repudiar tudo. Núbia não entenderia. Ninguém entenderia. E eu vou acabar comprando a porcaria da geladeira. Isso me faria continuar existindo. Isso seria digno. Rindo penso que sempre caio em tentações. Ainda encontro o motivo. Ainda encontro razão.







Image by Liam Munroe

4 comentários:

Zélia disse...

Cair "em tentação" de vez em quando é bom. De vez em sempre, talvez, seja melhor ainda.

Texto bem humorado apesar do mau humor de quem não sabe se é Isolda. "Quando o carteiro chegou", eu logo continuei: "com a carta na mão". Inevitável!

Voltando a Isolda, ela pode estar/ser "deturpada" por várias razões. Uma delas poderia ser por "não encontrar motivos para ser Isolda". Uma dúvida, talvez, a Isolda que morre por Tristão ou a que casa com ele? Uma Isolda qualquer ou uma Isolda que se molde aos parâmetros da sociedade? Sabe-se lá!

Gostei do "não lavar direito a perna direita" e de tantas outras coisas. kkkkkkkkkk

Felipe disse...

Maldita perfeição!!!!!

Bravo, Bravo e Bravo!


Beijo...Fê!

Fred Caju disse...

Gostei muito! Porque nem só de simpatia vivem as pessoas.

Sonhadora disse...

Isolda, Tristão...sempre gostei desses nomes, sempre atraíram-me e você escreveu uma Isolda deturpada.

Que demais!
:D