20 setembro 2010

ocidentais





A voz dele é rouca. Rouca como se fosse som de rasgando roupa. Rasgando mortalhas a voz do homem. A voz dela é louca. Semi-sonora, equalizada, aguda. Como se fosse tom de mulher. E os dois se encontram na hora errada, em lugar modesto e beijam todas as bocas que podem beijar. Não há erro. É exato. Tempo errado, mas os dois são igualitários a meio passo do inferno de queimar. E nada é de amar. É romper o hímen do sóbrio limite de tentar equilíbrio sendo contido. Encontro às 9 da noite. Encruzilhadas. E ela veste jeans e mais nada. Louca arrebatada por deus. Sem destino é o homem de voz rouca que espera. Um poste, luz amarelada, esconde timidez, esconde nada e seguem a pé ao lugar suposto. Beijo no rosto. Abre a porta pra ela o homem e ela despeja olhar sobre o homem e contorcem taças de vinho tinto e que suje o carpete que a vida é curta. Meio jazz, meio Rio, meio suborno e ela é entidade. Deusa em jeans e ele é rouco e, louco, ameaça falar. Conversam embutidos querendo outro caminho, um agrado, um sorriso e não era bem isso que eu queria dizer e não digo. Mais risos. Vida é paraíso e você é tudo de mulher. Ela se avacalha. Elogio de colher cheia faz milagre, baby. E nada mais se guarda. Mulher cofre arrombado de beijo molhado ou seco ou que venha só desejo pra extrair medo que a gente sente de ser visto rastejar por santo falso. Vinho no corpo e na garganta. Ele faz pergunta em voz rouca e a mulher é realidade e quanto fingimento ao dizer que arde desde o dia que te vi na rua, parecia nua, eu fiquei covarde, verde, árabe de ciúmes quando te vi com outro cara. Ainda arde. Não suporto a verdade. E rompe a noite o estalido da pele em contralto, o plácido, o límpido, o pecado, paraíso, Joana d'Arc, eu, você, rouca, louca, trem a vapor, cavalos alados, maestro e teatro e amo você até dizer que me basto. Os dois agora são dois sóis queimando trêmulos, adorados e avessos, devoram mais que se podem suportar.





Image by Ren

5 comentários:

Felipe disse...

Maestria, com maestria você diz tudo, Lê!!!!!

E eu fico aqui tomando doses e doses da sua obra!


Beijo!

Sonhadora disse...

aaaaa

dá esse texto pra mim?

:D

Que delícia de ler.

E eu 'queimo trêmula e amo até dizer que me basto'.

Coisa boa, viu?!

**

Zélia disse...

Por mais que façamos nossa filosofia sobre o Tempo, esquecemos que ele foge sem deixar rastro. Verdade? Depende do que quero. Depende do que vc quer. No amor, melhor que ela seja transparente e de sempre. Porque o Tempo até a verdade é capaz de transformar...

;)

Pedro Avillar disse...

A imagem me fez querer ler o que escreveu. O que escreveu me fez querer observar por longos minutos a imagem.
E, por aqui, o dia amanheceu cantando hey Jude! Bom dia Letícia.
E amém, santa palavra.

Fred Caju disse...

Com subversão ou com afeto. Não importa, é ótimo!