19 setembro 2010

prosa de falecimento





O vizinho extrapola quando testa o motor do carro. O menino fala que sabe. Mas saber da verdade é mais quinhentos. Melhor não saber. Porque a verdade é feia. Lembra as casinhas à beira da maré? As janelinhas enfeitadas de copinhos de plástico e, dentro dos copinhos, flor forte de cor? Lembro até o cheiro que tinha a flor. Mas não lembro de você. Estranho esse sabor de esquecer. Tanta sinfonia de escova de dente, de calçar sapatos e amarrar laços com pressa pra ver quem seria mais ágil. Água dividida em quatro mãos e um único espelho para ver os dentes brancos. De volta à cama, deitados os corpos, tantas bobagens só para dizer que não. Casamento é desunião. Esta foi a primeira lição. Desde o nascimento ao crescimento a este momento de falência. Quando ainda era primeiro beijo, mundo perfeito de mão em mão, era tudo perito em experimentos de vencer o outro. Mas parece que agora a lida dita a formosa realidade do tempo. Não basta extrair o veneno. É preciso sabê-lo. Sê-lo. Obtê-lo. Empregar regra antiga na modernidade. E, caso saia de casa, não volta tarde. Se for à lua, traz lembrança. Se ouvir música, diz que lembra. Que lembrou. Que pensou. Mas não desdenha que é prova de vontade oculta. Quando acaba é mesmo como o sino que silenciou. E a fome que era tão bruta falece de repente sem saber quem a matou.





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5 comentários:

Zélia disse...

Texto belo!

Toda morte provoca dor. Mas a vida sempre brota da morte. Pelo menos para aquele(s) que conseguem permitir que ela (re)nasça. Nascer nos traz dor também. No entanto, sem essa dor não estaríamos aqui. Poética é a dor da morte, é a dor da vida. Veja as Super Novas no céu. É da morte de uma estrela que toda a vida se fez e se faz.

Belo texto!

Sonhadora disse...

Verdade.
Não sei o que exatamente, mas é verdade.
Estou com vontade de concordar hoje =)
Vontade de ser cliché.
Vontade de ligar só pra ouvir a voz. Vontade de dormir à tarde.
Vontade de desistir do jogo na última cartada e o que isso tem a ver com o seu texto?

:D


"Mas saber da verdade é mais quinhentos. Melhor não saber. Porque a verdade é feia."

A verdade tem cheiro de vela derretida. Casamento tem cheiro de gente derrotada, só um vence. E quem vence cansa. Vencer cansa também, quem diria?

Eu imaginava um chão lustrado e sapatos ordenados dentro da sapateira, divididos por nuances e não lembro o gosto do desamor e nem o dia em que ele nasceu e matou a todos nós.

=)

Chega, né?

Beijo. Domingo não é domingo sem um texto seu.

Marcello disse...

Minha musa literária, acordar domingo sozinho, no silêncio e encontrar teu texto gritando é sempre arrebatador.

Saudades de te ler, de te ouvir.

Beijos

Pedro Avillar disse...

Esse texto me lembrou um de Clarice Lispector [Brincadeira minha. Eu li sua Filosofia de bolso. Bom trabalho, moça].
E eu estou de acordo. A verdade é feia. Só não sei se queremos, ou gostamos, de encará-la. E não sei também onde encontrá-la. E não sei também onde começar a procurar. E já não sei mais de nada, nem ao menos se quero saber.

Felipe disse...

Putz, perfeito!!!!!!

"...E a fome que era tão bruta falece de repente sem saber quem a matou."

Beijo!