12 setembro 2010

senhora viva




Quem é ela? O que faz? Ela é apenas uma senhora que vende flores na Rua da Areia. É apenas uma mulher que vende flores na rua. Mora em que lugar? Ela é uma senhora que vende algo. Ela é apenas uma velha. Aonde vai? Muitas questões acerca de um único objeto. A mulher que vagava pela Rua da Areia, de esquina a esquina, vendendo flores feitas de celofane de várias cores. Eram flores de amor, ela dizia. São flores para você, menina. Não vai querer comprar? E os passantes olhavam sem importância porque o que poderia haver de belo em uma flor de papel e uma velha perambulando pela Rua da Areia? Todos ocupados, mirabolando planos, e a senhora queria apenas estar, de um canto a outro, fazendo ziguezagues pela rua e vender uma flor ou outra. E caminhava imprecisa como se passeasse pelo tempo e sempre surpreendia os vendedores de lustres, os homens do cartório, os jornaleiros. Ela sempre os pedia para comprar suas flores. Sou eu que faço, moço. Pego papel, arame e faço as flores. É meu único sustento. Marido? Tenho não. Filho? Tenho não. E caminhava mais pelas calçadas e alcançava o Teatro Santa Rosa, sempre tão vazio e silencioso. Era o seu refúgio de hora de descanso. Largava seu cesto de flores perto de um banco e descansava suas pernas por alguns minutos. Era hora de pensar, de ver o passar das pessoas ocupadas cerzidas de preocupações e ninguém mais arrumava tempo para se distrair. A senhora sentada no banco olhava o mundo através de seus olhos velhos e esbranquiçados e havia beleza nas flores que fazia, mas ninguém as via e nem por isso perderia seus motivos de sorrir, pensava. Voltava ao trabalho ao sol da tarde queimando asfalto e era tanto ônibus que passava e gostava de ver as pessoas olhando pela janela. Olhava e sorria abobalhada a mulher porque era grande o tempo e tanto mundo em uma única rua que costumava frequentar desde que havia chegado à cidade. A senhora dizia para si mesma que, para se conhecer um lugar, não era preciso ir do poço ao céu inteiro. Basta uma rua e pessoas. Elas esboçam o que vem do resto da cidade. Não conhecia praia, nem grandes avenidas ou finas casas enfileiradas nas ruas de gente rica. Mas imaginava e já sabia como seria o mundo fora de seu cercado entre a antiga prefeitura, alguns bares, relojoeiros, um antigo cinema e o teatro. Ouvia gente sussurrando pelos cotovelos, sabia da vida de tantos só de acompanhar o modo de andar e ofertava flores. Vendia uma ou duas quando tinha sorte. Ela mesma fazia as flores. Chegava cedo, sentava no banco do Teatro Santa Rosa e enrolava arame em papel celofane de várias cores e vendia flores. Eram bonitas de aparência artificial. Eram pobres de aspecto vulgar. Eram sujas da imundície das mãos da velha que não tinha onde morar. Eram feias e ninguém as queria comprar. Mas ela continuava todo dia a frequentar a Rua da Areia. Sozinha a mulher, de vestido antigo, de cara velha e cabelo branco desgrenhado, ela estava sempre na rua andando de um canto a outro a tentar vender suas flores. E hoje a fatídica condição do destino batiza novamente a vida com sua enorme força e alguém procura pela senhora que vende flores e todos perguntam vocês viram a velha das flores e muitos traduzem em olhares a interrogação de se saber aonde anda a mulher que vende flores de papel e ninguém sabe. Ninguém a viu. Terá sido a morte que levou a mulher? Ou o tempo? Ou terá a mulher encontrado outra rua e não vende mais flores? Há múltiplas traduções para o fato. Mas é direito que todos saibam que até estátuas fazem falta no cenário quando nos surge o vazio. Só se começa quando se chega ao fim. Parece até que a gente só existe quando deixa de existir.





Image by K. Madran

6 comentários:

Marcello disse...

Meu Deus !!!

Que texto sensacional Letícia...

Realmente só percebemos a ausência de algo ou alguém quando é muito tarde.

"para se conhecer um lugar, não era preciso ir do poço ao céu inteiro. Basta uma rua e pessoas. Elas esboçam o que vem do resto da cidade"

Gostei dessa parte também...

Beijos moça.

Júlio César disse...

Obra prima. Um texto apenas não exprime tua obra, mas, este se faz isoladamente.
E você narra como quem esteve escondida no bueiro por semanas a observar e absorver a "Rua da Areia".

Andréa Mota disse...

quem sabe ela nem percebesse a existência dela mesmo... ou quem sabe só existia para nós até que as flores acabaram e seu espetáculo tornou-se vazio, por ela se achar vazia, velha, lembrança.

gostei do texto.. parabéns.

Renato Hemesath disse...

Oi Letícia, como vai?

Ah vim aqui super agradecer a tua visita ao 'Cine Freud' e também conhecer o teu espaço!

Que proposta interessantíssima do teu blog! convidativa já pelo nome. Este post trata de um assunto bastante intrigante: como dar significado para o vazio? o silêncio e o oculto trazem uma significação não aparente, e estão presentes nas relações humanas.

Enfim, estes são temas que também gosto de abordar a partir dos filmes.

Até breve, então.
Abraços

Era Eclipse (André Siqueira) disse...

Muito legal o seu blog e já estou te seguindo.

Quando tiver um tempo, venha conhecer um pouco do meu trabalho!

Confira duas entrevistas:
Jardim de Escuridão - Livro de Bianca Carvalho

Paramita - CD de Luiz Vicunha

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Zélia disse...

Sem puxar saco, é muito bom vir aqui. Ler algo significante e seguir. Na foto, a velhinha me faz lembrar de outras velhinhas que conheci. Velhinhas que não vendiam flores feitas de celofane mas que tinham suas flores para vender. Flores de beleza que muitos não viam. Parece mesmo que só existimos quando deixamos de existir...