14 outubro 2010

bolo de laranja ©



Receita fácil. Até criança faz. Três medidas de tudo. Três xícaras de açúcar, três xícaras de farinha de trigo, três ovos. E segue a doutrina que receita tem regras. Margarina fica a critério. Pode ser meio tablete, tablete inteiro ou uma colher de sopa bem cheia. Mas não entorna. Liga a batedeira. Bate tudo, quebra a cara, bate palmas e se irrita que a roupa manchou. E, ao invés de leite, adiciona uma xícara de suco de laranja. Da fruta mesmo. Nada artificial. Derrama o suco na massa que aguarda. Fermenta com uma pequena colher de chá. O que mais há de faltar? Paladar, companhia, missa ou romaria? Canta alto e espanta pensamento intrusivo de amor mal servido. A avenca carrancuda vibra quando o vento entra pela janela. Avenca fresca comprada na feira. Comprei também um patuá. Nunca se sabe. Liga de novo a batedeira, liga tecnologia, liga modernidade e ser feminista não é comprar carro, morar sozinha e fingir orgasmo. É sempre algo mais. Volta ao ritual. As pás remam na mistura amarelada que desconversa o dia dentro da tigela. A batedeira trabalha e o sol da tarde aquece a parede descascada. Canta antigo mantra que não sabe o que quer dizer. Primeiro amor foi. Segundo amor latrinou. E o terceiro serve de lição e o resto é bolo de laranja. Aquece o forno: 250°. Gira 360° em busca da forma já previamente untada. Derrama a massa na forma e come o que sobra da mistura. É de praxe. Limpa bem o balcão com detergente ou desinfetante porque ovos deixam cheiro forte. Abre o forno e o bolo logo ficará pronto. Não se sabe ainda se a laranja será delícia ou apenas réplica fajuta de um outro dia vivido há tempos. Ou será mais uma tentativa frustrada de mudar o sabor da língua? Mas o bolo corre assando, o sol vai queimando a parede e a avenca recebe vento de mão cheia. Assim é a vida. Receita decorada que foge da rima. Nunca se sabe se ela atinge o clímax ou fica no meio do caminho pedindo resquício pra sobreviver. Feito receita de bolo. Vida tem regra, liturgia, miséria e, Santo Deus, ela pode desandar, empacar, sumir. Mas é preciso paciência. Vida é poema? Talvez seja apenas esquema. Conta numérica de xícaras, colheres e clichê anarquista de pensar que nosso mundo nunca irá mudar. Vida esquece roteiro. Vida é continuar.




Depois do plágio
Do acaso
Volto a escrever.




Agradecimentos especiais:


E todos mais...




Image by ian hambrick

8 comentários:

Sonhadora disse...

Destesto receita. Mas, receita com Letícia Palmeira é diferente.

:D

Me enxerguei toda ontem batendo um bolo aqui. Só que eu não tenho batedeira...quem tem é o coração depois de bater a massa na mão.
rsrs

Escreva quando quiser, comadre querida. Estarei aqui pra ler.

o/

beijo.

Mai disse...

Bolo de laranja é bom, e batedeira quebra o maior galho. Mas esse texto sacudiu e espalhou massa.
Massa!
Você e sua metralhadora...
muiiito, muuuiiiito bom!

P.S.
Mas é avenca? Eu pensava que era arruda.

beijo, Let, adorei!

Zélia disse...

kkkkkkkkkk

Adorei a foto! Quero uma batedeira dessa!!!

Hoje vc sabe como eu estou... Se fosse para fazer um bolo, não daria certo. É preciso estar "de bem com a vida" para que o bolo cresça, fique fofo e gostoso. Meu bolo sairia feito um vulcão, hoje. E devo repeir que a sua receita não daria certo. kkkkkkkkk As medidas que vc usou não combinam. O bolo sairia parecendo pedra. Mas tudo bem. Esse bolo é diferente. Há licença poética culinária também. Além disso, esse tipo de receita é para bolo de vida. Alimento que sacia a alma. E, aquele que não escolher bem o alimento de sua alma, de fome sofrerá.

Um chá para acompanhar! ;)

Pedro Avillar disse...

Belo texto, muito bem construído, segue como um riacho de águas rápidas e transparentes. Bom de ler, bom para se ouvir lendo. Bom de tudo. Quando lembro de você, Letícia, penso em coragem e um milhão de palavras com sentido forte. E eu venho em carne e osso, na minha personalidade mais rasteira, dizer o básico e o simples sem a menor alegoria: Plagiaram seus textos, moça, mas você ninguém copia. Você é única.
Beijooks.

Letícia Palmeira disse...

Zeliawski,

Este bolo é fictício. Mas já fiz bolo (na vida real) com essas medidas e deu certo. Era bolo de café. Não sei se muda alguma coisa quando muda o sabor. Vai saber. =)

Felipe disse...

"Bolo de Laranja"!!!!
Genial, como toda a sua obra!
Há algo mais decente do que contemplar a genialidade de um artista, beber doses e doses, dançar com ela e evoluir?
Esperei por esse post feito cão, por que gosto de ser assombrado por sua escrita, vou valseando com ela! Isso é Letícia Palmeira, genial, visceral, etc e tal!!!!

Bravoooooo e um brinde a compulsividade!!!

Deus está em casa!

Beijo, Lê!

Pedro Avillar disse...

Lê, preciso te dizer. Hoje estive na Travessa e perguntei:tem livro da Letícia Palmeira? O vendedor ficou louco procurando teu nome no cadastro. Um dia compro livro seu na travessa. Cê vai ver.
Beijão.

Mirze Souza disse...

Letícia!

Não sabia de tantos dotes para uma poetisa já tão completa!

Adorei o patuá e a avenca. Deram um sabor especial à preparação do bolo de laranja!

MUITO BOM!

Beijos

Mirze