09 outubro 2010

burrocrática





Marina não ligou. Aposto que ela vai ligar quando eu não quiser falar. Sou vidente. Vejo o futuro na palma das mãos. Arcanos, arcanjos e o café desce quente abrindo minha voz. Calor absurdo. Mulheres falam feito marrecos. Eu estou quieta esperando que ela termine de fazer minhas unhas. Que esmalte? Qualquer um. Que seja claro. Ando cansada de escuridão. Chamei a Laura pra arrumar meu cabelo. Laura chega. Laura ri. Dispenso trocadilho de dizer que bom te ver, Laura. Não é bom. É comum. Assim como muitas outras coisas. Pipoqueiros e carros de som. Cansei de fazer espetáculo pra pouco brilho. Agora sou espalhafatosamente quieta. Nem um suspiro porque agora estou sob controle. Eu sempre soube que terminaria assim: irremediavelmente controlada. Enquanto se espalha pelo ar o cheiro sintético do esmalte, observo um quadro bem a minha frente. A moldura não combina com a imagem. Mas é bonito. Uma casa, uma igreja, e, refletida em uma poça d’água, a imagem da casa. Quase igual. Detalhe por detalhe. Alguém serve chá. Pra lá com este chá. Cansei de chá desde que passei a procurar cura para o incurável. Dizem que ando me contando demais. Dizem assim: "Você se expõe muito. Todo mundo te conhece. Tua vida não é segredo". É aí que se enganam. Minha vida é como a poça d’água no quadro. Quase reflete a verdade. Mas é só pintura.


Meu olho cartesiano ainda funciona e contabilizo meus gestos. Agora sou burocrata contando cada passo (até os falsos). Penso no homem que amo. Olho o quadro, Laura fala e eu penso no homem que amo. Não tenho vergonha alguma em dizer que amo. Ontem mesmo, na varanda, tomei sermão de um amigo. Ele parecia minha mãe berrando às três da manhã quando eu voltava estridente das noitadas. "Muda, menina. Olho pros lados. Faça isso e mais isso. Organiza-te". E falou assim: "Arruma outro macho". Quê? Outro macho? O que sou? Leoa? Animal de zoológico a tempo de acasalar? Louca? Eu ouço meus amigos por educação. Não discuto nada. Concordo à cappuccino. E não fora este o trato feminista? Dar as caras, enfrentar, ser mulher? Estou sendo mulher. Pago minhas contas, me divorcio, amo outro que ama outra que o ama e devem estar felizes. Um pouco de sangue escapa de um de meus dedos. Desculpa se te machuquei. Tudo bem. Acredite, já fizeram bem pior. Minha infância foi assim: "Por que ele é violento? Por que grita? Por que existe?". Já sofri. Sou free. Canto música dos anos 80. E o homem não me fez sofrer. Eu me fiz sofrer. Não caio no desfiladeiro de me postar de vítima. Não sou vítima e também não culpo a tábua das marés. Laura talvez tenha suas culpas e a surdina também. Tudo que acontece sem avisar. Se ele tivesse me dito: "Estou indo. Amo outra. Vive tua vida". Mas ele disse. Eu que não vivi. Não quis. Não era tempo. Se viver signifique sair dando a três por quatro como se isso me fizesse sentir Malu mulher, prefiro ser fraude. Freira. Meu homem será Jesus Todo Piedoso. Salve Castidade. E farei visitas a um grupo de apoio. Preciso ver como vivem as pessoas. Preciso olhar mais o céu, contemplar o tempo. Não é isso que dizem os amigos quando você está por baixo da malha? E ainda te mandam ficar feliz. Escreva feliz. Quer felicidade? Erotismo? Tenta Ziraldo, Garfield, Bozo ou Danielle Steel. Estou me rindo. Decido aceitar o chá. Teimaram tanto em me oferecer que aceito. Aceito até conversa do diabo. Mas alguém me faça o favor de tirar este maldito quadro daqui. Ele me denuncia. Ele me flagra. Ele não me ama. Vou chegar em casa e despejar libido no banheiro. Bidê ainda vale. Masturbação é coisa de criança, dizem. Não é não. É ver-se entalado na solidão. Há quem escolha o que já fora dito: "Seja banco de praça mal frequentada". Não quero isso pra mim. Entro em casa, me dispo, me sirvo do Chuveiro Homem que não me ama mais e gozo trêmula de insatisfação. Quase choro, mas me controlo bruscamente. Vivo me interrompendo. O telefone toca. Marina, hoje quero ficar só. Desculpa. A vida pode esperar, Marina. Tenha calma. Amanhã te jogo tarô. Marina mal sabe que cartas lidas nem sempre nos fazem obedecer. Mal sabe a Marina que vida é estilingue e nem sempre cumpre o trato. Marina não sabe nada. Marina, pelo amor de Deus, vá dormir. Sei que ela não irá dormir. Vai chorar, penar, vadiar, mas não vai dormir. Eu durmo. Mas, antes de cair em pleno sono, penso muito. E vou pensando até ficar dormente. Até começar a esquecer. Até não sentir mais calor. Até acordar na outra manhã.




4 comentários:

Zélia disse...

Terrível quando alguém te liga e vc não quer falar. Oh céus!, Oh dia!, Oh azar!"

A menina sem nome diz que não foi o "bicho homem" a lhe fazer sofrer. E sim, ela mesma. Acredito que é por aí. Claro que pode existir o "de fora" a nos machucar, nos fazer sofrer. Mas isso tem efeito antibiótico. Passa depois de algum tempo. O problema é que nós ficamos prolongando esse efeito pensando apenas no problema. Sequer lembramos que o antibiótico foi feito para nos livrar de certos males.

Eu gostei do texto do jeito que ele saiu. ;)

Pedro Avillar disse...

Acho que esse foi o seu texto que mais li. Não sei se gostei mais da estrutura, da história em si ou do tudo com a imagem. Um quadro assim incomoda. O que era pra ser no mínimo romance romântico você transforma em amor-morte surreal. Mas ninguém ousaria dizer que não ficou no mínimo lindo, apesar de triste. E, pra mim, teve até trilha sonora [disfarce]. Cheguei a escutar a melodia melancólica da Adriana. E acho mesmo que foi o fato da história já vir com música incorporada que me tocou tanto. Depois escreve sobre a Marina.


E eu ainda aprendo com vc.

Fred Caju disse...

Vir aqui é gostar ainda mais daqui.

Paulinha disse...

Texto maravilhoso.
Muito sensível e sofisticado.
Só não sei o que é mais confuso: pensar no homem que ama, ou não um amor para pensar...