30 outubro 2010

diacáustico



"Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar."

(Adélia Prado)


Vi em teu dorso o corpo de deus. Sob os céus recortados em nuvens vi teu prumo tomar palmos de terras em tua ária de cânticos. Teu quintal de brincares de ares de outros tempos. Vi o hemisférico erotismo de teus pensamentos tombados em mim e tuas plantas de arrancar leveza das coisas que não são brandas vindas de tua boca que canta sacrifícios. Vi, à pálida veracidade dos lábios do criador, a bestial cegueira dos errantes guerreiros que te erguem os ombros. Vi a mentira formulando açoites de derrota e tua vitória é sempre olhar para trás. Vi, com tantos olhos de olhar tua miragem, teus punhos em combate de matar-me sufocada de amor dormido, amor romântico, amor tecido. E, de teus altares, corajosos santos adestram rios ao resistir de um sol poente que nos guia sempre enquanto, em vãos, homens comemoram misérias. Deus fez da terra o baldio elementar de tua indecência. Teu sorriso é pura crueldade sádica dos leões que enfrento. Ouço de tua boca o que apenas o deus saberia dizer. E de minha boca terás o acorde de meu canto feminino que somente eu aprendi a reger. Ora a língua entorna o caldo entorpecente de um feitiço que somente loucos concebem. Esta aventurosa sede romântica repele ignorâncias. Em teu inferno adorno as mãos do demônio que admiro. Nasce então minha criatura no sangue que corre em tuas veias e a ti ofereço a mesma praga. Subvertida a maldição é contraída, doença repentina, e que te sirva de alimento meu corpo de entregar-me ateu.






Image by Rovi

10 comentários:

Devir disse...

foi bom pra mim, lembrei da vez que passei têmpera no olho aberto pra tentar ver colorido.

Fred Caju disse...

Quantas imagens. Quantas belas imagens!

Mai disse...

Poucas vezes li algo tão mordaz e belo. É um assombro a intensidade deste texto, Letícia.
Parece um credo, de quem - por fim - descobre de um suposto deus sua face humana, demasiadamente humana, e como pano de fundo ouve-se o pavoroso esgar de um louco.
Um texto marcante que eu sei repercutirá em mim por algum tempo.
Muito fortes, todas as imagens que este texto imprimiu.

beijos, fica bem!

Tiago Hist disse...

Tive que ler. Esse seu texto me deu a impressão de que você está com o megafone citando-o...

Gostei principalmente da frase: "Ouço de tua boca o que apenas o deus saberia dizer..."

É de uma poeticidade incisiva e sensual... parabéns!
Abraço!

Você é a voz de Deus, Lê.

Eder Asa disse...

Seu talento só pode ser uma contemplação de um deus que nem acredito, Letícia.
Fantástico... E... Não se tem muito a dizer do fabuloso.

Zélia disse...

Já disse:

Dia caústico. Eu vi e as letras confirmam. Mundo revirado, me sobra (e que sobra!!!) "amor tecido" e eu faço a vestimenta.

;)

Juan Moravagine Carneiro disse...

Muito bom!

Pedro Avillar disse...

Deixe-me ver: minha respiração normalizou? Tudo bem, tudo bem... Agora sim. Gostei do texto e da espontaneidade dele. Bonito, rascante [ou seja, Letícia]. Só loucos concebem.

Felipe disse...

Perfeito! Como de costume!
Admiração infinita! Lindo!

Beijo.

Talita Prates disse...

E eu me perco e me acho e me reencontro na tua escrita.

Desculpe a expressão, mas "fodástico"...

Um beijo,

Talita
História da minha alma