26 outubro 2010

histórias para colorir




"Não gosto dos homens.
Gosto do que os devora."

(André Gide)



Damião, homem caprichoso, não perde um segundo sequer de seu tempo. Dizem até que conta vantagens às ferrovias alardeando que faz questão de manter sua vida em total zelo perfeccionista. Acorda cedo, trabalha, vai ao supermercado, enche a geladeira pra família e, quando chega a noite, Damião, que não perde tempo na vida, se entrega aos televisivos prazeres nocivos à imaginação.

Filomena vai ao centro. Havia marcado encontro com uma antiga amiga dos tempos de colégio. Pensava exuberante o quanto seria bom rever sua amiga Regina que era tão bonita, buzinava alegrias, falava tanto de suas conquistas e cansava os ouvidos de Filomena que, repentinamente, sentiu um frio na espinha, deu meia volta e desistiu de encontrar Regina. A vida muda de forma gratuita.

A mulher uiva e o homem sorri frente ao espelho. O casal faz amor desde cedo. Tanto grito, tanto jeito, tanto amor escorrendo por tanto tempo. Prazerosos se beijam. Famintos se alimentam e, humanamente, se enganam ao mentir um pro outro. Porque, de outra forma, prazer não haveria. Verdades interrompem coitos, há quem diga.

Está quase amanhecendo e a mulher não dorme. Agoniada com tanto canto de passarinho à janela, a mulher levanta, toma um banho, enche de alfazema o pescoço, maquiagem no rosto e chora pensando que a vida continua repetida. Deus faz milagre, pensa a mulher. Mas a longo prazo. E ela adormece profundo e perde a hora de ir ao trabalho.

E todo aquele que acredita que literatura faz a gente enxergar a lua, esqueça. Bota a viola no saco, desarma a tenda e abandona o circo. Literatura é chave secreta e não abre qualquer porta. Nem a todos ela sustenta. Ela sofre de cisma. Vai e volta, bloqueia estrada, seqüestra palavra e não se serve de graça. Literatura é uma engenhoca ingrata e não acolhe qualquer crença.

E lá embaixo a multidão se agitava, cantando em coro e fazendo algazarra, esperando que o homem pulasse logo do prédio e acabasse com aquele mistério de tragédia não ocorrida. Mas o homem que não era doido nem nada apenas limpava vidraças obedecendo ordens de um patrão. É que o povo espera demais. Inventa desculpa, vive outras vidas e não olha sua barriga cheia de amargura e vazia de compaixão. Nada no mundo há de se espantar sem razão.




Image by isasi

7 comentários:

Mai disse...

Eu não saberia colorir este texto. Mas lavador de vidraças (sem equipamento de segurança) pode cair, vermelhando tudo e pretejando a vida. E a crueldade, esteja onde estiver, tem tintas fortes, porque há palavras que ferem como navalha na carne.
Uma ironia, que não é qualquer um que escreve.

Sonhadora disse...

1º Lindo o novo template *-*

O texto é real em cada parágrafo. Um giro 180° por nossas próprias vidas. Vidraças sujas que amarelam a roupa no varal da vizinha. Verdade que interrompe o coito. Tudo isso é tão verdade...

Tudo isso interrompe o coito da vida e, de tanto interromper-se, nem se interessa mais.

=)

Paulinha disse...

Seus textos são simplesmente maravilhosos!!
É sempre muito bom passar por aqui.

Zélia disse...

Cenas e mais cenas. A vida acontece quer prestemos atenção a ela ou não. E o problema, talvez, se resuma mesmo em:

"É que o povo espera demais."

Acho que não mais espero tanto...

Outro que muito gostei MESMO! :P

Usui de Itamaracá disse...

É como aquela música do Lennon: "Life is what happens to you while you're busy manking other plans"

Seu texto acaba de mudar minha vida, era tudo o que eu precisava ouvir agora, além de estar muuuito bem escrito,claro ;)

bjão!

Deia disse...

Sentada dentro de um ônibus - é assim que me vejo ao perceber tantas cenas - um ir e vir de vidas, entrecortadas. Excelente, como seu habitual. Beijos, Deia

Marcello disse...

Verdades interrompem coitos, há quem diga.
Uau.. que texto querida. Forte e verdadeiro.
Adoro tuas mãos.