18 outubro 2010

indecorosa





Solitárias caminham dilatadas em minha língua diversas palavras que nada dizem quando encerradas no silêncio entre a timidez e um copo beirando a água. Hermética à fonte do desassossego, confusa de pai e mãe, segue muda entre imagens e sons que povoam minha imaginação porque mal existo quando finjo ou quando despem opiniões acerca de mim, que será um dia algo, que será memória de alguém. Ela diz, ornamenta, ostenta e, entre os muitos que somos, existe ela que é a mais louca de todas as outras palavras que já ouvi. Diz que ora sim, ora não, faz sentido, sequer existe. Corajosa, ruminando o que digo, ela vai de ouvido em ouvido espalhando o dito e, me fazendo presa, esqueço que liberdade é parte e todo o resto é prisão. Se falar, despeja sobre mim seu ato que sou palco e me alucino ao ouvir palavras. Não demora, não afoga a rima em covardia nem me deixe ao desesperado vazio de uma lembrança tardia. Pois que me aborto das obrigações desse mundo e, tonta, viciada no ópio das horas, espero a palavra dizer de mim. Canta sua palavra e não se refugia em decente oratória. Palavra não cora e, mítica, nasce da vertigem entre o início e o fim de toda e qualquer história.






Image by JahazielMinor

3 comentários:

Thomaz Ribeiro disse...

O seu blogue além de muito bem escrito, é - visualmente falando - uma delícia. As imagens que você escolhe tem plena conjugação com o texto que o segue - os dois se completam e dão mais clima de sonho ao texto.
Abraços.

Zélia disse...

Tudo está centrado na palavra. Ela nos acompanha em cada jornada. Nem sempre ela é bem colocada ou reforça nossos atos e ações. Dia desses, li Dostoievski falando sobre o momento certo para cada palavra. Talvez, se fôssemos mais honestos com os outros, como ele sujere, e principalmente, com cada um de nós mesmos, as coisas poderianser mais fáceis...


"Uma grande parte da infelicidade no mundo tem sido causada por confusão e fracasso de se dizer a palavra certa no momento certo. Uma palavra que não é proferida no momento certo é prejudicial, e tem sido sempre assim. Porque é que uma classe da população deveria ter medo de ser honesta com outra? De que é que têm medo?"

Fiodor Dostoievski, in: Escritos Ocasionais.

Júlio César disse...

Letícia,

estive muito tempo longe de suas palavras, encontro-me em estado de abstinência da sua escrita. Como é bom voltar aqui!
Atualizando-me, vi sobre o plágio. O meu repúdio é certo. Mas, esteja certa de que nada é sequer parecido contigo, querida escritora. Os sentimentos que você e sua escrita me produzem são inéditos e indescritíveis. Você é a maravilha em forma humana, em forma escrita e em todas as formas.
Vejo-me a cada dia mais apaixonado...

Beijos, Letícia. Escreva sempre e eu serei feliz.