24 outubro 2010

invisíveis inimagináveis




Depois de uma partida regada à regra de beber com amigos que não são, parti para casa a fim de me deleitar um pouco ao obséquio da tv. Entregar-me ao ócio, estar mais consciente de minha estupidez, ser mulher cheia de vontades e sorrateiramente feliz.

Mas o destino faz atroz seu recital.

Decido escrever uma carta. Papel azul. Caneta preta e mãos às confissões. Vou falar de toda a sacanagem existente entre minhas ideias e o resto do mundo.

Olá, Amigo Querido. 

Que tal? Clichê? Já me disseram que clichê sou eu. Desisto, então, de usar o jargão Amigo Querido. Entro de sola na carta. Te amo. Alguém começa carta desta forma tão disfórmica? Eu nunca vi. Das cartas que recebi nunca flagrei tamanha vertigem verborrágica. Guardo meus sentimentos para o fim. No entanto, não te amo, entende? Não te amo daquele amor coerente de copa e cozinha. Te amo mambembe. E você é meu amigo. Nosso amor é diferente. Fraternal. Coisa de irmão.

Esqueço o eu te amo. Já basta de mentira no mundo. Recorro à simplicidade.

Querido Fante,

Como anda sua vida? A minha já não anda. Estancou na quinta avenida e, vez por outra, faço sexo feito uma vaca sendo currada por leões.

Pausa.

Como posso começar assim, falando em sexo e me expondo? Sei que o Fante é meu amigo, músico, talentosíssimo, inteligentíssimo, tudíssimo. Mas dizer que sou vaca é forçar a marginal. Mudo tudo.

Querido Fante,

Como está o clima? Sol, semi-árido ou ainda há receio de temporal? Aqui em minha terra não chove como lá. As aves...

Quê? Não leio Gonçalves Dias. Não tanto quanto gostaria. Não posso usar frase que não me define. Isto é camuflagem. Vou ser direta. Engato sinfonia para escrever e lasco xícara de café pelando. Acordo e escrevo.

Fante,

Já reparou como estamos distantes? Você aí, eu aqui e um boi atravessando a estrada? Não gosto de distância, Fante. Por isso telefono. Semana passada, depois de ouvir conversa fiada que não mata fome (Deus que me proteja dessas gentes infelizes que falam com medo de serem capturadas em plena vernácula ejaculativa).

Vernácula ejaculativa.

Definitivamente é um bom título para um conto erótico. Imagino a cena. Mulher, meias de seda, homem ereto, discrepâncias e desejos e os dois rolam na relva amando ardente o que Deus uniu e o homem não separa.

Estou pior do que eu pensava, Fante. Agora faço uso de oratória religiosa. Acode meu coração vagabundo.

Outra tentativa.

Tomo um baita gole de licor. Café e licor e o vapor de um cigarro. Estou simetricamente despida. Gosto de escrever nua. Ao pé da letra da vagina.

Novamente.

Fante,

Tem reparado que todo mundo anda se descambando? Não sei explicar, mas me parece que todo mundo anda fugindo. É uma covardia demente. Ninguém aparece mais. Ninguém sabota meus planos, ninguém toca minhas mãos e o pior é ver pessoas fingindo que futilidade é festa. Sabonetes fogem. E também os peixes já reconhecem os anzóis. Ninguém mais cai na armadilha, Fante. Que acha de fazermos um pacto de não descambarmos também? Eu prometo solenemente permanecer louca até que Deus me ouça.

Tô bem de rima, Fante?

Que ridícula essa tua amiga, hein? Mas me diga... Como vai a Maria? Ou era Cecília? Ou Magnólia? Qual era mesmo o nome da criatura feminina que você dizia, vez por outra, digerir para fugir da solidão? Minha memória é curta, Fante. E minhas pernas também. Claro que pensei em visitá-lo. Centenas de vezes. Mas, sempre que penso em ir, me vem a velha ideia na cabeça: Por que ver se posso sentir? Ver pode cegar, Fante. Encontros podem ser maléficos. Ainda não somos tão humanos a ponto de olhos nos olhos e sorrir. Ainda não somos. Mas eu estou aqui torcendo por você. Espero que você não caia no abismo da mesmice e não fique quadrado como as pessoas que nós costumávamos odiar. Lembra do nosso ódio? Você quase gritava comigo quando eu dizia amar é. Você nunca suportou a sensação de fila única. Eu também não. Por isso gosto de confusão. E por isso escrevo carta pra você. Porque é seguro. Não quero para mim o limite das coisas que findam. Quero que seja breve. Porém, quero tudo sem fim.

Assino a carta decidida. Com amor e carência literária, Eu. Pronome que pode dar margem a diversos questionamentos. Ponto final.

Carta escrita. Envelope, correios e que merda de endereço devo usar?

Dias depois recebo notícias do Fante. Ele também acredita que não sejamos humanos o suficiente. Ele sonha. Ele vive com pressa. Ele desperta em mim o que tenho de mais diversa. Meu lado caleidoscópio, que chora e toma porre de ansiedade à espera de uma carta. Meu amigo Fante é meu despertador de imaginar que todo dia segue rente quando, na verdade, assim como as pessoas, o mundo também descambou. De que lado estamos, Fante? Ele diz de supetão:

Não há lado, minha amiga.

Apenas interseção.





Image by Aramelh

11 comentários:

Mai disse...

Brilhante!
Entre ameaças e tentativas, jamais se deve duvidar do amor ou da loucura.
Gostei um tantão desse texto.

bjo

Mai disse...

Ah!
E do acervo do Afeto, essa imagem é p'ra lá de genial.

Tiago Hist disse...

Estive lendo. Mas escrever não é minha praia. E prefiro não manchar suas palavras com coisas vãs, tolas, e sem sentido. Só digo uma coisa: Se esta carta fosse minha...

Fred Caju disse...

Conseguiu dizer o indizível com a frase-desfecho. Ótimo!

Maria Rita disse...

"Eu prometo solenemente permanecer louca até que Deus me ouça."

Adorei do começo ao fim, não só o texto como todo o Blog. Parabéns escreve muito bem!

Beijos pra Ti

Felipe disse...

Devo me apoderar do Brilhante, usado pela Mai! Lindo e sublime!!!
Minha paixão por tudo que vem de você é irremediável, é impossivel não se render à uma obra tão profunda! A cada novo texto velejo entre aguas sagradas, me alimento e saio com uma vontade enorme de mergulhar novamente! Genialidade é mesmo algo muito bom de se beber!
Jewel and Pearl!

Louvada seja a tua escrita, e assim me encontro com Deus!

Beijo...Fê

P.s.: a ilustração tb é de uma beleza só!

Marcello disse...

Oi.
A loucura tem sua beleza não ?
Beijos

Pedro Avillar disse...

Lê, queria poder te ver escrevendo. Imagino que seja algo místico ou divino.

Melhor eu parar de falar baboseira.
Beijos, menina.

Zélia disse...

Te amo.

E ponto final. Qualquer coisa que eu te diga depois disso não terá tanta importancia quanto a declaração de meu sentimento por ti. Por quem vc é, Letícia, e por aquilo que tu escreves. ;)

Talvez, eu possa ainda dizer que eu adoro escrever cartas. Há tempos não as escrevo. Sabe, pegar bloquinho de papel com desenho bonito, escrever umas linhas, simples que sejam, colocar no envelope com selinho e enviar pelo correio? Depois, morrer esperando a carta chegar e renascer quando ela, finalmente, chegar.

Acho que vou voltar a escrevê-las...

Zélia disse...

E eu não sei de letrinhas no meu blog :O

Letícia Palmeira disse...

Também vou escrever cartas, Zeliawski. Muitas cartas de todos os formatos e tamanhos.

Luv u 2.