20 outubro 2010

joão não plantou o pé de feijão




O homem que eu amava agora diz não mais me amar. Ponto final. Agora é deixar ir. Embora eu sinta a velha e básica angustiazinha saltitante, tomo banho e vou trabalhar. Vida é vagão que não pára. E pára não tem mais acento.

Definindo-me, sou do tipo de pessoa que adora errar. Erro em tudo. E faço questão. Por isso dizem que sou difícil. Mas não é só isso. É que eu adoro pedir perdão. E perdão é uma palavra boa na boca. Escorre católica em todos os sentidos.

Mas vamos ao começo.

Conheci o cara. Imaturo que ninguém queria segurar a mão. Eu segurei. Firmei o pé e fiquei. Aguentei embuste de família idealizada padronizada e perfeita. Viagens costumeiras, porcarias que pouco faziam diferença para mim, e fiquei com o cara. Até o tempo em que ele foi ao exterior dar uma de homem. Era meu o cara. Eu amava muito. De querer mais. Ou não amava.

Outra coisa boa é dizer que ama.

Parece que a gente se sente mais forte, mais competente e tenho fama de sacana e digo que amo na boa.

Lembro que, na ocasião da viagem, emagreci de saudade e, quando ele voltou, engravidei. Culpa minha. Camisinha existe, burra, idiota, imbecil. E lá estava eu: aos 25, grávida, meio Christiane F. com ingresso comprado pro show do David Bowie. Mas fazer o quê? Aborto é crime. Era esta a ladainha.

Foi então que pensei em morrer. Mas desisti da morte quando pensei no enterro. Odeio gente chorando mentiras e claro que alguém diria que sempre fui perfeita. Morreu uma boa criatura. Eu não aguentaria isso. Elogio faz mal. E gente morta não pode se defender.

Meu pai bêbado não me apoiou. Me tocou pra fora de casa. Antiquado, não? Saí de mala e cuia para casa dos pais do cara que eu amava. Grávida e nervosa, fumava e comia demais. Pressão alta e dieta. E mudei de quarto, mudei a cara, meu corpo mudou. Hoje tenho um filho. Vejamos então o padrão da existência humana: Procrie. Filho lindo, perfeito, a cara do pai. Que bom. Escapei do DNA.

Tempos depois engravidei de novo porque o cara que eu amava não sabia segurar a coisa e gozava feito menino. Dessa vez houve proteção. Mas a gente não tem culpa. A coisa vem e quando a gente percebe já foi e nem luz no fim do túnel salva. Aconteceu a segunda gravidez. Mas foi um alvoroço. Toxoplasmose. Aborta que agora não é mais crime. Ninguém vai querer um bebê com deformidades. Arranca logo esta criança antes que se desenvolva. Abortei.

Acionei a bomba atômica.

Dei entrada em hospital público pra aguentar médica me olhando e dizendo que Aborto é Crime. Sangrei e, somente no dia seguinte, em uma sala cheia de outras mulheres, tiraram meu filho. Vi o rosto. Era transparente e as mãos eram pequenas. Era menino. Era João. Mas, como me disseram, criança deformada é um fardo. Mata a peste que envergonha. 

Matei.

Minha mãe super católica não me deu a mão. Mas ajudou quando fiquei de repouso. Não suporto essa coisa de mulher ficar de repouso. Eu poderia até sair voando. Não sentia nada.

Mas aí veio o choque pós-traumático. Síndrome do pânico e dane calmante pra controlar as crises. Era medo, falta de ar, falta de vida. Era morte.

Logo, fiz terapia e que humana me senti. Escondi todo o sofrimento dentro de uma espécie de redoma. A mesma redoma que utilizo agora para não enlouquecer e me manter firme. Redoma em que me guardo do mundo, compro naves espaciais, frequento grandes lojas de etiqueta e compro tudo que quero ou imagino comprar.

Vadiar é o lema.

O mundo é traumático, criaturas. E sofrimento teu é sofrimento teu. Ninguém vai te acudir.

E já nem sei o porquê de toda essa história de Colombina e Pierrô em estado de desgraça. Eu só queria mesmo era conversar com o cara que amo. Aquele que tocava violão, deixava o cabelo crescer, adorava comida japonesa e tomava tarja preta pra dormir. Ele era o cara. Mas é isso. O tempo engoliu. Hoje ele vive na redoma de coisas que não podem ser tocadas, nem vistas, nem desejadas. Redoma que a vida faz o favor de deixar às vistas para que eu veja, queira e não possa chegar perto. Redoma de tempo bom e tempo ruim. Um dia perco a paciência e quebro tudo. E, decerto, terei o mundo só pra mim. Mas há dignidade nas derrotas. Pois elas ditam nossas vitórias.

E que final otimista clichê.
Digo apenas que sinto saudade de você.
Ou não.
Quem vai saber?





Image by Manuela

13 comentários:

Sonhadora disse...

"Eu só queria mesmo era conversar com o cara que amo. Aquele que tocava violão, deixava o cabelo crescer, adorava comida japonesa e tomava tarja preta pra dormir."


E faltou dizer que era fã do Raul Seixas...

:D

Mas, você bem disse que "gente morta não pode se defender".

Muito bom. Muito bom mesmo, comadre.

Beijo grande.

Mai disse...

A vida não é mesmo nenhum conto de fadas, amar não é brincar de amor, e a falta de ar é mortal. Quem consegue escrever prosa assim, nem precisa de prosac. Eu, tu, ele...também ficaríamos mais leves depois desse jorro.
sem mais palavras que você já não tenha dito.
beijos, Letícia.
fica bem!

Zélia disse...

Indubitavelmente, suas personagens, ultimamente, estão vivendo um dilema. Aqueles que acham que literatura é escrita de diário podem dizer que isso é coisa da escritora e não de personagem. Eu digo que pode ser isso mesmo. Quem não vive em dilema? Seja ele qual for e venha de onde vier. Eu mesma acabo de resolver um de meus dilemas. E, agora que sou rica novamente, vou fazer compras! kkkkkkkkk /)

Gostei muito do texto. Talvez seja desnecessário dizer. Ou não.

Love you with all the bagage you carry...

Deia disse...

Sempre venho aqui pronta a me surpreender. Hoje não foi diferente. Que personagem é esse? Fala diferente mas em alguns momentos parece que já ouvimos o que ela diz muito antes de ser dito... E ficamos aqui, com pires na mão... Beijos, Deia

Fernanda disse...

Eu não sou formalista ( na verdade sou apenas eu mesma ), mas a intentional fallacy no seu texto é obvia. Essa historia conheco e não tenho como separar a escritora do texto....
Muito bom.

Estaremos por aí em dezembro; será que vai dar certo nos encontrarmos? Preciso também ler algo em português nas minhas ferias, e acho que seu livro é uma boa pedida.

Abracos.

Letícia Palmeira disse...

Fernanda,

Bom ouvir algo de você... faz tempo, hein? Entre a Intentional Fallacy e o que você escreveu existe vida. =)

Come and we'll see each other. A lot to talk about, to laugh about and learn. It will be a pleasure having you as a reader.

And I'm All Intentional Fallacy.

Really nice hearing from you.
And "here I stand" waiting.
Sylvia taught us a lot.

Muitos beijos e lembranças a todos.

Pedro Avillar disse...

Lê, responda aos comentários com mais frequencia. Suas respostas completam o que fica meio 'noir'. Você entende.

[Mas há dignidade nas derrotas. Pois elas ditam nossas vitórias] Nada de clichê nisso. Nada mesmo.

Poupée Amélie™ disse...

Que tudo esse seu texto. Adorei!

"Foi então que pensei em morrer. Mas desisti da morte quando pensei no enterro. Odeio gente chorando mentiras e claro que alguém diria que sempre fui perfeita. Morreu uma boa criatura. Eu não aguentaria isso. Elogio faz mal. E gente morta não pode se defender."

Inteligente, sarcástico e verdadeiro.

Sigo, claro.

BeijO*

Marcello disse...

Oi Moça...

Que texto poderoso, a vida em todos os seus tons, sua prosa me inspira, me excita.

Beijos.

Júlio César disse...

"O homem que eu amava". Isso causa profunda reflexão em mim. Quem será o homem amado? Amor é merecimento? É acaso? É escolha? É falta de escolha?

Posso dizer que a mulher amada é musa, endeusada, é mais que mulher, é escritora. E eu admito que a amo.

Reparto contigo minhas reflexões. Boa tarde, Letícia.

Letícia Losekann Coelho disse...

Adorei o texto, "xará"!
E a vida é derrota , mais derrota , mais derrota e depois vitória. Não tem nada de encantado na vida, a gente sofre para depois dizer que lutou. É luta diária... Né, não?
Gostei do personagem, faz divagar.
Beijos

Júnior disse...

Eu ontem comprei por prazer... hoje comerei por prazer... amanhã, é domingo, é dia de tarja preta pra dormir.

Ah, também não quero morrer e se morrer, por favor, seja você a dizer: "ele era um sacana ninfomaníaco".

beijos, lov and miss ya!

Letícia Palmeira disse...

Júnior,

Pode deixar que vou dizer sim. Esse cara era uma desgraça de tão ruim. Um sacana ninfomaníaco. =)

Bjo.

Letícia,

Bom te ver por aqui.
E adoro teu nome. =)

Bjo e lembranças ao David.