03 outubro 2010

o pato e o tempo





A necessidade quem dita é o tempo. E já estava mais que na hora de algo ser feito. E o tempo não conta conversa. Não molenga e não capenga. Ele vem e dá seu recado. E era segunda-feira do mês tal, sol danado na calçada, radio de pilha nas alturas e aconteceu. O menino chegou. Preparou tudo como se fosse ritual. Água de mão cheia. Abriu a torneira e era chuá que não se acabava mais. Escorria água pela borda da banheira de plástico, cor de azul, comprada na feira de quarta-feira na barraca de Dona Matilde que muito entendia de diversão. A banheira era a alegria do menino e a mãe dele sabia. E não só isso. A mãe sabia de tudo. Comprando a banheira, compraria também sua horinha de vadiagem pra assistir novela. Coisa simples. A mulher pega a banheira e coloca no centro da sala e mergulha o menino lá e deixa a criatura se esbaldar na água. E o menino estava feliz. Não tinha somente a banheira. Tinha um pato amarelo de plástico com apito e tudo e iria brincar com o pato e o pato iria nadar na banheira enquanto o menino imaginava que era barco e a banheira, o mar. Banheira cheia, Chega Menino, gritou a mãe. O menino veio e mergulhou. Ô banho bom. E fazia era calor. A mãe ainda fingiu participar do evento. Imitou voz de pato (e pato tem voz?), fez  carinho no menino e se jogou na cadeira de balanço pra ver novela que imita a vida tão bem imitada que a vida nem tem mais graça quando se liga a televisão. Era o menino feliz, a mãe contente e eis que o outro surgiu. A trindade estava feita. O pai sempre se sentia cansado de tanto aguentar a mulher reclamar da vida e das coisinhas mínimas que não fazem diferença alguma e também aguentava o moleque pedir coisa, pra comprar coisa e fazer brincadeira. O pai estava cheio da vida. Mas chegou em casa, segunda-feira de um tempo bom, viu a mulher rindo da novela, menino navegando pato na banheira e era tanto riso na casa onde só havia reclamação que o homem sentiu estranhamento. Sensação de perda de chão. Olhou as alegrinhas criaturas que se divertiam, cada um à sua moda, ainda tentou ser visto, mas agora era invisível e sentiu-se inútil o homem. Entrou no quarto, de porta aberta pra sala, novela plim-plim e o homem viu que sua existência era nada. Procurou o fim. Abriu a gaveta, tambor carregado, matou-se o personagem que mal se explicou. A vida falha, capenga, mas não tarda. A mãe e o menino choraram de preto ao lado do caixão.







Image by Bob-Rz

5 comentários:

Pedro Avillar disse...

E a Letícia mais uma vez arrebentou e a Letícia escreve diferente. Você desenvolveu um estilo muito original de escrever. Empolgante, bem escrito, com um lirismo moderno, capaz de envolver o leitor. E eu tomo um fôlego de mergulhador e vou lendo, vou lendo, vou lendo... e dessa vez me paralisou. Beijo nada tosco.

Felipe disse...

Maestria, Lê!!!!
Em meio a todo esse desequilibrio, somos breves!

Sua obra me assombra, noite e dia!!!!!

Bravo, Lê!!!!

Beijooo

Sonhadora disse...

Como diriam aqui: "Eita pêga!"

:D

Eu via a carinha do menino, da mãe e o figurante desfigurado.

Que estória bem pensada, comadre!

Você é definitivamente ótima.

Beijo grande.

Marcello disse...

Olá musa literária.

Desculpe-me a demora em comentar teus textos sempre arrebatadores.

Lembrei-me da minha infância brincando no tanque de lavar roupas..rs

Teu texto como sempre é poderoso, me remete à experiências próprias, me deixa inspirado.

Beijos

Zélia disse...

Credo em cruz!!! Pato, tempo, menino, água. Até parecia história de livro infantil. Só que, ao virar da última página, a vida acontece. Será sempre assim?

E minha sobrinha adora tomar banho de banheira e ela tem um pato amarelo que nada. Patos sempre nadam? :O

Inclusive, uma certa "Pedra" brincou com ele aqui em casa domingo. Coincidência? :P