16 outubro 2010

à paisana




Preciso organizar tanta coisa. Ah, mas quanta preguiça. Bela herança de outros dias. Eu me refiro à coisas tardias. Nada que seja ancestral. Não culpo parentes mortos. Tenho a leve impressão de não ter nascido ainda. Encolhidinha estou no útero materno. E só pode ser materno mesmo. Homem não tem útero. Mas, certa vez, ouvi de um escritor (muito talentoso, devo dizer) que ele possuía útero. Só agora sei que era conversa pra comer vaca. E a vaca foi pro brejo.

E a madrugada me aguarda para o mergulho de meu inverno desproporcional. Hora dos sozinhos, dos corajosos e dos grilos permanentes que rondam minha cabeça desde outra década.

Resumo do dia:

À tarde, antes de meu sono acolhedor e ofensivo (Dormir é ofender o tempo. Aprenda.), inventei de ler alguns textos do Caio Fernando Abreu. Abro o livro. Morangos mofam, eu mofo, tu olhas, ele devora e nós nos separamos. Fim? Minhas pulgas circenses me vieram fazer companhia. Comecei a ler o tal livro. Sou do tipo de criatura que segue tudo ao pé da linha. Ou da letra. Caio fala na Ângela. Espera, Caio, quero ouvir também. Amor meu grande amor... Mas será que é só amor? E as forças armadas? E o poder legislativo? E os estudos acerca da magia? Tudo tem seu tempo, menina. Mas ainda não é possível que a vida seja só de amor.

E, em tempos de divórcio, minha cara amiga, sei exatamente o que você deve estar sentindo. Já passou pela massacrante divisão de retalhos? Esse disco é meu, aquele livro é meu, o sofá eu escolhi a cor e não toca nesse quadro. É meu! Absurdo é isto. Pensar em quadro quando existe tanto mais além. Tanto mistério, filosofia, gomas de mascar e mineiros que usam óculos escuros porque a luz agride os olhos. Logo, você se sente absurdamente ridícula. Presa feito rato as suas quinquilharias. Sente-se assim? Levante a mão quem nunca pecou. Todo mundo é assim. Achamos que nosso umbigo é o único. Acreditamos que nossos problemas são sempre maiores e o jardim do vizinho é, sem dúvida, mais verde que o seu. Acorda que vai chover, Cegueira herdada por trapaça do tempo.

E, depois de tentar entender o inexplicável, senti uma falta enorme de você. Mas este você não é você. É outro. Já passou por isso? Sentir falta de alguém que não existe? Este fato é bem comum de todo mundo. E dos vazios. Não que eu esteja dizendo que você é vazio ou vazia. Mas já parou pra pensar que talvez seja mesmo Vazio? Um vazio enorme preenchido de nada. E este nada é igual à soma de tudo que você busca e não traz satisfação alguma. Mas o que é mesmo satisfação? Sensação de barriga cheia, estar de bem com Deus, cantar na chuva?

Pois em verdade vos digo que nunca senti satisfação. Não esta de estar sorrindo de orelha a orelha. Minha satisfação é tímida, retraída, silenciosa e não gosta de rumores. Atinge com força, coito interrompido e já foi. Viu? Acabou.

Trem que passa veloz enquanto a gente olha pro outro lado, meu amor. E, quando se sabe o que esperar, a coisa nunca vem.

Aprende.

E minha auto-ajuda forçada me fez comprar livro do Drummond. Ou seja, compro livro, leio, escrevo absurdos (como este) e me dou em nada. Mas veja só a pessoa como se torna pessimista. Mas o que você quer? Eu vendi a alma ao diabo, parei com os cigarros e que péssimo humor isso me traz.

Dia desses liguei pra farmácia:

- Alô? Vocês têm um remédio bem forte pra dor de cabeça?
- Temos.
- Entregam em casa?
- Sim.
- Será que o entregador poderia no caminho comprar cigarros para mim?

Compatriotas, parecia que eu estava pedindo pro cara comprar crack. Mas era cigarro apenas. Levei um baita sermão de um cara desconhecido falando que cigarro mata. Mas me diga então, senhor homem do outro lado da linha, O que não mata?

Ir ao shopping mata. Comer açúcar mata. Fazer sexo mata. Telefonar mata. E tudo está pela hora da morte.

O homem não teve o que dizer. Calou-se. A tonta ficou rindo em casa ouvindo Depeche Mode e, alterada, escreveu este texto para rir mais e achar graça porque, acreditem, tudo é nada. E preencher bolso com dinheiro rasgado é o que temos feito. Mas fazer o quê? Lugares precisam ser ocupados.

Agora estou de saída. Vestido curtinho estampa floral. Pernas de fora e juízo sob controle. Pulseiras no pulso esquerdo, coração tatuado no pulso direito e uma coleira em minha alma cachorra. E ligaram de casa. As coisas não vão bem. Por isso eu saio. Por isso preencho bolso com o vazio de aquário sem peixe. Por isso nado. Sucesso versus nossa idade, gente demais pra pouco espaço e amar é dizer. Não queira mais alucinação. Amor só se for a todos. E volto depois da festa com a barriga ainda vazia e não choro. Não borro maquiagem por minha Causa. Nem uso maquiagem. Nem sou Causa. Nem sou eu.

Sou resultado de sucessivas regras que me dizem: Siga.

Sigo então o fluxo das placas de sinalização e respeito o Drummond. Ele estava certo. Ou provavelmente não.




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9 comentários:

VELOSO disse...

...comentário meio louco cortei um pouco!

Mai disse...

O texto é um estrondo e eu juro que queria estar junto de vc. ou ir p'ra balada contigo.
.
Do tudo ao nada, Coisas são coisas, Let. E Causas - cada um tem a sua. A partilha das coisas é a pior decisão, mas não decidir também é uma forma de decisão.
Há coisas inadiáveis como dormir, ler, jogar conversa fora,ESCREVER,
f o d e r. E Re_partir é foda! Na pior das hipóteses cada um gozará a metade, ou fará de seu jeito o resto da vida que se tem p'ra viver e em ti, eu sei que é muita.

Beijos,

fica bem!

Pedro Avillar disse...

Metralhadora cheia de mágoas [só que tuas mágoas são lindas]. Vai escrever bem assim lá em casa.
Lê, sou adepto de você. Pode?
Bjooks.

Sonhadora disse...

Eu amo quando você escreve assim. Você já escreveu "assim" antes? Não sei, "provavelmente não", rs.

Mas, é isso. Tudo me faz sentir ridícula, tudo me faz sentir Vazia e pessoas querendo te convencer do contrário são patéticas, são cegas e etc.

Vestido florido e curto foi feito pra vestir o nosso ego, eu sei disso. E a maquiagem é interior, sei disso também.

E eu sinto falta de uma pessoa que não existe. Lá vai a vida, seguindo e a gente vai ignorando as placas de sinalização...


Sua escrita é sempre boa, mesmo que fale do que não é tão bom. Beijos.

Fred Caju disse...

Cada vez que venho aqui cresce a vontade de já voltar. Gosto muito de como você escreve, usa as palavras necessárias. Bom final de semana.

Zélia disse...

Talvez, para tudo na vida exiata um "provavelmente não". Ou não!

Vivemos entre os pólos do sim e do não e não é fácil decidir entre eles. Na maioria das vezes, não decidimos de verdade. Vamos por impulso e só paramos para pensar se alguma coisa sair diferente do que esperavámos. Parou para pensar em quantos "nãos" eu usei para explicar o que eu queria?

Palavras me chamam a atenção em textos. Nesse, fixei pensamento em "divórcio" que implica em partilha, divisão. Estamos sempre nos divorciando, neste sentido, e não (outro não!) percebemos isso. Quando pequena perdi tudo que tinha: brinquedos, roupas, livros, cachorro, casa, lar... Só agora percebi que fizeram com que eu me divorciasse de um "eu" que eu era na época...

Belo texto e... ;)

Felipe disse...

Deus do céu!!!
Perfeito, sigo então o fluxo!

Bravo, Lê!

Beijo.

Tiago Hist disse...

As relações humanas são assim: caminham de um extremo a outro muito facilmente. Bela maneira de retratá-la a que você encontrou. Ri de me contorcer com a história da farmácia. Só não sou eu porque não uso vestido. Você fala por todo mundo. Confissão: Ingrediente venoso da palavra Letícia.

Carol Ribeiro disse...

Muito de seus textos me descrevem, gosto da forma como escreve e a força de suas palavras. Parabens! Bjos