28 outubro 2010

prosaica








A história. Um casal e uma casa. Mobília e empregada. Não, eles não têm empregada. É apenas o casal e a casa. E um carro velho herdado do pai. Carro cheio de ferrugem no para-choque, vidro com adesivo antigo de time de futebol. Mas a ferrugem corroeu o carro. E eles não têm carro. Nem herança. Nem pai. É apenas o casal e a casa e uma moto na garagem. Moto recém-comprada paga à prestação e muito beijo na boca pra esquecer que o dinheiro é curto. E o casal acasala de sede. Normal de jovens. Comum de amor. Mas a moto escapa da história e já não existe. E o passeio que fizeram pelas avenidas de ricas luminárias nunca houve. Ainda é apenas o casal e a casa e alguns cupins. E os cupins comem a mobília e até os livros eles atacam e também algumas imagens de muitos santos erguidas em um pequeno altar na sala de jantar que já não há porque a história é apenas o casal e a casa e dedetizaram tudo e morreram as larvas. Agora é reinventar começo de saga. E ainda existe o casal e a casa. Tudo no mesmo lugar. Rua grande, algumas lojas e um mercado. E também uma banca de jornal. O casal costuma comprar revistas todo início de semana. E o casal vai ao mercado com dinheiro contado e compra pão que logo endurece ou mofa. O casal tem fome de outra coisa e pão não alimenta. Então não existe mercado nem pão. Nem rua larga ou loja em liquidação. Mas ainda se faz a história só do casal e a antiga casa de mobília ultrapassada. O casal ainda beija. Ainda faz amor. Mas é amor de não ser amor. É apenas força de intenção de estar bem. Forçado à felicidade, o casal não se separa. Vive junto na mesma casa e não compra mais revista que não há dinheiro para luxo. Nem sonha mais o casal. Nem desabotoa camisa. Nem disco afina a voz do tenor. A história se desfez do casal sem casa que o amor desmoronou. E outra história há de vir. Pois a vida, complexada narrativa, não cansa de se repetir.





Image by Colby Bluth

7 comentários:

Zélia disse...

A vida se repete ou a gente repete a vida? Acho que é mais o caso da segunda opção.

Casal desfeito, narrativa em desconstrução, literatura fazendo história.

Perfeita a construção-desconstrução do texto para contar a dez-construção de uma vida. Got it!

:D

Pedro Avillar disse...

Nem disco afina a voz do tenor. [barbaridade, Lê]
Beijão pra ti.

Maria Rita disse...

E assim se finda para logo em seguida começar tudo de novo, ou seria o contrário?

Adorei por aqui, voltarei!

Beijos pra Ti

VELOSO disse...

Mas a vida continua ou recomeça sempre, lindo lindo conto bem construido ou descontruido!

suecosta disse...

Tem horas que eu não aguento...

OBRIGADA!

Ainda bem que a vida não cansa de se repetir, assim sempre há espaço para novos Era uma vez...

Letícia Losekann Coelho disse...

Adorei a prosa, bela!
E no fundo tudo se repete, né? Tu escreve muito bem!!
Abraços

Felipe disse...

Amei de forma violenta esse texto!
Fantástico!

Beijo...Fê