07 novembro 2010

cinderela beatnik





Estou em minha cama. Digna tecnologia a nossa. Eu poderia escrever tudo em papel e deixar palavras largadas ao esquecimento. Mas não. Tenho essa coisa miúda a qual chamam netbook. Mas é apenas um computador portátil. Nada mais que isso.

Verifico minha conexão.

Excelente.

Banda larga é elite? Então não me bando nem me alargo.

Escrevo apenas.

Deito-me nessa cama de madeira e colchão ortopédico. Meu travesseiro é daqueles que se moldam aos formatos. Dizem ser tecnologia da NASA. Para mim é apenas um travesseiro coberto por uma fronha estampada floral. Só.

Estou simplificada desde que aprendi a comer de minha própria colher.

E eu escrevo antes que me venha o elementar adormecer que nutre os mortais. Escrevo para dizer da festa a qual você não compareceu.

Esqueci-me de convidar-te?

Não é perfeita nossa vernácula?

Eu não esqueci. Seu nome era o primeiro da lista. Ordenei que, se porventura, chegasse tal pessoa de sotaque imenso fricativo e pulso forte, deixasse-o entrar.

Sua mesa reservei.

A seiva de todo o manjar esteve servida a você que não compareceu. Meu papo cinderela tagarela seria dirigido a você somente. Não é clichê o romantismo que nos une?

Mas você está longe. E, por experiência das dores, sei o que significa estar longe. Distante. Como se eu tentasse alcançar a prateleira mais alta. É assim que me sinto.

Ainda falando da festa, fora tudo maravilhoso. Muitos estiveram aqui. Muitos sorriram e dançaram à sombra da felicidade simplória. A felicidade que nunca nos atormentou. Porque éramos infelizes de mão cheia e adorávamos sofrer. Era bom sofrer ao seu lado. E todo sorriso que me ardia a face vinha acompanhado de um gemido. Fizemos sentido e deixamos rastro em tudo que agora vivemos.

E, durante a festa, eu quis, por duas vezes ou mais, anunciar seu nome. Dizer de você. Desejei poder tocar suas mãos e sermos honestos de uma vez por todas e darmos caras ao mundo. Sorri fraquinho porque agora visto roupa invertida.

Sou eu quem devo permanecer escondida.

Sou eu quem devo não me declarar.

Vida arredia que nos desvia de nossas tentações.

Mas eu teria falado. Por duas vezes seu nome encharcou minha boca de vontade de dizer que amo farto e me denuncio.

Vejam.

Olhem o ser que me corrompe noite e dia. É ele. O homem. Sereno obtuso de bom tempo. Minha augusta criação. É ele o anjo externo de meus sacramentos. Olhem nos olhos de meu delator.

Mas não anunciei.

Eu poderia? Já não me suporto mais sozinha. Batalhões andam a me cercar e não me farto de outras mesas.

Transitei em astros em busca de sua companhia. O manjar não sacia a fome em mim embutida. Quase deixei que o mundo ouvisse.

Bobagem minha pensar que ninguém sabe. Porque está em meu corpo, meus princípios, meu caminho há muito decidido. Traçado o mapa de minhas regiões, vivo de amor e faço listas de desejos utopistas para que você saiba que em toda festa sua presença será minha. Toda festa bendigo seu nome e repito a ladainha. Sou de amor único. Vaso de grande dose, porém, somente recebo baobás de seu porte.

Caio espantada na solitária neurose das estrelas.
Faço declarações.
Condeno mediocridades.

E sou verdadeira. Quando digo que há ceia, farto a promessa. Esteja certo que sua boca de tudo irá provar. A palavra nunca anunciada ou a sede de um vasto temporal. E que algo nos destrua a casa e leve consigo nosso corpo marginal entregue ao maiúsculo domínio de nosso mal. Adormeço elementar e desperto fortificada para outro dia de adoração. E hoje é outro pé na estrada. Que a vida urge e o tempo de mim se farta em voz severa e articulada forjada de preocupação.





Click-me.

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Image by Ruben Añón

8 comentários:

Tiago Hist disse...

Ler suas narrativas sempre se transforma em mergulhos inconscientes... Descobri que sofro da espécie de síndrome abordada em seu texto [solitária neurose das estrelas]. E tenho o mesmo travesseiro.

Algo me diz que o texto é sobre alguém de facto.

Beijão, menina. Senti falta das tuas palavras.

Paulinha disse...

... parece que na "solitária neurose das estrelas" há uma fartura de gente e um vazio de presença...
adoro seus textos!
bjão,

A Escafandrista disse...

como eu acho bom vir aqui...

Jonah Palmeira disse...

Aê! Será que somos primos ou parentes distantes? Vou entrar em contato contigo, Palmeira.
beijão, Letícia.

Sonhadora disse...

ô Letícia, que texto cruel. Chorei, cara. Chorei mesmo =/

Eu teria escrito cada palavra, de cada detalhe...
O que eu sinto é quase um plágio rsrs

Mas você sabe o porque ;)

Que perfeito *-*

luv u

Júlio César disse...

Vejam. Olhem todos que é esta a mulher que me delata! Ela despe-me de minhas roupas e me encontro pronto para o sacrifício do amar.
Que texto, escritora!

paranax disse...

língua em
movimento

Zélia disse...

Também tenho um colchão com tecnologia da Nasa. Por isso, ele custou o preço de um foguete. Não me arrependo! É com ele que vou à lua e que posso catar estrelas com as mãos. Hehehehe!

Sabe, essa coisa de precisar (porque é necessidade mesmo!) dizer o nome de alguém e não poder é mortal. Ando pensando muito nisso porque minha necessidade de chamar um certo nome é tão forte dentro de mim. E, como eu fui impedida de fazer isso de uma hora para a outra, minha mente, meu coração, minha boca, não entendem a razão de eu não o fazê-lo. Poder chamar pelo outro é prova maior da presença dele junto a nós. Quando essa presença nos é arrancada, seja por que motivo for, gritar um certo nome nos dá a impressão que nada mudou e que ainda estamos juntos...

:(