16 novembro 2010

diário bordô



Coitada da Helena Leocata que não gosta do sobrenome que tem. Por muitas vezes, de forma solene, Helena mente se dizendo Alcântara. Mas a mulher sabe que não se pode mentir o tempo todo. Algo sempre nos declara. E é nesta hora, de exibir documento de identificação, que Helena se torna Leocata. Não há como fugir. Sentada desde as onze da manhã (e o relógio já marca cinco da tarde), Helena passa o tempo entre um cigarro e outro, seu livro de bolso e lê e fuma que Benza-te Deus, tu vais morrer, Criatura. Leocata se distrai ao ver o decolar dos aviões. São muitos, tão sortidos, de tantas companhias aéreas. Helena está extremamente familiarizada com a história da aviação. Pensa em Santos Dumont e seus horrendos planadores que mal ensaiavam o voo e tombavam esqueléticos feitos de papel. Eram rudimentares e nada se comparam as aeronaves que ela observa da plataforma onde, sentada, lê e fuma cigarro após cigarro a doce Leocata. Helena sente-se burra. Suspira profundo enquanto pessoas caminham apressadas pelo saguão. Percebe que há mais pessoas tatuadas do que ela imaginava. São diversas tatuagens. Borboletas, luas, dragões, estrelas e todas tão coloridas. Eu poderia fazer uma tatuagem. Em um lugar íntimo. Talvez na vagina. Helena fica ruborizada ao perceber que havia pensado outra palavra ao invés de vagina. Helena não pode ser obscena. E já não quer mais tatuagens. Quer tomar uma xícara de café e comer pão de queijo. Pensa em se arrumar primeiro. Refazer a maquiagem e estar digna e bonita para a noite que chega. Outro avião decola e Helena pensa nas pessoas sentadas em suas poltronas, ao aperto do cinto de segurança, e visualiza a esperança que guia tantos humanos. Enorme estrondo fazem as aeronaves enquanto a mulher se comove ao perceber que sua solidão talvez esteja levantando suspeitas. Quem é aquela mulher que lê o dia inteiro? Ela decide se levantar e fazer algo. Caminha, vai ao lavatório e se arruma perfeita a Leocata. Já recomposta, Helena senta-se à mesa, pede o cardápio e, em alguns instantes, a mulher está sorvendo café e devora fumegantes pãezinhos de queijo na praça de alimentação do aeroporto. Que alívio sente Helena esboçando beleza e regozijo. Trêmulas estão suas pernas de um gozo derretido que apenas ela pode descrever. Sorri e pensa que o tempo traz mudanças. Só é preciso ter paciência. Helena Leocata já não se sente um terrível planador criado por Santos Dumont. Helena é histórica, moderna, gostosa, misteriosa e eclética. Sente-se terrivelmente bem, embora, minutos antes, tenha chorado no fétido banheiro, solitária e entristecida, feito uma gazela abandonada por seu companheiro.




Image by Nachan

11 comentários:

Zélia disse...

Volto como o bom vinho deve ser saboreado. Aos poucos.

Helena, seja lá o sobrenome que tenha, me parece agir como deveríamos. Muitas vezes (ainda) seremos abandonadas. É um emprego que nos deixa, uma roupa que teima em não nos caber mais, o gás que acabou, a luz que faltou ou o passageiro que desistiu da viagem. Quando a lembrança dessas idas nos voltar, choremos. Mas apenas o tempo suficiente de encharcar um lencinho de mão. Logo, o lencinho deverá ser jogado ao chão, maquiagem retocada e a boca enlargecida com um belo sorriso.

;)

Tiago Hist disse...

Densidade é o teu lema, menina. Será mesmo que a Helena é coitada? Muito bom, muito bom e muito bom.

Marcello disse...

Triste é o abandono, pelos outros e por si só.

Beijos

Letícia Palmeira disse...

"Sinto de Segurança" é dose. Valha-me Deus.

Valeu, Marcellô.

"Cinto Muito Ce Errei". =)

Marcello disse...

Hahahaha.. Adorei Letícia, aliás, te adoro em todas as forma né moça ?

Beijos

Letícia Palmeira disse...

Preciso admitir: Tenho sérios problemas com revisões. Mas é a vida. Não se pode ganhar sempre. Não sei bem o que isso quer dizer, mas está dito.

Bjo, Marcello.

Pedro Avillar disse...

Você pode escrever sinto de segurança, çinto, cegurança. O propósito está em seu modo de dizer, Letícia. Não podemos negar questões de ortografia, é claro. Mas errar um detalhe não tira seu talento. Você é escritora e das boas.
Bjooks.

Letícia Losekann Coelho disse...

Adorei, guria! Muito bem escrito, denso... De ler em um só fôlego.
Ahhh revisão é coisa para revisores, desencana ;)
Beijos

Jéu disse...

Teu Blog é tão bom Letícia.
Obrigado!

VELOSO disse...

Adoro seus contos você realmente vai fundo na alma humana...

Sonhadora disse...

Sou sempre das primeiras que venho ler seus textos. Li esse no dia e nem preciso ler de novo pra comentar. Seu texto é vivo e as imagens deles continuam a viver na minha mente. E sinto conhecer Helena em cada mínimo detalhe vivendo do aeroporto.

luv u, coolmadre. Beijo grande.