23 novembro 2010

expresso temporário





Expresso





Ele afirmou, olhando pesado em meus olhos, que sou viciada em café. Sorri, olhando profundo no expresso, e guardei minha resposta na ponta da língua que mais tarde beijou a boca da única substância que realmente prejudica minha razão. Amor é um velho estúpido, ângulo agudo, a vértice de toda traição.





Temporário





Relógios se exibem aos falsetes das horas que engolem dias. Saímos o homem e eu. Ele estava decidido, em seu jeans ultra blue e camisa cor de rosa, que compraria o primeiro relógio de sua vida. Seguimos pesquisando em várias lojas qual seria o melhor modelo para pulsar o tempo. Relógios à prova d’água, relógios dourados, relógios caros, relógios baratos. Relógios e relógios e mais relógios. Parecia que no mundo só havia relógios. Tentei persuadir o homem a investir seu dinheiro em algo rentável que pudesse ser dele por muito tempo. Um grande investimento. Um relógio, por exemplo, pode ser seu por 24 horas + 24 horas + 24 horas por muitos dias e muitos anos a fio. Não sei bem se o homem entendeu meu raciocínio, mas o relógio foi comprado, negócio da China fechado, com direito à garantia e muitas regalias. Agora ele tem seu relógio pulsando tempo, dizendo horas, ditando obrigações e histórias. Quanto a mim, não uso relógio. Há séculos percebi que horas fogem de mim. Cansei de agarrar tempo que não me pertence. Porque é fugitivo. Será traiçoeiro o inimigo? E nos despedimos, o homem e eu. Ele levou consigo as horas e eu permaneci, ao dobrar de esquinas, esboçando meu ingênuo sorriso.







Image by spicy

7 comentários:

Mai disse...

O analógico está por aqui. E este texto é um daqueles venenos letais de Letícia. Adorei!
bjo

Janaina Cruz disse...

Poucos tem nas mãos o privilégio de terem as horas fugindo de si, quem me dera, quem me dera...rs
Eu gosto do gosto do café, não amargo, nem doce de mais, um pouco frio até, assim arrumo o sumo e o gosto da poesia em mim.
Amei teu blog e tua escrita.
Sigo-te agora.

Devir disse...

E tudo é uma questão de ângulo. Por certo que o prazer mora no vértice das duas semi-retas que se abrem quando uma bissetriz descobre o ponto-meio. Assim na tua razão prejudicada o agudo obtusa úmido e não por acaso sua medida é em graus.

Zélia disse...

Adorei o texto em forma de poesia. Seria a tal "prosa poética"? Que seja! E se não for, que não seja. A poesia existe por si só.

Adorei muita coisa: a foto, o formato do texto, a história do relógio. Eu adoro relógios. Embora, não os use mais depois que me roubaram o meu há anos. Trauma que precisa ser superado? Talvez, já seja tempo. Talvez, não seja hora. Acabo de comprar dois relógios - um para cada braço - e o tiro saiu pela culatra. Ganhei relógios que não marcam hora. Mas nem por isso, fiquei presa no tempo. kkkkkkk

A matemática das 24 horas + 24 horas e não sei mais quanto me lembrou Renato Russo e seu "alguém com quem você quer falar por horas e horas e horas". Falando em horas, não vou falar das Horas. Vou deixar que trabalhem em paz. Nós é que fazemos a confusão.


PS: Queria ter escrito esse texto... :(

Anônimo disse...

Letícia,
Que delícia ler esse texto antes do trabalho.... Minha relação com o tempo nunca foi das melhores. Já os relógios me atraem bastante, pois tenho a ilusão de, ao menos, posso tentar controlar o tempo.
Abraços
Roberto

Pedro Avillar disse...

Vi teu comentário-resposta. Eu largo a net, mas não largo seu blog.


Pego carona no comentário da Zélia [Por horas e horas e horas].
Beijo, Lê.

Felipe disse...

Perfeito, Lê!!!!
É realmente revigorando beber da sua genialidade!
Beijo...Fê