09 novembro 2010

fitzwilliam





"A felicidade é um subproduto da função.
Você é feliz quando está funcionando."

(William Burroughs)




São três da tarde. Não. São duas e 58 da tarde. Gosto de ser exato. Estou à espera do homem que virá montar o guarda-roupa que comprei. A vida é tudo isso: guarda-roupa, fogão, trocar lâmpada do banheiro e amar errado. Aliás, amar errado é exagero. Se amo é porque amo e nunca o amor será errado. Ou será? Não sei. E minha narrativa é tão gasta quanto a vida é gasta e sinto falta da mulher que não presta. Eu tenho uma amiga. Éramos amigos. Sempre fomos. Sempre conversei de tudo com a mulher. E muita gente diz que ela não presta. Então faço meus cálculos. Quem desdenha quer comprar. Penso na mulher com tanto carinho que me atina uma vontade que não tenho. Ela é dos ares e eu sou libriano e acho todo mundo um bando de sacana querendo ver o mal do outro. E não sei montar minhas sentenças. E também não monto guarda-roupa. E o tempo chacoalha no relógio e eu fumo outro baseado. Penso em masturbação. Ando tão sem tesão. Nem de mim eu gosto. Uma amiga disse que masturbação é coisa de criança se descobrindo. Prefiro seguir a visão do Burroughs. Masturbação é autoconhecimento. Em um mundo cheio de pessoas extraordinárias e resolvidas eu me masturbo às 4 da tarde. Penso em muitas coisas. E penso na mulher que não presta. Ela me dizia que, às vezes, queria desistir de tudo. Como se fosse abandonar o navio. E eu dizia que também desistiria. Era recíproco até nisso o que a gente sentia. Até a fraqueza era a mesma. Talvez, por termos sido tão iguais, tão inescrupulosamente iguais, não tenhamos vingado. E eu não a amava. Ela apenas me preenchia um vazio que ninguém mais preenche. Cometo o crime de achar que encontrarei perfeição em outras pessoas. Moro em outra cidade agora. Meus amigos ficaram para trás. Fazer mudança é sofrer de parto, sempre digo. Mulheres devem saber como me sinto. Comprei apartamento, compro coisas e vou me estufando. Mas, ainda vazio, minto aos amigos dizendo que estou bem pra caramba. Mas não estou. E me falam a respeito do mal do século. Alguns falam em Jesus e salvação e eu tento ir ao trabalho sem que me sinta enjoado de tanta repetição e mentira por cima de mentira. Nunca fui pessimista. No entanto, sempre quis morrer. Nunca vi um motivo que me fizesse ficar aqui nesta vida só para cumprir tabela. Acho tudo muito chato. Pessoas, lugares e não penso em conhecer ninguém. Estou exausto de falso aperto de mão e sorriso forçado. Eu não aguento mais esperar o cara que viria montar o guarda-roupa. Ligo pra loja e já fecharam. Ninguém cumpre metas. Cumprir metas é tão patético quanto dizer que nunca pecou. Eu peco. Eu rezo. Faço até macumba. Acredito em ideais fajutos e, depois de beber, escrevo aos amigos que não tenho mais e peço desculpas. E escrevo à mulher que não presta. Ela é tão indigna que só mesmo ela para vir até mim e dizer que sente minha falta e que daria a vida por mais um dia ao meu lado. Por isso não presta. Porque é ingênua. E ninguém percebe ingenuidade atrás de um sorriso que finge ser forte. A mulher é como eu. Espera homem chegar, martela pensamentos e acredita que masturbação é pedir conselho ao próprio corpo pra saber que diabo de fome é esta que nos faz olhar o relógio a cada cinco minutos só pra saber se a vida ainda continua ou se alguém vai entrar pela porta trazendo flor ou carta ou chegar de joelhos pedindo perdão. Que ninguém saiba que somos iguais. Que ninguém saiba que também sou ingênuo e acredito em tudo que vejo. Telefono para a mulher que não presta, ouço a risada dela e o mundo fica para trás. Se eu soubesse que seria apenas assim, simples, ligar e me sentir em casa, eu teria ligado outras vezes. Você sabe. Eu teria ligado. Sou homem estilo crachá, que se vira sozinho e não me deixo passar por idiota. Mas, pela mulher que não presta, eu choro por horas. Choro no ombro dela e a gente se completa por sermos humanos. E nem vento entra em meu apartamento. Será que sempre é pedir demais? Vivo pela raiz tudo que a vida traz. Até meu azar de ser quem sou me faz ver que ainda há algo a se fazer. Talvez uma viagem. Talvez uma mentira a mais para esquentar o dia que termina sem rima. Sinto-me esquisito. Típico galã de filme retrô.








Image by cidaq

13 comentários:

Sonhadora disse...

Ah os librianos...são ótimos e podiam morrer todos.

¬¬

kk

Eu sou uma mulher que não presta e quem diz que eu não presto quer me comprar...que auto-ajuda isso, comadre. Amei.


:D

Mulheres que não prestam sucumbem? o.O
Preciso escrever-te...

Beijo.

Mes meilleurs souvenirs disse...

Nossa...maravilhoso texto.

Quisera eu ter "alguém que não presta" e poder deixar o mundo pra trás.

Pedro Avillar disse...

Lelê, vou me repetir: adoro a parafernália que você escreve. É tudo cheio de partes da minha vida. Ou você é vidente ou conhece demais as pessoas.

É sempre um mistério.
Bjooks, menina.

Júlio César disse...

Excelente, Letícia! Eu sempre me surpreendo com sua escrita. É tão abrangente e calorosa. Quem dera eu ter a mulher que não presta e deitar-me ao teu colo pra contar-lhe os devaneios que tenho ao passar por tais palavras magníficas.
Você é mesmo esplêndida e não me cansarei de dizer.
Um carinhoso beijo meu.

paradigmas universal disse...

a vida é eterna falta de saber.

Paulinha disse...

"Se amo é porque amo e nunca o amor será errado. Ou será?"
é uma questão quase hamletiana

Renata Bittes disse...

Caramba, ameii o texto! E o blog tb. Já está na lista dos meus favoritos ;)

Devir disse...

Meus olhos ardem, arderam por todo o texto e acho que ficaram assim depois de ver tanta cláusula pétrea na vida de todo mundo que morre frio. Uma punheta às quatro horas e o baseado faz fuma espessa pelo quarto até o filme da sessão da tarde. Eu consulto o visor do celular só para confirmar que ninguém ligou no minuto que eu sentia todo lado esquerdo do meu corpo derreter como meu nariz. Uma alucinação, várias delas, e eu só poderia estar chapado pra ter essa mulher que não presta como pretensão de futuro. Gosto mesmo de gente ingênua, gente pura pra diluir minha dose concentrada de ternura.

AninhaGR disse...

Que escrita! Que texto! Estou muito impressionada, me apaixonei!
Fã e seguidora! Abraços, paz e luz.

Jhony disse...

É tão engraçado: as pessoas se esforçam para serem apreciadas pelas outras, conquistadas ou conseguir conquistar, e geralmente, o que é que acontece? Optam por aquelas que não prestam. Característica humana? Curiosidade? Complementação?
Eu sou uma pessoa muito sortuda mesmo, e às 4 horas da tarde estarei, ainda, escrevendo minha resenha crítica para a aula de Ética Profissional, enquanto os meus colegas de grupo devem estar na praia, em casa dormindo, tomando um banho de piscina, ou ainda se masturbando.
Para mim, apenas um baseado bastaria.

Marcello disse...

1) Quisera eu ter "alguém que não presta" e poder deixar o mundo pra trás²

2)É tudo cheio de partes da minha vida. Ou você é vidente ou conhece demais as pessoas²

3) Se amo é porque amo e nunca o amor será errado. Ou será?

Nem preciso comentar.

Beijos

Geógrafo disse...

Relutei muito em fazer o comentário. Achei que não devia, que não queria ou que não seria necessário, ainda não sei se é...Ainda não sei o que escrever, ainda penso em tomar um café, colocar uma música para tocar ou fazer aquele trabalho que está atrasado, mas eu queria comentar, queria me ouvir ao ler no outro, pedaços do que um dia fui... Mas vou deixar tudo como está. Ainda espero pelo montador, mas o guarda-roupa já estar montado e as roupas continuam bagunçadas e tudo parece sem sentido, preciso arrumar, mas só tenho preguiça. A mulher que não presta, ainda não presta e sinto saudade, mas finjo que não e vou me perdendo entre o que sou e o esboço do que um dia pensei que fosse. O baseado e a masturbação são meros enfeites de uma vida sem beleza.
Estrangeiro.

Zélia disse...

Cheguei! Texto de frases fortes. Nada mais exato que masturbação às 4 da tarde. Por que tão metódico? kkkkkk

Vou agora de Burroughs: somos felizes se funcionamos, sim. Se nos entristecemos é porque nos esquecemos que esse "funcionamento" depende única e exclusivamente de nós mesmos...

;)