28 novembro 2010

gregos e troianos





Enquanto gregos e troianos morrem, Telma fala ingenuidades. Surge como se viesse de uma batalha de lençóis e sonhos mal passados e inventa de conversar. É uma ameaça ter por perto uma mulher quando tudo que se quer é um pouco de solidão. Eu nem me importo que a cidade exploda com seus milhões de habitantes. Quero apenas ficar aqui, inerte, suspenso e surpreso por ser tão genial como sou. Surpreendo-me comigo mesmo. Na cama, ainda deitado, com preguiça de fazer qualquer movimento, ouço os passos dela pelo corredor. Parece um elefante invadindo a savana e eu sou o caçador. Já imagino o que virá dessa vez. Mais uma conversa a respeito de seus anseios de mulher que, passou pelos trinta, enfrentou os quarenta e agora invade os cinquenta, e sofre ao ver seu corpo cada vez mais flácido. Telma é cheia de frivolidades. Tenho pavor de seus batimentos cardíacos quando deita ao meu lado e dorme feito uma vaca cansada de ser leiteira. Muitos têm razão por optarem pela solidão. Esta mulher de nada serve a não ser fazer ruídos pela manhã quando de mim se despede e volta à noite com seus ares de cansaço porque, segundo Telma, trabalhar é preciso. E ela se aproxima do quarto. A janela fechada esconde o sol. Não quero ver que já é dia. Acendo um cigarro e Telma não suporta o cheiro de meus cigarros. Mas, estando comigo, será assim. Eu fumarei meus cigarros. Ela sempre diz que está comigo porque precisa sofrer. Aliás, ela nunca me disse isso. Eu deduzo por suas ações. Filha de pais separados quando ainda era jovem, complexada e indecisa, Telma nunca soube de si. Considera-se velha aos 46 anos de idade. Telma não sabe de nada. Quase posso ouvir seus seios chacoalharem quando ela abre as cortinas e deixa entrar o irritante sol da manhã. Telma olha para mim hesitante sabendo que, caso reclame de mim, sairei pela porta da frente e nunca mais voltarei. Começa então a dobrar algumas toalhas que tirou do varal. Sinto seu cheiro de água sanitária e detergente de roupas. Ao menos ela é prendada. Ao menos isto. Senta-se ao meu lado, finjo não perceber que me olha, e me envolvo cada vez mais em meu cigarro. Telma não diz nada, mas sinto a necessidade de olhá-la. E vejo a pecaminosa sujeira em seus olhos. Ela acordou e não lavou o rosto. Ainda maquiada da noite passada. O lápis preto escorre envelhecido no óleo de sua pele. A boca enrugada em batom. Sinto asco. Não digo. Ela me sorri e diz bom dia. Pergunta se quero torradas e ovos fritos. Telma não sabe de nada. Não me atrevo a deixá-la saber de mim. Aceno com a cabeça. Positivamente tomarei meu café e voltarei a deitar e ficarei aqui o dia inteiro esperando que ela volte e faça meu jantar. E ela voltará. Telma é dessas mulheres que sofrem por vontade própria. Eu a entendo. Eu a machuco quando ela pede e berro quando ela me interrompe. Hoje sei que haverá sessão de choro após fazermos o que nos é concedido. Ela vai chorar solitária e eu me sentirei esquisito por ter minha mãe abandonada por meu pai e sendo molestada por seu próprio filho.








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6 comentários:

Zélia disse...

Jesus!

Não usemos o santo nome de Deus em vão! Não pude evitar. Somos tomados por surpresa ao fim do texto. :O

Vida. Real. Quanto vale o Real? Muita coisa! Penso que as pessoas se debruçam muito em "analisar" o outro e esquecem de si. Gostei do "positivamente tomarei meu café". É assim que deve ser. Atitudes positivas diante da vida é o que devemos ter.

E... asco é a palavra. Para aquele caso. Iria começar meu comentário com ela. Depois, diria: "Chuta que é macumba".

;)

Tiago Hist disse...

"... É uma ameaça ter por perto uma mulher quando tudo que se quer é um pouco de solidão..." Leio sempre, comento pouco,por falta de tempo ou de método,como diria Einstein. Muito bom como sempre. Não há muito a se dizer, Dona Letícia Palmeira.

Beijos

Sérgio Emanuel de Moura Gonçalves disse...

Texto gostoso de ler ao revelar como gregos e troianos são também subjetivos, ou seja, somos gregos e troianos.

E, com Aquiles e sua raiva, tentamos sobreviver.

Sem pretensões sentimentos pessoais são revelados importantes por aqui, tanto pela rememoração aparentemente lacônica da refrega mais emblemática das obras de gênio quanto na situação considerada dialogando maduramente com a sensibilidade leitora.

Nossa literatura contemporânea deseja muito tal despretensão na linguagem escrevendo bem mas não consegue. Tens contudo capacidade de conquistar isso: já tens o norte!

Que gregos e troianos saibam ler e, principalmente, criticar: eis o meu desejo.

Também escrever? Indo bem com as anteriores, esta capacidade será bem praticada.

Vou conversar um pouco com Telma por agora.

Eder Asa disse...

Tenho que dizer, por mais difícil que seja admitir, que este é um dos melhores que já li aqui (e olha que leio sempre, por mais que comente pouco).
No mais, não há muito o que se dizer sobre o fabuloso!

Mai disse...

Lí ontem e agora novamente, e te digo que Asco é a palavra que melhor define. Texto difícil de ler.

beijos, Let.

Felipe disse...

Em um lugar como esse não há espaço para predileções, mas ainda assim ouso dizer que amo esse texto! Perfeito!