18 novembro 2010

mundanos





Eu tenho um amigo crente. Ele frequenta uma dessas igrejas de gente que sai pregando o evangelho. Meu amigo prega o evangelho o tempo todo. E eu escuto. Logo, eu deveria ganhar o Nobel, ou ficar isenta de impostos, ou poder entrar de graça em ônibus e cinemas ou ainda ser beatificada. Porque o pote é bem maior que a rodilha. É dia e noite falando dos arrebatados enquanto eu, que não sigo dogma algum, penso em sexo. Ele fala e eu fico imaginando pessoas nuas. Minha cabeça é Sodoma e Gomorra. Tudo junto. E meu amigo prega e eu peco em pensamentos. Fico imaginando diversas posições sexuais. Todas que eu puder e conseguir fazer. Dia desses, enquanto ele pregava a respeito de luxúria e adultério, juro que fiquei excitada. Foi um tanto embaraçoso. Ele falando e eu me contorcendo imaginando uma cena de dar água nos olhos. Imaginei um homem atrás, outro homem na frente e um voyeur atrás da porta. Então meu amigo pregava e eu imaginava toda a cena de estar com dois homens fazendo o que o diabo gosta. Se bem que, em tempos de arrebates e pregação, só me falta que o diabo seja crente também. Não tenho nada contra religiosos. Que fique bem claro. Nada mesmo. Mas não suporto pregação. E comigo é assim, quanto mais intensa a ladainha, mas louca me sinto e não duvide se eu tirar a roupa. Acho que tenho fraco por parábolas. Eu amo os cristãos. Amo de boca cheia. Embora também os odeie. Eles e suas histórias de pecado, julgamentos e juízo final. Meu amigo acredita que realmente será salvo e viverá à sombra do altíssimo. Logo ele que passou boa parte da vida fazendo inferno com os outros. Eu lembro. Meu amigo costumava usar drogas e mulheres. E ainda traía sua mulher com a mulher de seu irmão. Ou seja, tudo em família. E veja só como os cristãos são up to date. Eles pecam bastante, fazem todo tipo de sacanagem, depois se dizem arrependidos e passam a integrar cultos e fazer pregação do evangelho. Ser salva assim eu também quero. Mas, antes disso, quero fazer sacanagem. E muita. Ficar atolada em meus pensamentos perniciosos que vão contra os domínios da boa religião e do comportamento cristão. E agora meu amigo fala a respeito do apocalipse. Eu vou concordando com tudo porque é exatamente no apocalipse que entro em curto. Adoro as histórias de demônios e chifres. E meu amigo continua. E eu sigo fervendo de vontade. E, então, a necessidade fala mais alto. Tiro logo a roupa toda e meu amigo, homem por criação divina, mesmo pregador do evangelho, não conta conversa. Faz o que só o diabo faria. Me come com vontade de que eu seja a mais pura das virgens. E, enquanto meu amigo me martiriza, eu digo amém e mudo de opinião. Pregue o evangelho em mim todos os dias, meu amigo, e salve minha indigna alma da perdição.








Image by DorisAnne

10 comentários:

Leo Mandoki, Jr. disse...

hahahaha.....a coisa mais deliciosa que já de vc em tdo esse tempo!!! Vc realmente tem sensibilidade acima da média. Porque, ao que quase ninguém supõe, a bíblia tem uma linguagem subliminar que incita à sacanagem, à putaria, ao sexo vadio..não existe prazer maior do que a remissão após um enorme pecado. Pecar e redimir são os dois lados da alma humana. E vc acabou desvendando isso né?! Congratulations!

Pedro Avillar disse...

Pela mãe do Guarda, Lê. [Santo Sacrilégio] Se minha mãe se depara com esse texto... ai, ai, ai. Espetacular é o mínimo pra isso. Você é fenomenal.

Beijão, menina.

Mai disse...

Esses dias descobri na net uma charge que se encaixaria muito bem neste teu texto.
"O pote é bem maior que a rodilha" - esta é um primor.
Andei revendo um filme de Pagú, mas só você escreveria essa personagem.[Foucault leria com prazer]

bjos

Renata Bittes disse...

HAHA
Tb não aguento essa pregação gratuita. Não sigo nenhuma religião e acho ridículo todos esses limites impostos para nos domar. Domar nossos desejos, nossas escolhas, e até nossos pensamentos.

Muito bom o texto. Principalmente o final... Dizem q o proibido é mais gostoso rs

Tiago Hist disse...

Moça, que texto phodástico, pecaminoso e genial. Você tá na maré alta, né não? Vou usar seu texto na aula de segunda. Quero ver neguinho com cara de beata na hora da leitura.
|Santa Letícia das Chagas Bem Curadas|

Paulinha disse...

... pois é, no fim das contas, somos humanos, demasiado humanos (com bem disse Nietzsche)
bj

Letícia Losekann Coelho disse...

Ótimo! A arte de ir para Marte quando o outro está contando como foi estar em Plutão! kkkkk
E o melhor julgamento final é o próprio, de cada um... Ao menos penso assim!
Adorei o texto!
Beijos

Zélia disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkk
Não me choco ou surpreendo. Conheço mão de escritor. Quanto a minha mãe, ela não ligaria muito para "mundanos", não. Mas eu conheço duas irmãs que cairiam duras. Sabe como é "quente"...

Roberto Denser disse...

Um texto delicioso que me remeteu ao Delta de Vênus, de Nin. Muito gostoso!

Sonhadora disse...

Sacanagem da boa. Ou não.
Tem dias que o sexo dá as caras em tudo quanto é canto. É, eu sei.

¬¬

Você é ótima, coolmadre.