21 novembro 2010

terapêutica





Siga meu conselho. Procure um terapeuta. E um que seja, de preferência, recém-formado. Que tenha fome de ouvir e procurar nó em chifre de cavalo. Entende? Eu encontrei o meu. É homem. Faz dois anos que frequento sessões quinzenais que muito me ajudam a viver a semana inteira esperando por outra sessão. É perfeito. Não tomo medicação alguma porque, segundo meu terapeuta, não preciso. Estou bem. Ele ainda não me diagnosticou, mas já arriscou alguns palpites e, sempre que arrisca, volta atrás e diz que precisamos caminhar mais e buscar mais respostas. Por mim está tudo maravilhoso. Adoro caminhar. E, ao lado daquele homem, subo até escadaria da Penha. Não que ele que seja bonito. Não é. Mas botei na cabeça que ele me ajuda e pronto. Minha cabeça é feita de tudo que acredito. E eu engano o terapeuta bonitinho. Há dias em que invento de chorar porque digo estar me sentindo traída. Ele me passa uns lenços e eu choro de me deitar no sofá e fico feliz com aquele homem olhando para mim com seus olhos semicerrados e sua expressão de Freud Explica. No início pensei que as sessões seriam gravadas como nos filmes. Mas não. Ele sempre anotou tudo. Em papel mesmo. Eu falo e, vez por outra, ele anota e diz que entende muito bem. Ele é tudo. Homem de armadura que fatura de mim 150 reais a cada 15 dias. O consultório dele era localizado na Rua General Osório quando comecei a me tratar. Agora ele atende em um belíssimo empresarial na Avenida Edson Ramalho a dois passinhos do mar. Que alegria é sair de casa, ver o azul do mar, o sol tostando os pobres miseráveis que transitam pelas ruas e entrar no edifício onde darei de cara comigo em uma sessão de terapia. Sento na sala de espera e vejo que a recepcionista usa sapatos apertados que lhe causam inchaço nos tornozelos. Mas nada digo. Cumprimento a mulher com um breve sorriso, sirvo-me de água e sento a ler Marie Claire. Assim deve ser o céu. Música ambiente, aroma de lavanda, poltronas confortáveis e muitos loucos que entram e saem do consultório de meu terapeuta. A janela tem uma bela vista de toda a via litorânea. Posso até ver a África se eu fizer pensamento positivo. E o dia está lindo perolado de um sol forte e nuvens distantes. O mar murmura suas ondas de forma angelical. Como estou feliz por ser maluca e poder fazer terapia com este homem que veste calças muito justas e deixam as partes íntimas muito espremidas e bem volumosas. Tento não olhar, mas é impossível. Ele fica como aqueles bailarinos e suas roupas apertadas. Ele deveria esconder mais aquele troço para que eu não o veja. E olha que não sou a paciente mais louca. Há outras. Devem agarrá-lo. Provavelmente algo mais deve ocorrer. Mas não me importo. Entro em sua sala, respondo que estou bem e sento no aconchegante sofá que me espera. Já fiz de tudo neste sofá. Hipnose, exercícios de respiração, preenchi questionários e minto minha vida a cada quinze dias. Hoje decidi dizer a verdade. Só por hoje falarei a verdade feito um bêbado evitando o primeiro gole. Conto de meus relacionamentos. Mas ele já sabe. Já falamos muito a respeito de tudo e do homem com o qual me deitei algumas vezes. Meu terapeuta não pode dar opiniões. Não diretamente. Mas sempre faz uso da famosa psicologia reversa. Ele me questiona por que ainda me deixo guiar por tal homem quando eu bem poderia ter muitos cavalos mais rápidos e velozes. Por que se envolve com alguém de tão baixa estirpe? Por que ainda se deixa fazer parte da vida de uma pessoa que simplesmente não tem vida? Por que se importa com um tolo que mal consegue sair do lugar? Por que fica a se punir se envolvendo com um mundo inferior ao seu? E por que se preocupa com coisas tão ínfimas quando o mundo é imenso e cheio de outras possibilidades? Você chora sem motivos, mulher. Sacudo a cabeça confusa. Não entendo a fala do interlocutor. Como pode um terapeuta falar com uma paciente dessa forma? Desde quando ele passou a falar comigo assim? Estranho o comportamento do homem a quem sempre menti uma verdade e agora ele me fala como se me conhecesse. Você não me conhece, eu digo. Ele me olha de forma feroz e me manda sair. Sua hora acabou. Pego você às nove. E esteja pronta. E não me venha dizer que não acha certo o que fazemos. Ele então beija minha boca com força e eu saio do consultório congestionada e confusa feito uma girafa em uma manada de elefantes. Mas sinto-me bem. Ao menos hoje ele me tratou de forma diferenciada. Hoje, finalmente, meu terapeuta não me deixou mentir e falou a língua que eu precisava ouvir.







Image by Adnil

10 comentários:

Felipe disse...

Perfeito, perfeito, Lê!
Viajei com esse texto, vai escrever assim lá longe!!!!!
Deus do céu!

Beijo...Fê

Danny Baioco disse...

Olá, tudo bom?
Achei seu blog muito interessante.
Comecei um blog tbm, se puder e não for pedir muito, de uma passadinha no meu?

http://cabecafeminina.blogspot.com/

Muuito obrigada e parabéns pelo blog!!!!

Renata Bittes disse...

HAHA
curti.
O lance de ter alguém pra falar o q quiser é o possível vício dessa válvula de escape, esse ouvido com hora marcada.

Pedro Avillar disse...

Lê, sua mente deve ser algo tipo yellow submarine e uma taça de chardonnay.
A net tá uma porcaria aqui na praia, mas leio e penso: ah Letícia.
BeijOO.

Éverton Vidal Azevedo disse...

Também achei perfeito, imprevisível, como é na vida de gente que vive na vida real.

Letícia Losekann Coelho disse...

\o/ Muito bom, Letícia! Um conto daqueles que prende, sabe? Muito bom!
Posso publicar ele na revista da editora com os devidos créditos? Abraços

Letícia Palmeira disse...

Pode publicar, Letícia.
Fico feliz e contente. \o/

Abraço procês. =)



E Pedrão... vai aproveitar a praia, homem. Larga dessa internet.

Bjo.


Vidal,

Muito bom te ver. Sinto falta do Coltrane tb.


Fê,

Você voltou. =)
MFHB.

Sonhadora disse...

eu sempre vejo o ser humano por trás do profissional. Isso é fato.


;p

Paulinha disse...

é daqueles textos em que o leitor viaja... e o final? totalmente inusitado!
adoro surpresas!
bj

Zélia disse...

kkkkkkkkkkkkkkk

Uma comédia! No bom sentido é claro! E que não me levem a mal os terapeutas de plantão. Mas por que todo mundo tem mania de analisar os outros o tempo todo? Deve ser porque se esquecem de olhar no espelho.

Calo!