29 novembro 2010

a vaca lambeu o boi



O homem tinha uma quitanda que não era bem uma quitanda. Era uma mercearia. Mas qual é mesmo a diferença entre quitanda e mercearia? Quitanda é lugar onde se vende frutas e hortaliças. Em mercearia, como se sabe, podemos encontrar outros produtos. Tais como: arroz, feijão e a vaca lambeu o boi. Então o homem tinha uma Quitandaria que vendia de tudo. Até cachaça. Mas aí já não é mais quitanda nem mercearia. É boteco. Então era isso que ele tinha. Um boteco que vendia de frutas à cachaça. O lugar vivia cheio de homem bêbado contando vantagem. E mulher também. Mulheres compravam produtos e os homens olhavam as mulheres que compravam produtos e falavam das qualidades físicas destas mulheres que frequentavam o lugar. O homem que era dono do boteco, quitanda, mercearia (por que não dizer Empório?) era um sujeito de cara amarrada e não vendia fiado. Mas era só o que ele fazia. Toda hora alguém comprava algo e mandava pendurar na conta. De arroz a saco de batata. Mas quem no mundo compra saco de batata? Só sei mesmo afirmar que o homem dizia não vender fiado. Mas ele vendia. E, sempre que começava alguma confusão por causa de algum bêbado de cabeça quente, o homem gritava dizendo que botaria todo mundo pra correr. E nunca botava. E quem bota é galinha. Ou não? Com ou sem galinha, o homem, dono da mercearia, nunca fazia da vida o que era pra fazer. Dizia que tinha quitanda, que só vendia a dinheiro, que isso e mais dois tostões daquilo. E dizia que não vendia fiado e ainda encurtava briga de bêbado dizendo que fecharia mais cedo e nunca fazia nada que prometia. O homem não se cumpria. E eu não o conhecia. Parei um dia para comprar dois pacotes de fubá e li a placa proibindo fiado tilintando ao lado de outra placa que alardeava o marketing Quitanda do Almeida. Percebi que de quitanda o lugar não tinha nada. Era um boteco no meio do brejo, cheio de varejeiras, e o homem com cara de besta achando que era dono do mundo inteiro. E aquele bando de bêbados vagabundos observando aquelas mulheres feias comprando misérias para cozinhar suas vidas desgraçadas e sem horizonte. Não vejo beleza alguma nesta história. Por mim nada seria dito não fosse a porcaria da necessidade em dizer que existe homem dono de boteco e que, um dia, não sei como, fui parar lá. Desgraçada mesmo é essa necessidade que tenho de me contar.








Image by Caroline

5 comentários:

Felipe disse...

Perfeito! Perfeito!

Beijo...Fê

Anônimo disse...

"Cozinhar suas vidas desgraçaddas e sem horizonte" é fantástico!
Abraços
Roberto.

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Leticia...o teu cotidiano aqui me lembrou esses bares mercearias qu vendem de tudo....tem um aqui que vende um "torremo" com cachaça ...rsrs...onde o pessoal toma cachaça, fala sobre futebol, mulher e religião...
É cheio de placas com frases de efeito e ainda algumas falando exatamente sobre o não vener fiado com muito bom humor, mas será que existe um lugr assim que ninguem pendure a conta...creio que não...e tiver vira lenda...
Show de bola amiga
Bjo

Zélia disse...

Filha,

Adorei muita coisa! Será que estou me tornando aquele tipo de comentariasta "adorei", "lindo", "muito bonito"? Credo!!! Mas o que posso fazer? Eu adorei mesmo! Adorei a foto (adoro vaquinhas malhadas e fofinhas), dorei o título "A vaca lambeu o boi" (ao contrário de "O boi lambeu a vaca) e adorei, principalmente, duas linhas no texto:

1. "O homem não se cumpria". Vivemos cercadas de pessoas que "não se cumprem" e, assim, suas vidas ficam pela metade.

2. "...necessidade que tenho de me contar." Sabe que, às vezes, eu me pego "me contando"? Talvez, os psicólogos digam que isso é bom. Afinal, estamos nos libertando, nos "mostrando", exprimindo nossos sentimentos. Mas, isso não é de todo bom. Às vezes, me chateio por perceber que ao "me contar" estou a falar sozinha sem ninguém para prestar atenção aos meus contos...

Para terminar, "muito ótimo"! :)

NDORETTO disse...

Muito legal,bom demais da conta. Uma delícia ler tudo por aqui.

Aplausos
Neusa
http://poesiarapida.blogspot.com/