02 dezembro 2010

bagatelas






Nada disso tem moral
Nem tem lição
Curto as coisas
Que acendem e apagam
E se acendem novamente em vão.


(Frejat e Adriana Calcanhotto)




O dia começou bem. Dois alienígenas fantasiados de pintores de parede invadiram minha casa. Decidi pintar um cômodo e o teto da sala maior e também o teto da varanda que dá acesso à rua, ao mundo, às ilusões. Sorri aos pintores, embora ardesse em mim uma necessidade de fuga. Quer mesmo esse tom de azul, senhora? Sim. É este o tom de azul. Incrível a necessidade que temos de manter contato um com o outro. Não poderíamos ficar todos em silêncio? Mas não. Precisamos falar, nos exibir, travar comunicação e esbanjar nosso senso humanitário. Este pensamento me ocorreu ao encontrar uma antiga conhecida em um shopping da cidade onde moro. Ela vinha que vinha toda tatibitate. Felizinha e contentinha, a mulher falou a respeito de seu doutorado. E contou toda a história sem que eu perguntasse absolutamente nada. Falou por 15 minutos. E eu suportei aquela felicidade forjada. Foram 5 anos para terminar a graduação, 2 anos para o mestrado e agora mais 4 anos concluídos e sou doutora. Regurgitei entusiasmo. Que felicidade, não é? Agora veja quantos anos de sua vida você perdeu fazendo o contrário do que queria apenas para agradar sua família e dizer que recebe contracheque gordo. Que glória. A mulher me olhou espantada como se fosse novidade o que eu acabara de dizer. Senti tanta euforia por exterminar a falsa alegria da cidadã que decidi tomar sorvete de açaí. Eu não gosto de sorvete de açaí porque me remete às pessoas que frequentam academia de ginástica e ficam malhando seus corpos por horas a fio enquanto se sentem extremamente infelizes. Corpo são, mente estraçalhada. Não entendo as pessoas. Mas sei que cada um tem o que merece. Alguns conseguem até bem mais do que lhes é devido. Eu tenho o que mereço e procuro dividir meu tempo de forma bastante adequada. Duas horas para me sentir totalmente disposta a enfrentar o dia, outras duas para me assegurar de que vesti a calcinha adequada ao meu corpo, outras duas olhando o tempo, outras horas mais pensando em sexo e, nesse ínterim, eu trabalho. No total, devo trabalhar 1 hora por dia. O resto do tempo sou uma mulher comum. Recepcionista em uma clínica de cirurgia plástica. Sou a moça que fica atrás do computador ou ao telefone agendando consultas. Mulheres e homens entram e saem do consultório e eu sou a sombra que atende o telefone. Meus crimes não existem para tais pessoas que passam por mim. Bom que seja assim porque, desta forma, não sofro avarias em minha caricatura. Nessa vida optei pelo anonimato. E sou decente. Pago tudo em dia e escolho cor de tinta para pintar cômodos da casa. E sinto necessidades como qualquer ser vivo. Ontem mesmo, após chegar do trabalho, liguei para ele, o homem que me faz achar graça em piadas de péssimo gosto. Não arredondei o assunto. Disse logo o que queria. Ele me respondeu: Mas assim, de repente? Como de repente? Passei o dia pensando nisso. É de repente pra você. Para mim já levou mais tempo do que deveria. Ele desconversou e veio com histórias de cansaço e ainda disse que hoje dormiria pensando em mim. Eu transbordei em risadas ao desligar o telefone. Homens são engraçados. Querem o mundo. Mas basta que lhes sejam oferecidas bagatelas, agem como se fossem difíceis. Morra você, homem destinado ao lado comum das coisas. Viva sua televisão, seus amigos, seus trajes de menino ainda filho de uma mãe. Eu ficarei aqui olhando as latas de tinta que comprei. Provavelmente vou substituir você por outro consumidor de carne vermelha. E eis que ouço a campainha tocar. Entra o segundo da lista. Estou perfeita na linha de frente. Sorrimos falsamente e não gosto de perder tempo. Aproveito as noturnas horas de meu dia fazendo relinchar outro personagem de meus romances de cavalaria.








Image by Angelles

8 comentários:

Zélia disse...

Trabalhar 1 hora por dia. Eis o que gostaria de fazer. Por que não o faço? :O

Gostei do título. O que não quer dizer que gostei menos do texto ou que não gostei do texto. Retórica, hoje, eu. Mas "bagatelas" vem à calhar com o pensamento que abre o dia. Estou tentando fazer "aquela compra" e me vem à cabeça o quanto nos é gasto em tempo por simples "bagatelas" - mesmo quando essas "bagatelas" custam mais que simples bagatelas. Bom, nesse caso específico, a "bagatela" tem valor sentimental e isso não tem preço. Embora "para todas as outras existam Mastercard". kkkkkkk

NDORETTO disse...

Adorei!! Agora sou fã e faço propaganda!

Aplausos aí !

Neusa Doretto
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http://poemacurta-metragem.blogspot.com

http://poesiarapida.blogspot.com

Mai disse...

"Romances de cavalaria..." Let, leio você há mais de dois anos. Você sempre inventou histórias fantásticas com mil personagens em suas loucuras, romances e guerras. Mas nunca como agora você guerreou tanto.
E eu me pergunto se nesses tais relacionamentos falidos, faltosos, e com tamanha exigência de posse e controle, essa mulher não seria o mundo literário ou a própria literatura...com suas exigências, padronagens, limitações e frustrações, e oposto a isto, o escritor que reage ao desejo de enquadramento e sentido?!...
.
Nesse conto, há inversão de papéis
a mulher é como um cavalo enfurecido e o homem se recusa a avançar; mas a mulher também pode ser o pintor que tenta ver e compreender... Mas há outro homem que importuno ou inoportuno, chega ou rejeita na hora errada.
Mas isto é apenas uma leitura, maginação e não realidade.

beijos e desculpe o pergaminho

Pedro Avillar disse...

O incrível nisso tudo é que os personagens que você cria geralmente não têm nome. Você simplesmente cria e [falando por mim] sinto como se os conhecesse. São pessoas comuns enriquecidas na forma como você escreve. A cada dia me encontro mais e mais na tua prosa,Lê. Tua escrita é cômica, trágica, irônica e triste de quem não percebe o que você faz com as palavras.
Bjoks. Te aplaudo também.

Letícia Palmeira disse...

Mai,

Faz dois anos que leio seus comentários e admito que agora você foi muito bem. Não que antes você não fosse. Mas é que você analisou a coisa de uma forma nunca imaginada por mim antes.

Bjo.

E Neusa,

Estarei em seu blog também. Não pelos elogios e tal. Mas sim porque costumo visitar aqueles que têm paciência comigo. Hoje acordei meio Chaves. =)

Pedro,

You are funny. I'm the monkey. =)

Zeliawski,

Caso seu telefone toque às 3 da manhã, sou eu ligando. Sou parte da madrugada.

Lots of...

NDORETTO disse...

A sua literatura é de humor refinado : ela diverte. Na medida. Bem escrita. Cria um grau de parentesco com o leitor. Por favor, escreva mais. Procurei pelo seu livro, hoje, pela manhã, não encontrei. Compro pela internet, como?

Bjs,
Neusa

CAROLINA CAETANO disse...

Sua destruidora de lares! Hehehe.

Eu já li quase o seu blog inteiro nos últimos dias e ainda não comentei, eu acho. Mas é bom que saiba que leio todos os dias. Ou não é bom.

Vou repassar este também.

Sonhadora disse...

"Morra você, homem destinado ao lado comum das coisas..."

Ai, você não cansa dos meus comentários sempre tão repetitivos?
¬¬

Às vezes acho que sim e dou um tempo por aqui, mas não consigo: nem que for para te parafrasear eu tenho que dizer que é perfeito.

E eu pinto a casa e gosto dos romances de cavalaria.

;)

Beijo, CoolMadre.